Falta de estrutura familiar explica caso de adolescentes em Trindade, avalia especialista

Psicólogo forense ouvido pelo Jornal Opção diz que menores envolvidas em sessão de tortura ainda podem se recuperar, desde que família esteja inclusa no processo

Psicólogo forense Leonardo Faria | Reprodução/TV Serra Dourada

Psicólogo forense Leonardo Faria | Reprodução/TV Serra Dourada

O crime bárbaro envolvendo cinco adolescentes do município de Trindade, em Goiás, chocou todo o País no início desta semana. Imagens e vídeos que mostram as jovens, com idade entre 13 e 16 anos, em uma verdadeira sessão de tortura contra outra menor varreram a internet e geraram um estado de comoção nas redes.

As circunstâncias do crime e a frieza das garotas chamam a atenção e levantam a possibilidade para um possível caso de desvio de conduta, além de colocar em xeque até mesmo a sanidade das adolescentes. Mas, antes de qualquer prognóstico, é preciso cautela. É para o que aponta o psicólogo forense Leonardo Faria.

Segundo o especialista, a grande maioria dos crimes envolvendo menores de idade possui a mesma causa: a deficiência na estrutura familiar. “A falta de afeto e de regras é a principal causa. Essas adolescentes acabam reproduzindo o que elas já têm vivido há muito tempo. Elas não são vítimas do sistema, são reprodutoras”, explica Faria.

Ele alerta, ainda, que as autoras possivelmente nunca arcaram com as consequências de suas ações e que, por isso, não se mostram arrependidas. “Elas não veem isso como errado. O exemplo que elas têm em casa e fora dela mostram que a violência e a força são as únicas saídas”, avalia.

O psicólogo defende o processo de ressocialização definido pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, e acredita na recuperação das jovens, desde que a família esteja inclusa neste processo. “A internação é necessária e acredito na reabilitação. Mas as famílias destas jovens devem estar inseridas e também devem ser tratadas. Se trabalhar de forma isolada, a tendência é piorar”, alerta.

Faria explica também que não se deve falar em psicopatia. Em pacientes que ainda não chegaram à maioridade, o termo correto a ser usado é o de transtorno de conduta. Ainda assim, ele pontua que não deve atribuir às garotas o diagnóstico. “São várias situações e condutam que justificam o transtorno de conduta. É difícil também traçar um perfil destas garotas sem conhecer suas famílias.”

Ele acrescenta que a comoção social gerada pelo crime advém do fato das autoras serem todas mulheres e adolescentes, mas destaca que estatisticamente os delitos cometidos por menores são muito menos frequentes. “Buscam-se doenças ou o acesso ao conteúdo violento como justificativas. Mas a criação de menores infratores passa, na grande maioria, pela falta da estrutura familiar”, reforça o especialista.

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