Gás caro mata: a tragédia de Stive Deives em Goiânia escancara a miséria

A morte de um homem que tentava cozinhar com álcool por não ter dinheiro para comprar um botijão é o exemplo mais explícito de que a pobreza cresce como nunca

Stive Deives, quando era socorrido logo após ter se queimado tentando cozinhar com álcool por falta de gás | Foto: Chirlene Correia/Arquivo pessoal

Stive Deives nasceu na década de 80, quando a sinuca havia se tornado um esporte nacional por obra da TV Bandeirantes e de Rui Chapéu, grande jogador do esporte. A convite da televisão, o inglês Steve Davis, um dos maiores nomes da história da sinuca (snooker, em inglês), veio ao Brasil jogar com Rui, em vários duelos na mesa verde. Muito provavelmente veio aí o nome de nosso personagem.

Stive Deives nasceu também no auge de uma inflação galopante, descontrolada. E foi por conta de carestia que sua vida foi encerrada precocemente.

Na última semana, ele não tinha mais gás em sua casa, no Setor Jardim Bela Vista, limite do município da capital com Aparecida de Goiânia. A família também não tinha dinheiro para comprar. O jeito foi improvisar, como tantos brasileiros à beira da miséria ou já mergulhados nela: usou álcool como substituto.

O resultado foi trágico. A aventura na cozinha terminou com um incêndio em casa e o homem tendo 50% do corpo queimado. Levado pelos socorristas para o Hospital Estadual de Urgências Governador Otávio Lage de Siqueira (Hugol), Stive Deives Alves dos Santos, de 33 anos, morreu ao sofrer uma parada cardíaca durante o procedimento de raspagem, necessário para ferimentos do tipo que havia sofrido.

 

A mulher, Chirlene Correia da Silva, de 50 anos, fez o registro do drama em fotos – como a que compõe esta matéria. À reportagem do portal G1, ela revelou que estavam passando por dificuldades financeiras, já há alguns dias improvisando álcool para se alimentarem.

O drama de Stive e Chirlene se repete em milhões de lares por todo o País. No último ano, o Brasil encareceu em geral – basta ver a inflação anual batendo no teto estabelecido de 6% –,  mas quem mais sentiu foram os mais pobres. 

É que os itens básicos subiram mais. E os pobres às vezes não têm dinheiro nem para o básico. Foi o enredo do casal da triste história.

Claro que a pandemia piorou bastante o quadro já ruim da economia no País. Mas alguns setores foram menos abalados. Ou nem foram. O agro está em regozijo com a alta das commodities. E, priorizando o mercado internacional, os itens de subsistência faltam aos brasileiros.

Fica uma questão que vai arrepiar os liberais: a não interferência do governo no preço do gás de cozinha é importante para o mercado, mas matou quantos, direta ou indiretamente, até agora?

O Brasil não está preparado para uma economia de viés liberal. E não estará enquanto a desigualdade social não for enfrentada como prioridade número um. 

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