Ex-PGR, Cláudio Fonteles diz que Bolsonaro pode ser investigado por esquema da rachadinha

Declaração foi dada após o site UOL publicar áudios que ligam Bolsonaro a rachadinhas; informações foram obtidas em gravações realizadas pela ex-cunhada de Jair Bolsonaro, a fisiculturista Andrea Siqueira Valle, e na troca de mensagens entre a mulher e a filha de Fabrício Queiroz

Presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido) | Foto: Adriano Machado/Reuters


Gravações mostram envolvimento direto do presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), no esquema ilegal, também chamado de “rachadinha”, em que foi realizada a entrega de salários de assessores a ele durante os mandatos que exerceu como deputado federal, entre 1991 e 2018. Os textos inéditos foram pulicados na madrugada desta segunda-feira, 5, pela jornalista Juliana Dal Paiva, em sua coluna, no portal Uol.

A primeira das três reportagens mostra que Bolsonaro pode ser investigado por atos anteriores ao mandato de presidente da República, que iniciou em 2019, mesmo que o artigo 86 da Constituição Federal seja claro ao pontuar que “o presidente da República, na vigência de seu mandato, não pode ser responsabilizado por atos estranhos ao exercício de suas funções”.

O ex-procurador geral da República, Cláudio Fonteles, por exemplo, explicou aos site que o Augusto Aras, que é o atual procurador-geral, poderia investigar Bolsonaro a partir dos indícios revelados pelas matérias jornalísticas acerca da existência da prática de rachadinha em seu gabinete enquanto exercia o cargo de depurado federal.

Andrea Siqueira Valle, ex-cunhada de Jair Bolsonaro, e Ana Cristina, ex-esposa do presidente | Fotos: Reprodução

Grande parte das revelações pontuadas no material foram feitas pela ex-cunhada de Jair Bolsonaro, a fisiculturista Andrea Siqueira Valle, mas obtidas de forma sigilosa. A mulher é irmã de André Siqueira Valle e Ana Cristina Siqueira Valle, segunda esposa do atual presidente. Andrea, inclusive, foi a primeira dos 18 parentes de Ana Cristina a integrarem os gabinetes da família Bolsonaro, de Jair, Flávio e Carlos, no período entre 1998 e 2018. Exatamente por isso, a mulher é um dos alvos da investigação do caso que envolve o senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ) e, por esse motivo, teve seu sigilo bancário e fiscal quebrados após requerimento do Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ).

Nos áudios enviados ao portal, no entanto, Andrea explica que Bolsonaro chegou a demitir o irmão mais novo dela e de Ana Cristina, na época em que ele era lotado no gabinete de Jair Bolsonaro, na Câmara dos Deputados, em 2007, por não devolver o valor combinado.

“O André deu muito problema porque ele nunca devolveu o dinheiro certo que tinha que ser devolvido, entendeu? Tinha que devolver R$ 6.000, ele devolvia R$ 2.000, R$ 3.000. Foi um tempão assim até que o Jair pegou e falou: ‘Chega. Pode tirar ele porque ele nunca me devolve o dinheiro certo’. Não sei o que deu pra ele”, disse Andrea.

Andrea chegou a admitir o esquema das rachadinhas tanto por parte dela quanto por parte do irmão mais de uma vez entre 2018 e 2019, sendo uma delas durante a festa d casamento do irmão, na véspera do primeiro turno da eleição presidencial de 2018, no dia 6 de outubro. Segundo a matéria, na ocasião, Andrea afirmou estar preocupada com seu futuro, que se mantinha incerto, uma vez recebia mesada como funcionária fantasma do gabinete de Flávio Bolsonaro e não sabia como a situação ficaria após a decisão do pleito. Ela havia sido exonerada do cargo um mês antes, no dia 16 de agosto.

Andrea foi nomeada como assessora da família Bolsonaro por vinte anos. Esteve como assessora de Jair Bolsonaro de 30 de setembro de 1998 a 7 de novembro de 2006, depois foi nomeada no gabinete de Carlos, na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, de 8 de novembro e 2006 a setembro de 2008. Logo em seguida, permaneceu no gabinete de Flávio Bolsonaro até 2018. O que foi apurado, no entanto, é que mesmo durante o período em que a mulher estava lotada nos três gabinetes, ela frequentava academias três vezes por dia e chegava a fazer bicos com faxinas.

Nas revelações feitas durante as gravações, a fisiculturista pontuou que, além do policial e ex-assessor de Flávio Bolsonaro, Fabrício Queiroz, um coronel da reserva do Exército, Guilherme dos Santos Hudson, colaborou com o recolhimento de salários que era realizado no gabinete de Flávio, na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), entre 2008 e 2018.

Coronel da reserva do Exército, Guilherme dos Santos Hudson, tio de Andrea, André e Ana Cristina | Foto: Reprodução

Coronel Hudson também é tio de Andrea, André e Ana Cristina Siqueira Valle, ex-mulher de Jair Bolsonaro. Nos áudios obtidos pelo portal, Andrea chegou a revelar que era ela quem ia com o tio ao banco sacar o salário todos os meses. “O tio Hudson também já tirou o corpo fora, porque quem pegava a bolada era ele. Quem me levava e buscava no banco era ele”, disse Andrea.

Hudson também é um dos alvos do caso da rachadinha investigado pelo MP-RJ. Com a quebra de sigilo bancária e fiscal do militar, foram verificados 16 saques que totalizaram R$ 260 mil, realizados na boca do caixa, com valores superiores a R$ 10 mil, em diferentes momentos entre 2009 e 2016. Além do próprio coronel, Ana Maria Hudson, sua esposa, constou como assessora de Flávio por 13 anos.

Andrea chegou a ser procurada por jornalistas do UOL para falar sobre as gravações, mas após ler as mensagens da coluna, bloqueou os contatos no telefone e nas redes sociais. Já Frederick Wassef, advogado da família Bolsonaro, ao ser informado do conteúdo das gravações, negou todas as ilegalidades e chegou a afirmar que isso se trata de uma antecipação da campanha eleitoral de 2022.

“São narrativas de fatos inverídicos, inexistentes, jamais existiu qualquer esquema de rachadinha no gabinete do deputado Jair Bolsonaro ou de qualquer de seus filhos”, disse Wassef, ao UOL.

Envolvimento de Queiroz

Ex-assessor de Flávio Bolsonaro, Fabrício Queiroz | Foto: Reprodução

Enquanto a primeira e a terceira reportagens sobre o caso das rachadinhas publicadas nesta segunda-feira, 5, focam no envolvimento da família de Ana Siqueira Valle e da de seu tio, o coronel da reserva do Exército, Guilherme dos Santos Hudson, o segundo material jornalístico foca no envolvimento de Fabrício Queiroz.

No texto, é exposta a troca de mensagens feita entre a mulher e a filha do ex-assessor de Flávio Bolsonaro, Márcia Aguiar e Nathália Queiroz. A conversa é referente ao período de outubro de 2019, quando o policial militar se escondeu na casa do advogado da família Bolsonaro, Frederick Wassef, em Atibaia, São Paulo.

Indignada, Nathália chegou a chamar Queiroz de “burro”, em mensagem para a madrasta, por continuar com as articulações políticas. “Ai Márcia, é foda. é foda. Quando tá tudo quietinho para piorar as coisas, vem a bomba vindo do meu pai. O advogado, o 01, todo mundo vai comer o cu dele. E ele ainda vai achar normal. Você conhece meu pai. Vai falar: ‘não falei nada demais’. Sempre acha que não é nada demais”, justificou Nathália.

Na conversa, logo após Nathália chamar o pai de burro, Márcia concorda que a situação é chata, mas afirma que “ainda não caiu a ficha dele”. Logo após, diz que, de qualquer forma, precisa estar ao lado do marido. Ela, inclusive, falou sobre Queiroz se esconder na casa de Wassef: “Essa vida, a gente não tem que confiar em ninguém. Se bobear, nem na própria família. Ainda mais num caso desse daí. Ele [Queiroz] fala da política como se tivesse lá dentro trabalhando e resolvendo. Um exemplo que eu tenho, que parece. Parece aquele bandido que tá preso dando ordens aqui fora. Resolvendo tudo.”

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