“É preciso entender o que acontece em Fiji”: infectologista explica disparada de casos de HIV
17 setembro 2026 às 19h04

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O governo de Fiji declarou emergência nacional de saúde devido ao avanço das infecções pelo HIV. O país registrou 2.016 novos diagnósticos em 2025, número 16 vezes superior ao registrado em 2019. Atualmente, a estimativa é de que uma em cada 60 pessoas adultas no país viva com o vírus, ante uma em cada 167 cinco anos atrás.
A situação também chama atenção pelo crescimento acelerado das novas infecções. Segundo a UNAIDS, os novos casos de HIV em Fiji aumentaram 12 vezes entre 2010 e 2025. Entre os casos cujo modo de transmissão é conhecido, mais da metade está relacionada à transmissão sexual e mais de 42% ao uso de drogas injetáveis.
Para o infectologista Marcelo Daher, entretanto, é necessário analisar as características sociais e epidemiológicas de Fiji antes de apontar uma causa única para o crescimento. Segundo ele, fatores como exposição sexual, vulnerabilidade social e dificuldade de acesso à prevenção e ao tratamento podem contribuir para o cenário. “É uma coisa muito complicada da gente analisar. Você precisa analisar o cenário de Fiji. Se existe um turismo sexual frequente ali, você tem um aumento de exposição”, afirmou ao Jornal Opção.
O especialista compara a situação com cenários observados anteriormente em países africanos, mas ressalta que é preciso considerar as particularidades de cada local. “Você tinha mais ou menos um cenário parecido. Mas era pobreza extrema, situações de vulnerabilidade, alta promiscuidade sexual. Então, você tinha vários fatores. É preciso entender o que está acontecendo lá em Fiji, o que levou esse número de casos a uma elevação desse tamanho”, explicou.
PrEP é uma das principais estratégias de prevenção
Entre as medidas de prevenção disponíveis atualmente está a profilaxia pré-exposição ao HIV, conhecida como PrEP. O método utiliza medicamentos antirretrovirais por pessoas que não têm HIV, mas apresentam risco aumentado de adquirir o vírus.
Para Daher, a PrEP tem papel importante na redução de novas infecções quando utilizada corretamente e disponibilizada para as populações que podem se beneficiar da estratégia. “A melhor estratégia exclusivamente para a profilaxia, para a prevenção do aumento do número de casos, é a PrEP. A PrEP tem uma ação de proteção muito grande. Mas ela tem que ser utilizada da maneira correta”, afirma.
O infectologista defende ainda a ampliação do acesso à prevenção. “Temos que conseguir fazer ela chegar em todo mundo. Porque, no Brasil, hoje, ela é muito limitada. Ela não tem uma distribuição tão fácil. Tem uma certa dificuldade das pessoas, principalmente as mais necessitadas, a terem acesso a ela”, disse.
Segundo o especialista, além da PrEP, a educação continuada é fundamental para reduzir a transmissão do HIV. “Precisava fazer com que ela chegasse mais facilmente a todo mundo. Se isso acontecesse, a gente teria uma ação de profilaxia muito boa no Brasil também. Mas a melhor estratégia, sem dúvida alguma, é a educação continuada e a PrEP”, afirmou.
Em Fiji, o governo anunciou medidas para ampliar testes, tratamento e acesso à PrEP, além da implantação de programas de distribuição de seringas e agulhas para pessoas que usam drogas injetáveis. A UNAIDS também destacou a necessidade de ampliar a prevenção e reduzir barreiras de acesso ao atendimento.
Diagnóstico precoce evita evolução para aids
Daher também destaca a importância de identificar a infecção pelo HIV o mais cedo possível. Segundo ele, pessoas diagnosticadas e tratadas adequadamente podem ter uma vida normal. “O paciente que está tratando, que está com o HIV detectado, ele tem uma vida normal. O tratamento não impede que ele tenha uma vida normal. Por exemplo, casar, ter filhos e tudo mais”, explica.
A recomendação, segundo o infectologista, é que pessoas que tenham sido expostas a situações de maior risco procurem a testagem. “Quando a gente faz o teste e diagnostica mais precocemente, a gente evita que ele chegue numa fase de doença mesmo. Em termos de saúde, é muito melhor para ele se ele não tiver doença instalada”, afirma.
O tratamento adequado reduz a possibilidade de evolução da infecção para a aids e também diminui a ocorrência de complicações relacionadas à doença. Entre elas estão infecções oportunistas e outros problemas de saúde associados à infecção pelo HIV.
Impacto no sistema de saúde
O avanço das infecções também pode aumentar a pressão sobre os sistemas de saúde, especialmente quando o diagnóstico e o tratamento não ocorrem de maneira adequada.
Daher aponta dois impactos principais: aumento das internações e da mortalidade. Ele também cita possíveis consequências sociais, como o crescimento do número de crianças que podem perder os pais em decorrência da doença e o aumento do risco de transmissão vertical, da mãe para o filho. “Você vai ter um aumento de órfãos, de crianças órfãs. E vai ter um aumento de transmissão vertical, de transmissão da mãe para o filho”, afirma.
Em Fiji, os impactos já alcançam gestantes e crianças. Dados oficiais apontam que cerca de 2% das mulheres grávidas vivem com HIV. Em 2025, 59 bebês nasceram com HIV e 18 morreram antes de completar um ano.
Apesar do aumento dos casos, parte da elevação também está relacionada à ampliação da testagem e à identificação de pessoas que anteriormente poderiam não ter sido diagnosticadas. A UNAIDS estima que cerca de 9.100 pessoas viviam com HIV em Fiji em 2025, mas apenas 39% conheciam sua condição e 22% estavam em tratamento antirretroviral.
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