“Frustração da expectativa de recuperação rápida da economia é muito provável”

Cientista político autor do livro “A Cabeça do Eleitor” vem a Goiânia como palestrante de evento que discute ideias para pensar uma capital sustentável e melhor para 2020

 | Foto: Arquivo/EBC

Cientista político Alberto Carlos Almeida disse que o momento é muito incerto pela gravidade da crise econômica, mas que perfil do vice-pesidente Michel Temer (PMDB) é de “político por excelência”, coisa que a presidente Dilma Rousseff (PT) não tem | Foto: Arquivo/EBC

Diretor-geral do Instituto Análise, o cientista político Alberto Carlos Almeida, autor do livro A Cabeça do Eleitor (Editora Record, 2007), é um dos palestrantes convidados do evento “Goiânia 2020 – A Cidade Que Queremos”, na próxima semana.

Doutor em Ciências Sociais pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), foi professor universitário, fez assessoramento de campanhas eleitorais e atuou como coordenador de pesquisas eleitorais entre 2002 e 2007, é colunista do jornal Valor Econômico e vem a Goiânia discutir o futuro da capital a partir de uma perspectiva de elaboração da sustentabilidade da capital.

A Cabeça do Eleitor

Capa do livro A Cabeça do Eleitor, lançado em 2007 pela Editora Record | Imagem: Divulgação

Capa do livro “A Cabeça do Eleitor”, lançado em 2007 pela Editora Record | Imagem: Divulgação

O livro “A Cabeça do Eleitor”, publicado em 2007, trata de temas como o jeitinho brasileiro ser ou não corrupção e como o brasileiro pensa sobre temas como ética, sexualidade, família e tem na educação o ponto fundamental para mudar o País. A obra trata do entendimento da dinâmica eleitoral e como, através de um estudo amplo, acontece a decisão de voto da população, desde o ponto mais simples ao mais complexo nessa análise de escolha do candidato.

Polêmico, o livro traz o que é apontado pelo autor como o modelo de lógica do pensamento do eleitor brasileiro. “A Cabeça do Eleitor” trata também da montagem e avaliação das pesquisas de opinião e, entre outros temas, a importância do marketing político na escolha de um candidato.

Já no subtítulo do primeiro capítulo do livro, Alberto Carlos Almeida diz: “A opinião pública ensina: há eleições possíveis 1 de serem vencidas e outras, impossíveis (o marketing não faz mágica) – quem manda é o eleitor”. Leia neste link o capítulo 1 de “A Cabeça do Eleitor”: A Cabeça do Eleitor – Capítulo 1

O cientista político conversou com o jornalista Cezar Santos por telefone sobre o momento político que o País vive, às vésperas da possível abertura de um processo de impeachment contra a presidente da República Dilma Rousseff (PT) e um governo liderado pelo vice-presidente Michel Temer (PMDB). Confira a entrevista completa abaixo:

ENTREVISTA|Alberto Carlos Almeida

Em face desse cenário político bastante conturbado, com processo de impeachment da presidente e um provável novo governo, como o senhor analisa esse momento? É bom ou ruim para a democracia brasileira, que ainda é jovem?

Isso é bem ruim para a democracia brasileira, em particular, porque o sistema partidário é uma coisa que leva muito tempo para se consolidar. Nós temos um sistema partidário que vem se consolidando há 30 anos basicamente com três partidos centrais, considerados mais importantes, que são o PT, o PSDB e o PMDB. E esta crise, por caminhos e motivos diferentes, é muito ruim para os três partidos. Óbvio que é pior para o PT, porém ela é muito ruim para os três. A crise coloca um ponto de interrogação no futuro: até que ponto a fragilização dos nossos partidos não vai atrapalhar a consolidação de vários avanços que tivemos recentemente?

Caso se confirme o impeachment da presidente, o governo Temer, que virá como um governo de transição e com período mais curto, não corre o risco de frustrar um pouco as esperanças da população, que aguarda muitas reformas e mudanças?

Sim. Há o risco porque a economia está em uma situação muito difícil, independente se haverá uma maior capacidade do novo governo do que do governo Dilma. A recuperação econômica tende a ser muito lenta, ainda que o governo acerte tudo o quase tudo. Você tem uma expectativa, que não depende do governo, de que haverá uma recuperação rápida. Essa frustração é muito provável. Mas é uma frustração que não necessariamente vai ter a ver com a atuação do governo. E se o governo tiver dificuldades, essa frustração tenderá a ser maior.

O Temer é reconhecido como um político conciliador, de bastante diálogo. Isso pode facilitar as coisas para ele na figura de presidente da República?

É um grande mérito do Michel Temer ele ser um grande negociador. E diante do que aconteceu com a Dilma, uma presidente sem uma capacidade política, sem ter compreendido o que é necessário fazer no mundo da política, o Temer é o contrário. Ele é um político por excelência. Isso é uma mudança para melhor muito grande. Tem aspectos que não dependem do Temer como o fato de não chegar no cargo eleito. O fato de você chegar no cargo eleito te dá uma força bem maior do que você chegar no cargo por meio de um processo de impeachment.

De que forma esse cenário conturbado vai impactar as eleições que acontece em poucos meses? Essas pessoas que estão envolvidas em denúncias terão mais dificuldades de transferir votos?

A minha expectativa para a eleição desse ano é a de que aumente a abstenção, que fica sempre em torno de 20% e um pouco abaixo disso. Pode ser que seja maior. O aumento de votos brancos e nulos, e que haja uma maior quantidade de candidatos de fora da política com chance de ser eleitos, como aquele perfil do radialista, candidato conhecido, mas que não é político. Isso vai acontecer.

Tem um fator contrário, que é a dificuldade do financiamento de campanha. Isso é um fator a favor do mundo político, em que os candidatos dos maiores partidos sejam os únicos capazes de financiar suas campanhas em função de suas respectivas estruturas partidárias. Isso não está claro, a gente vai aprender na eleição.

Deixe um comentário