Força-tarefa realizou 11 captações e oito transplantes de órgãos na última semana em Goiás

Estado é referência no Centro-Oeste em captação e transplantes de órgãos. Mobilização contou com equipes do HGG, Huana, Hugol e laboratório Lacen

Hugol é responsável por 50% da captação em todo Estado | Foto: Divulgação/SES-GO

Referência no transplante de órgão no Centro-Oeste, Goiás realiza nos últimos dias uma força-tarefa pela captação de órgãos. Desde a última sexta-feira, 8, foram onze órgãos captados e oito transplantes. Apenas em 2019, Goiás realizou 215 captações e 842 transplantes de órgãos e tecidos.


A mobilização da última semana envolveu cerca de 40 profissionais da CET-GO, equipes médicas e logísticas. Houve envolvimento e interação de profissioanis dos Hospitais Estaduais Alberto Rassi (HGG), de Urgências da Região Noroeste de Goiânia (Hugol), de Urgência de Anápolis (Huana), do Hemocentro Coordenador Estadual de Goiás Dr. Nion Albernaz e do Laboratório Central de Saúde Pública Dr. Giovanni Cysneiros (Lacen-GO).


A ação começou na sexta-feira, 8, com a morte de uma paciente do Huana de 42 anos. A captação teve ajuda do Lacen-GO que entregou em tempo recorde (7 horas) o resultado de detecção da Covid-19, atualmente uma norma do Ministério da Saúde para os processos de doação de órgãos.

“O trabalho foi muito ágil, porque estavam todos envolvidos. Foram muito responsáveis, porque sabiam que, para realizar a captação dos órgãos em tempo hábil, era preciso o resultado do exame”, avaliou Katiuscia Freitas, gerente de transplantes da SES-GO.


Pacientes goianos receberam dois rins, fígado e duas córneas. Um dos membros da família da doadora se emocionou e afirmou que apesar do luto, todos endenderam ser o melhor caminho. “Vamos beneficiar vidas que precisam desses órgãos. Ficamos felizes por expandir o amor ao próximo por meio desse gesto”, disse sem querer se identificar.

A captação marcou o recomeço da agenda deste ano, que esteve paralisada em abril, em decorrência da pandemia de Covid-19. “Janeiro, fevereiro e março foram muito bons. Abril foi o mês da dificuldade, porque foi o ápice para restruturar o serviço para adequar com a pandemia. Isso foi em nível nacional. Agora em maio as doações voltaram a acontecer”, afirmou Katiuscia.

Com o coronavírus, passou a ser obrigatória a testagem dos doadores para dissipar riscos de contaminações por coronavírus em pacientes receptores dos órgãos. “Conseguiu que a maioria dos estados façam esse exame em 24 horas e que o Lacen fizesse para a gente em sete horas. Foi um tempo que não prejudicou na espera das famílias, contribuiu muito positivamente” contou. “Um dos nossos receios é esse de demorar, de fazer o processo ficar mais longo por conta do exames, mas conseguimos”, comemorou.


Uma das receptoras foi uma mulher de 53 anos que estava com quadro fulminante de hepatite no HGG. Internada há uma semana, apenas o transplante poderia salvá-la. “Quando o paciente entra em um quadro de insuficiência hepática, não existe nenhuma máquina que substitua o fígado. Ele precisa de um transplante ou pode vir a óbito”, informou Claudemiro Quireze, médico que liderou o procedimento.

Nos últimos dois meses, 29 pacientes receberam transplantes na unidade, que é a única que pode realizar esse tipo de procedimento em Goiás, por meio do Serviço de Transplantes de Fígado. “Essa é a maior cirurgia do corpo humano e vem sendo estudada desde 1963. Temos orgulho de sermos pioneiros aqui em Goiás”, ressaltou o médico.


Ainda, foram transplantados no HGG três rins, um de Pernambuco e dois de Santa Catarina. Lá, já foram realizados 436 transplantes de rins, sendo o que mais realizou esse procedimento no Centro-Oeste.


Já no Hugol, um paciente de 27 anos com morte encefálica pôde doar seis órgãos e tecidos, sendo um coração, um fígado, dois rins e duas córneas. Apesar do momento sensível para a família, especialmente para a mãe, em decorrência do Dia das Mães, ela se sensibilizou e autorizou a doação.

Para aproveitar os órgãos em tempo hábil, uma equipe do Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal trouxe de helicóptero profissionais da Central de Transplantes da capital federal para buscar o fígado. Bombeiros goianos levaram o coração até o aeroporto, onde uma avião da Força Aérea Brasileira (FAB) há aguardava com uma equipe médica de São Paulo em busca do órgão. Dois rins e duas córneas atenderam pacientes paulistas.

O Hugol é responsável por 50% de toda captação do Estado. “É um hospital que abraça a cultura da doação de órgãos. Toda a equipe acredita no processo, e realizar o acolhimento humanizado dos familiares faz com que estes se sintam mais seguros para realizar a doação”, pontuou Katiuscia.

Pandemia

De acordo com a gerente de transplantes, todo o sistema teve de sofrer adaptações por conta da pandemia de Covid-19. “Começamos o ano bem. Com a pandemia vieram algumas dificuldades. Houve toda uma reestruturação do sistema, reuniões nacionais com todos as centrais estaduais para decidir com conseguir os transplantes com segurança e as recomendações das associação brasileira para não passar”, informou.

“O mês de abril foi nosso mês mais crítico, que foi essa parte de restruturar, reorganizar para fazer os exames nos doadores porque é obrigatório para trazer mais segurança ao processo. Agora em maio conseguimos retomar com essas doações e acreditamos com força para continuar os transplantes. Vamos continuar lutando para que os transplantes continuem acontecendo, até porque um paciente da hemodiálise, por exemplo, fica exposto em sala cheia com a imunidade comprometida”, falou Katiuscia.

Ao Jornal Opção, a gerente de transplantes informou que nenhum dos médicos envolvidos nas ações esteve contaminado ou suspeito de Covid-19. “As equipes de transplante não têm nenhum profissional afastado, até porque temos que nos proteger ao máximo para não oferecer risco e temos tomado todas as medidas com todos os profissionais para que não ofereçam risco tanto no processo de doação, quanto no de transplante”, conta.

“Mesmo fazendo exame, a equipe já se comporta como um caso suspeito, veste toda a paramentação, para não correr risco nenhum de contaminar o receptor”, afirmou Katiuscia.

Convencimento

Ela explica que como o foco agora é na pandemia, é difícil introduzir o tema do transplante nas pessoas em geral. “Por exemplo, conduzíamos muitas palestras presenciais. Nisso tivemos que recuar. Estamos na fase de pensar como que vamos fazer isso de forma online. Com a população, vamos ter que trabalhar a comunicação pelas redes sociais, que continua sendo difícil. Goiás tem uma recusa de familiares alta e é por desconhecimento do process”, explica.

“Tem gente que recusa, às vezes, por não saber como funciona. Muitos [da família] falam que não vão doar porque ele não era doador em vida, mas aí se você for averiguar porque ele não era doador, às vezes por uma dúvida que tiramos em palestra. Eu falo porque faço muitas palestras e vejo quantas pessoas se manifestam não doadoras e depois que tiram as dúvidas falam que são doadora de órgãos”, conta.

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