Exploração do amianto em Minaçu: entre diagnóstico e mão de obra

A única concordância entre quem é contra e a favor da extração nas minas de Minaçu é que a cidade precisa de incentivos em outras atividades econômicas

Antônio de Carvalho, ex-funcionário da Sama com seus exames médicos / Foto: André Coelho / Intercept

Como já divulgado pelo Jornal Opção, o Intercept realizou nesta semana uma reportagem em que denuncia um esquema dentro da empresa Sama, do Grupo Eternit, de contratação de médicos para encobrir diagnósticos de doenças nos funcionários, ocasionadas pela inalação da poeira do amianto. Quando procurada pela reportagem, a empresa não quis comentar o assunto.

Diversos podem ser os riscos à saúde e ao meio ambiente em decorrência da exploração mineral de Minaçu, é o que explica o professor Fábio de Macedo Tristão Barbosa, da Universidade Estadual de Goiás (UEG), que realizou um profundo estudo sobre o tema em 2013, em sua tese de doutorado na Universidade de São Paulo (USP). Intitulada “Imperialismo e produção do espaço urbano: a indústria do amianto e a construção da cidade de Minaçu-Goiás”, a tese tem livre acesso na web para quem se interessar.

“Os riscos à saúde dos trabalhadores e população em geral, que porventura venham inalar o pó do amianto, já são conhecidos na comunidade científica nacional e internacional desde o começo do século XX. Os profissionais da Saúde Pública, na área médica, já denotam desde a primeira década do século passado e isso vem se avolumando”, diz Barbosa sobre os malefícios e os riscos que a população exposta ao amianto se encontra mundo afora.

“As doenças mais relacionadas a esta exposição são câncer de pulmão, mesotelioma, placas pleurais e asbestose, podendo atingir outros órgãos como rins, faringe e outros. Isso já é um material bem consolidado na comunidade científica nacional e estrangeira, como o Instituto Fiocruz, que conduz parte dessas pesquisas”, informa.  “Evidentemente que há um tempo de latência, cerca de 20 anos. Alguns vão falar de 25 a 30 anos de exposição para o aparecimento dos sintomas”, acrescentou o professor.

Uma cidade que precisa do amianto

Barbosa concorda, no entanto, que a economia da cidade de Minaçu foi impactada pela decisão tomada em 2017, do Supremo Tribunal Federal (STF), em proibir a exploração da fibra. “Evidentemente que sofre os impactos de uma cidade com uma economia ultraespecializada, que depende toda sua vida da exploração deste mineral. Também os governos e a classe política nunca se preocuparam com alternativas de desenvolvimento locais de cidades, como Minaçu”, opinou.

O uso seguro do amianto é uma tese dos setores econômicos e políticos que defendem a continuidade do processo de produção, extração, comercialização e uso do mineral. Para eles, a tecnologia atual seria capaz de produzir de forma controlada o amianto, sem colocar em risco a saúde dos trabalhadores e da população em geral.

Em 2019, uma matéria de autoria do deputado Rubens Marques (Pros) trouxe novamente a exploração da fibra de amianto para o palco político. A Assembleia Legislativa do Estado de Goiás (Alego) votou e aprovou em definitivo uma proposta para pressionar o Supremo Tribunal Federal (STF) pela liberação da extração em Minaçu, pela Sama. À época, o autor da proposta demonstrava preocupação com a economia na cidade. “A cidade de Minaçu praticamente depende da produção de amianto, com a Sama fechando, são 2 mil desempregados”, declarou Marques em maio do ano passado.

Um dos deputados que se manifestaram contra o banimento foi Lucas Calil (PSD), que ao Jornal Opção reafirmou ser favorável à atuação da empresa no município. “Se fosse para ter novamente essa discussão, eu ficaria mais uma vez do lado da Sama (não é pessoal, até porque não conheço ninguém de dentro da empresa), mas pelo impacto econômico que ela tem na cidade”, afirmou o parlamentar.

“Na questão técnica, médica e legal existe uma desinteligência geral, não apenas da minha parte. Meu voto foi baseado na dependência econômica da cidade pela Sama. Muitos dos meus amigos e eleitores sempre me evidenciaram a importância da empresa lá. Prova disso é que a cidade hoje é um arado, existe uma dificuldade econômica enorme”, argumentou. “Muitas áreas empregatícias tem sua periculosidade, mas se tiver bem equipada, não tem problema”, disse Calil.

De acordo com o último censo do IBGE, Minaçu tem 31.154 habitantes. Em 2010, o PIB per capita da cidade era de R$37.984,95, ocupando a 16ª posição dos 246 municípios goianos. Com a diminuição das atividades da Sama, em 2017, a cidade caiu para 68ª posição dentre as goianas, com PIB per capita de R$29.714,15. Para o deputado Lucas Calil, é preciso uma atenção maior do poder executivo em investir e estimular na cidade o crescimento de outros setores econômicos. “Eu isentaria o empresário que quisesse ir para Minaçu”, declarou.

Para o professor Fábio, criar outras alternativas para Minaçu é imprescindível. No entanto, ainda é necessário se atentar aos danos que qualquer atividade possa causar para a sociedade. “Uma atividade econômica não pode se restringir apenas aos princípios do lucro, do enriquecimento a qualquer custo. Depois largar um lastro de destruição social, ambiental e humano, como fizeram na Bahia [referência à atuação da Sama no município de Poções-BA]. É preciso pensar no passivo ambiental e social que essas atividades tem deixado ao longo de sua história em vários lugares do mundo.”

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