Goiânia completa 93 anos entre a modernização e o aprofundamento das desigualdades sociais
24 outubro 2026 às 17h04

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Goiânia completa 93 anos neste sábado, 24 de outubro, em meio a transformações que modificaram não apenas sua paisagem urbana, mas também as relações sociais e o sentimento de pertencimento de seus moradores. Concebida como símbolo de modernidade, a capital goiana cresceu, ganhou novos edifícios, condomínios fechados e áreas de lazer privadas. Ao mesmo tempo, enfrenta problemas históricos de desigualdade, mobilidade urbana, abandono de espaços públicos e dificuldade de acesso à cultura. Para o sociólogo da Universidade Federal de Goiás (UFG) Fernando de Oliveira, essas contradições ajudam a compreender a cidade que Goiânia se tornou.
Na avaliação do pesquisador, o crescimento populacional e a chegada de pessoas de diferentes regiões do Brasil e do mundo transformaram as características da sociedade goianiense. Uma das marcas que, segundo ele, historicamente distinguiam a capital era o acolhimento. Entretanto, esse traço teria perdido força diante das mudanças sociais e urbanas. “Um processo migratório secular sentou praça na capital. Agora, Goiânia vai perdendo as suas características mais elementares, como os antigos casarões do Centro, para dar lugar aos rooftops elegantes do Alto Bueno enquanto a sua região central permanece entregue ao acaso do abandono”, afirma.
Para Fernando, compreender as mudanças de Goiânia exige olhar para além dos últimos 50 anos. Fundada em 1933, a capital precisou construir sua própria legitimidade diante da resistência de setores ligados à antiga capital, a Cidade de Goiás. O professor cita registros históricos que mostram como parte da população resistia à transferência de serviços e atividades para a nova cidade. A construção da identidade goianiense, portanto, não ocorreu de maneira imediata, mas foi resultado de disputas políticas, transformações econômicas e diferentes fluxos migratórios.
Na leitura do sociólogo, a modernização da capital também reproduz tendências de outras grandes cidades brasileiras. Ele menciona a verticalização, a expansão de empreendimentos imobiliários e a construção de viadutos como exemplos de um modelo de desenvolvimento que nem sempre responde às necessidades da população. Ao recorrer a uma referência musical, Fernando resume sua percepção sobre a dinâmica urbana: “É curioso notar como Chico Science tinha razão quando previu que a cidade não para, a cidade só cresce, o de cima sobe e o debaixo desce”.

O preço de viver na capital
A desigualdade no acesso à moradia é um dos pontos centrais da análise do professor. Para ele, a valorização imobiliária e a concentração de recursos em determinadas regiões restringem as possibilidades de permanência de famílias de menor renda nas áreas mais valorizadas. Como consequência, parte da população precisa buscar moradia em bairros periféricos ou em municípios da Região Metropolitana de Goiânia (RMG), ampliando os deslocamentos cotidianos entre casa e trabalho.
“Quem tem o direito de viver em Goiânia, especialmente nas áreas consideradas nobres, por exemplo, são aquelas pessoas que têm dinheiro de fato. Para as pessoas que não têm, sobram-se as margens”, afirma.
Fernando relaciona esse cenário à formação histórica da sociedade brasileira, marcada pela concentração da propriedade e pela transmissão de privilégios entre gerações. Na avaliação dele, a organização territorial da capital reflete disputas pelo poder econômico e político, enquanto grupos com menos recursos permanecem mais expostos à precariedade da infraestrutura e à vulnerabilidade social.
A própria trajetória do professor ajuda a contextualizar essa interpretação. Ele conta que passou boa parte da vida no Jardim Novo Mundo, na região próxima ao Estádio Serra Dourada, onde acompanhou a transformação da paisagem urbana e a construção de edifícios em áreas valorizadas. Ao recordar a experiência de viver em uma comunidade periférica, menciona ter presenciado situações de violência, criminalidade e alcoolismo que afetavam moradores da região.
A experiência também contribuiu para que ele percebesse as diferenças entre Goiânia e municípios vizinhos, especialmente Aparecida de Goiânia. Para Fernando, a expansão metropolitana não significou necessariamente a construção de uma identidade comum entre os moradores. “Goiânia e a sua região metropolitana (RGM) já não conversavam mais de jeito algum”, avalia.
Na análise do professor, a capital passou a representar, para parte dos moradores da região metropolitana, sobretudo um lugar de trabalho, consumo e entretenimento. A relação com a cidade, nesse contexto, nem sempre se traduz em participação na vida comunitária ou apropriação dos espaços públicos.
Cultura, lazer e oportunidades
A divisão social de Goiânia também se manifesta no acesso à cultura, ao esporte e ao lazer. Embora a cidade tenha museus, bibliotecas, centros culturais e equipamentos públicos, Fernando questiona se esses espaços conseguem alcançar, de maneira efetiva, as populações que mais precisam deles.
O professor utiliza a própria história para ilustrar essa distância. Morador da periferia durante a infância, conta que não imaginava que poderia frequentar instituições culturais como o Museu de Arte de Goiânia (MAG), a Biblioteca Pio Vargas e o Centro Livre de Artes (CLA). Seu primeiro contato com a leitura em uma biblioteca ocorreu na escola municipal Bárbara Souza de Moraes, no Jardim Novo Mundo.
Foi nesse espaço que descobriu a história de Santos Dumont, por meio da leitura de uma biografia. A lembrança sustenta sua defesa de políticas públicas permanentes de acesso à cultura e ao conhecimento.
“Cultura, esporte e lazer salvam vidas de fato e mitigam as desigualdades, sobretudo, intelectuais”, afirma. Para ele, a manutenção dessas políticas não pode depender exclusivamente das prioridades de cada administração municipal. “São elementos que precisam ser cuidados permanentemente porque não vivem autonomamente e sempre ficam relegados ao acaso das próximas eleições”, acrescenta.
A observação aponta para um desafio que ultrapassa a oferta de atividades culturais: garantir que os equipamentos existentes sejam conhecidos, acessíveis e integrados à vida cotidiana dos moradores de diferentes regiões da cidade.
Uma cidade feita para os carros?
A mobilidade urbana é outro aspecto que, na avaliação de Fernando, revela as prioridades adotadas no desenvolvimento da capital. Ele critica a concentração de investimentos na circulação de automóveis e a falta de atenção às calçadas, à caminhabilidade e à qualidade dos deslocamentos a pé.
“As ruas e avenidas da cidade só recebem atenção na hora de aumentar a velocidade dos carros”, afirma. Para o professor, a infraestrutura urbana precisa considerar também pedestres, ciclistas e usuários do transporte coletivo, em vez de privilegiar a fluidez do trânsito individual.
Fernando observa que a dependência do automóvel interfere até mesmo em atividades cotidianas, como ir à padaria ou percorrer pequenas distâncias. Esse modelo, segundo ele, reduz as oportunidades de convivência nas ruas e dificulta a construção de uma cidade mais acessível.
A crítica também se estende aos condomínios fechados, que se expandiram em áreas de valorização imobiliária. Embora sejam apresentados como alternativas de segurança e qualidade de vida, esses empreendimentos podem reforçar a separação entre grupos sociais e estimular formas de ocupação urbana baseadas no isolamento.
“Os condomínios fechados chegaram como alternativa para quem tem dinheiro”, diz. Na avaliação do professor, a busca por espaços protegidos também expressa o medo e a percepção de insegurança, ao mesmo tempo que restringe a convivência entre diferentes segmentos da sociedade.
A discussão, portanto, não se limita à arquitetura dos empreendimentos, mas envolve a maneira como a cidade distribui seus espaços e oportunidades. Para Fernando, a construção de uma capital mais integrada depende de políticas que favoreçam a circulação, a convivência e o acesso democrático aos equipamentos urbanos.
O futuro de Goiânia e a disputa pelo espaço urbano
Ao analisar quem teve influência sobre os rumos da capital, Fernando aponta a permanência de grupos economicamente privilegiados nas decisões que moldam a cidade. Para ele, as necessidades das populações periféricas e de menor renda historicamente tiveram menos espaço na definição das prioridades urbanas.
O professor relaciona esse desequilíbrio à concentração de propriedade e à continuidade de estruturas de poder. “As classes elementares sempre ficarão na mesma camada habitual, à margem. E as oligarquias continuarão na mesma bolha de sempre, dos privilégios”, afirma.
A avaliação lança luz sobre uma questão central para o aniversário da capital: crescer não significa, necessariamente, oferecer as mesmas oportunidades a todos. A expansão de edifícios, centros comerciais e empreendimentos imobiliários pode coexistir com dificuldades de acesso à moradia, à cultura, ao lazer e à mobilidade.
Para Fernando, o desafio está em reconhecer que a cidade não é apenas um conjunto de construções e vias de circulação, mas um espaço de convivência e disputa social. A preservação do patrimônio histórico, a revitalização do Centro, o fortalecimento dos equipamentos culturais e a melhoria da infraestrutura nas periferias integram, nessa perspectiva, uma mesma discussão sobre o direito à cidade.
Aos 93 anos, Goiânia carrega as marcas de sua origem planejada e de um crescimento que ultrapassou as expectativas iniciais. A capital continua a se transformar, mas o modo como essa transformação beneficia seus habitantes permanece no centro do debate. Na leitura do sociólogo, o futuro da cidade depende também de quem consegue participar de suas decisões, ocupar seus espaços e usufruir das oportunidades que ela oferece.
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