EUA assumem controle “permanente” da segurança da Groenlândia em acordo assinado em encontro da ONU
22 setembro 2026 às 08h44

COMPARTILHAR
Os Estados Unidos, a Dinamarca e a Groenlândia assinam nesta terça-feira, 22, um acordo que transfere aos americanos o domínio sobre a segurança da ilha ártica, encerrando um dos impasses diplomáticos mais tensos dos últimos anos. A cerimônia acontece às 10h30 no horário de Nova York (11h30 de Brasília), no prédio da Organização das Nações Unidas (ONU), coincidindo com a abertura da Assembleia Geral da entidade.
O presidente americano, Donald Trump, se reúne com a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, e o primeiro-ministro groenlandês, Jens-Frederik Nielsen, para formalizar o texto que, segundo o próprio Trump, garante aos Estados Unidos “controle permanente” sobre a segurança e todas as outras necessidades na Groenlândia. Já o Departamento de Estado americano informou que o documento proíbe, ainda, a instalação de bases russas e chinesas no território.
Apesar dos detalhes revelados por autoridades americanas, o conteúdo integral do acordo continua sendo mantido em sigilo. De acordo com três pessoas ouvidas pela agência Reuters e familiarizadas com o assunto, o texto vai permitir que os Estados Unidos ampliem sua presença militar na ilha. Nesse sentido, além da já existente Base Espacial de Pituffik, o acordo deve viabilizar a abertura de mais dois pontos: Narsarsuaq, antiga base aérea usada durante a Guerra Fria e hoje habitada por poucas dezenas de pessoas, e Mestersvig, atualmente ocupada pela Patrulha de Trenós Sirius, unidade de elite das forças especiais dinamarquesas.
Enquanto o governo americano celebra o avanço, a Dinamarca optou por reforçar que a soberania groenlandesa segue preservada. Frederiksen declarou em Nova York, nesta segunda-feira, 21, que “o motivo pelo qual podemos concluir este acordo, que é benéfico para a Groenlândia, os Estados Unidos e a Europa, assim como para o Reino da Dinamarca, é que se trata de uma questão de política de segurança”. Em entrevista à rádio DR, ela também classificou o pacto como “um bom acordo do ponto de vista dinamarquês”, destacando benefícios para os países nórdicos, a segurança no Ártico, a Otan e o continente europeu.
Do lado groenlandês, o entendimento segue a mesma linha. A primeira-ministra reforçou à imprensa que o acordo respeita a soberania do reino e o direito do povo da Groenlândia à autodeterminação, já que a ilha é um antigo território colonial dinamarquês que hoje possui autonomia e discute internamente a possibilidade de independência plena.
A trajetória até a assinatura, no entanto, não foi tranquila. Em janeiro deste ano, declarações de Trump sobre a possibilidade de usar força militar ou econômica para adquirir a Groenlândia geraram uma crise diplomática dentro da própria Otan, pressionando Dinamarca e o governo groenlandês a acelerarem as negociações com Washington. À época, autoridades locais chegaram a afirmar publicamente que o território não estava à venda.
Vale lembrar que o interesse de Trump pela Groenlândia não é recente. Ainda durante seu primeiro mandato, o republicano chegou a propor a compra da ilha, sendo novamente rejeitado pelas autoridades locais. Já em dezembro de 2025, ele reforçou a importância do território em entrevista, afirmando que “precisamos da Groenlândia para a segurança internacional. Precisamos dela” e completando que, “odeio colocar dessa forma, mas temos que ficar com ela”.
Do ponto de vista militar, a relevância da ilha remonta à Guerra Fria, período em que russos e americanos mantiveram armas nucleares e submarinos na região do Ártico. Atualmente, segundo Trump, a Groenlândia seguiria estratégica por permitir o monitoramento de ameaças vindas da Rússia e da Europa, já que radares instalados no território ajudam a identificar embarcações e submarinos que trafegam entre a Islândia, a Grã-Bretanha e a própria ilha.
Além do valor geopolítico, a Groenlândia também desperta interesse por sua riqueza mineral, além de reservas de petróleo e gás natural. Contudo, a extração desses minerais enfrenta forte resistência de povos indígenas locais e barreiras burocráticas impostas pelo governo, enquanto a exploração de petróleo e gás segue proibida por razões ambientais.
Com extensão territorial equivalente a três vezes o tamanho do Texas e apenas 57 mil habitantes distribuídos por seu litoral acidentado, a Groenlândia passa, agora, por uma reformulação em sua presença militar, a maior expansão americana no território desde a Guerra Fria, quando os Estados Unidos chegaram a manter 17 instalações e mais de 10 mil militares na ilha.


