Fechamento de fábricas da Ford no Brasil pode impactar mercado goiano de veículos

Carga tributária brasileira é apontada como um dos motivos para saída de fabricante do País

| Foto: Divulgação

Na última segunda-feira, 11, a fabricante de veículos Ford anunciou o fechamento de suas três indústrias remanescentes no Brasil. A empresa justifica a retirada de suas fábricas do País devido ao prejuízo causado pela pandemia de Covid-19.

Diante a esta repentina declaração da fabricante, diferentes ramos do comércio de veículos sofrerão impactos em suas finanças. O comerciante Hasuhério Lucena, por exemplo, é um dos donos de uma loja de veículos semi-novos localizada no setor Jardim Atlântico, em Goiânia. Ele afirmou que o fechamento das fábricas da Ford já trouxe prejuízos para sua loja.

“Havia um rapaz interessado em comprar uma Ford Ranger comigo, mas agora ele já não está querendo mais, por causa disso”, explica Hasuhério. O comerciante ainda aponta a mentalidade do brasileiro como um fator que atrapalhará ainda mais a venda de carros daqui para frente. “O pessoal acaba não entendendo que ainda vão ter peças de reposição no País”, complementa.

A fala do comerciante ganha reforço com uma declaração do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec). Segundo a entidade, o encerramento das atividades no Brasil não altera a responsabilidade da fabricante, que continua obrigada a dar suporte ao consumidor.

“O Código de Defesa do Consumidor não isenta o fornecedor da responsabilidade pelos vícios apresentados pelo produto durante o tempo de vida útil. Caso identifique problema, poderá exigir do fornecedor o conserto do produto, podendo ainda em casos de não reparação exigir o dinheiro de volta, com base no disposto no artigo 18 do Código de Defesa do Consumidor”, diz Igor Marchetti, advogado do Idec.

A Ford se manifestou garantindo que não está saindo do país. Operações de vendas, serviços, peças de reposição e garantia para seus clientes no Brasil continuarão a funcionar. Em comunicado feito por meio de nota, a empresa ressalta que também manterá o Centro de Desenvolvimento de Produto, na Bahia, o Campo de Provas, em Tatuí (SP), e sua sede regional em São Paulo.

Caso a concessionária se negue a fazer o reparo em garantia dos veículos que foram descontinuados, o consumidor deve recorrer aos órgãos de proteção ao consumidor, “poderá fazer denúncia ao Procon de sua cidade, reclamação no consumidor.gov.br, e por fim, se nenhuma das medidas for satisfatória, ingressar com ação judicial mediante representação de advogado”, orienta Igor Marchetti.

Concessionárias

Os empresários donos de concessionárias também foram pegos de surpresa com o anúncio do fechamento das fábricas da Ford. Muitos enfrentam a possibilidade de demitir seus funcionários e até mesmo fecharem suas empresas.

Uma dona de duas concessionárias da montadora, que pediu para não ser identificada, relatou que já teve pedidos cancelados e negociações interrompidas. Com isso, os vendedores serão dispensados.

A empresária relata ainda ter sido procurada por proprietários de veículos Ford que querem vendê-los por temerem que a manutenção fique mais cara ou mais difícil.

Em São Paulo, grandes concessionárias da marca divulgaram notas em suas redes sociais informando que, apesar do anúncio da montadora, as operações de vendas e assistência técnica continuam.

Motivos para saída

Carga tributária é vista como fator para saída de Ford do País. │Foto: Rafael Neddermeyer/ Fotos Públicas

De acordo com a Ford, as três últimas fábricas da empresa no Brasil se encerram “à medida em que a pandemia de Covid-19 amplia a persistente capacidade ociosa da indústria e a redução das vendas, resultando em anos de perdas significativas”.

Essa diminuição na lucratividade da montadora pode ser justificada com a alta taxa tributária exigida aqui no Brasil. Desse modo, a Ford preferiu optar por continuar sua produção em lugares como a China.

A desvalorização do real pode ser outro fator que incentivou a retirada da empresa do País. Mesmo insumos estratégicos comprados em território nacional, como o aço, são cotados em dólar.

Além disso, o percentual de componentes importados em automóveis produzidos localmente é elevado, em torno de 40%, aumentando o custo de produção e reduzindo o lucro de acordo com a flutuação da moeda norte-americana.

A Ford também enfatizou, ao anunciar o fechamento de suas fábricas, que pretende aumentar o investimento em conectividade e eletrificação de seus carros. Investir na produção brasileira de automóveis com maior conteúdo tecnológico seria excessivamente custoso, da mesma forma que SUVs e picapes.

A nota publicada no dia 11 também deixou claro que a empresa tornará seu foco para produtos “com maior valor agregado”, em detrimento aos compactos que eram produzidos aqui. Dessa forma, o caminho natural foi optar pela importação dos seus próximos lançamentos, desenvolvidos e fabricados em outros mercados.

Demissões

A Ford também informou que 5 mil funcionários devem ser demitidos com o fechamento das fábricas. “A companhia está definindo os planos de indenização e, nos casos em que se aplicar, ela será definida como parte do processo de negociação com os respectivos sindicatos”, afirma em nota.

A empresa também se manifestou a favor de colaborar com sindicatos e outros parceiros para “desenvolver um plano justo e equilibrado para minimizar os impactos do encerramento da produção”.

O presidente nacional do Democratas, ACM Neto, defendeu que o governo federal adote uma postura dura para com a Ford. Ele afirmou que deve ser feita uma avaliação, verificando se a Ford cumpriu com todos os compromissos contratuais de contrapartidas a incentivos fiscais e, caso haja pendências, que a montadora seja acionada na Justiça.

ACM ainda afirmou que a decisão da Ford de fechar as fábricas mostra um descaso de multinacional com o mercado brasileiro: “Isso terá consequências para a imagem da empresa o país”.

[Esta matéria conta com informações de Folha de S. Paulo, UOL e Exame]

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