Em apenas seis meses, estudantes da Universidade Federal de Goiás (UFG), campus de Cidade Ocidental, desenvolveram uma plataforma digital movida à inteligência artificial (IA) que irá ajudar na tomada de decisões em prefeituras de médio e pequeno porte. Batizada de UrbanAI, a ferramenta nasceu diretamente da vivência no curso de Inteligência Artificial para Políticas Públicas e já entrega resultados.

O primeiro módulo, em formato econômico, será entregue para a Prefeitura de Cidade Ocidental. A novidade também já despertou o interesse de outros quatro municípios do Entorno do Distrito Federal. A equipe, formada por Gabriel Eduardo, Dhiego Emmanuel de Souza Andrade, Leonardo Marianos dos Santos, Caio Rosa Santos e Maryanna Victoria, reúne talentos de áreas como gestão pública, economia, análise de dados e desenvolvimento de software.

Como resultado desse esforço, a plataforma consegue cruzar informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica (IBGE), dados por setor censitário e a localização de equipamentos públicos, como creches e unidades básicas de saúde, em um mapa de satélite interativo.

Dessa forma, o gestor público consegue visualizar, com poucos cliques, quais bairros concentram mais crianças em idade escolar, onde há maior demanda por atendimento médico ou qual região sofre com a falta de asfalto. 

Dor da gestão pública inspira solução com IA

Gabriel Eduardo, idealizador do projeto e ex-gestor municipal em Luziânia, contou ao Jornal Opção que a motivação veio de sua experiência pessoal, na qual viu no dia a dia as necessidades de quem vive na cidade. 

Com isso, ele viu que muito precisava ser melhorado e uniu isso a sua experiência prática na graduação em Inteligência Artificial. “A primeira coisa que eu vou fazer é descobrir um modo de como nós vamos resolver esse problema”, decidiu. Para isso, buscou colegas na universidade que já dominavam o desenvolvimento técnico. 

“Falei com os meninos: ‘Você cria isso aqui, com isso aqui. Eu preciso que você me dê um mapa, que eu consiga clicar ali no mapa. E falar assim, olha, bairro X. E você vai cruzar isso com isso.” O resultado, após seis meses de trabalho nas horas vagas, superou as expectativas. “Nem nos meus sonhos eu esperava isso. Pra mim seria no último semestre eu iria conseguir pensar nisso pra fazer”, admite Gabriel.

A plataforma, contudo, não é um produto engessado. Pelo contrário, a equipe a construiu de forma adaptável às dores específicas de cada município. “Existem vários módulos na plataforma. E um dos módulos, que é o de desenvolvimento econômico, foi sugerido, inclusive, por eles”, revela Gabriel, referindo-se à Prefeitura de Cidade Ocidental.

“O secretário de desenvolvimento econômico nos pediu para criar um módulo onde ele conseguisse enxergar com base no CNPJ, da área de atuação, enxergar quais regiões da cidade têm mais comércio de alimentos, lanchonetes, bares. Qual região da cidade tem mais artesanato, qual região tem mais salão de beleza? Para que ele pudesse direcionar os investimentos municipais.”

Essa demanda já está 100% entregue. Além disso, a UrbanAI conta com oito módulos na parte territorial, abrangendo áreas como segurança pública, esporte e lazer, educação, saúde e desenvolvimento econômico. Em uma demonstração prática, Gabriel explica: “A gente abre um mapa, tipo aquele mapa com satélite da cidade. E aí você clica no bairro e ele tem o maior número de ocorrências, mas é o que está mais distante. Então você sabe que lá vai precisar da polícia no local.”

O prefeito de Cidade Ocidental, Lulinha Viana, já conhece a ferramenta e reagiu com entusiasmo. “O prefeito falou que vai usar todos os módulos”, afirma Gabriel. Contudo, ele faz uma ressalva: “A grande questão é que a decisão é política. É uma decisão que não é técnica. Mas a gente quer trazer técnica para ajudar na decisão. A gente não quer sobrepor a política de forma nenhuma.”

“Quando eu mostro para o prefeito ‘Olha, essa rua aqui é a mais densa populacionalmente da sua cidade e não tem asfalto’. Ora, se for uma decisão puramente política e se ele quer voto, ele tem que fazer asfalto na rua onde tem mais gente. Basicamente.”

Participação social via WhatsApp e gargalo financeiro

Além da parte territorial, a UrbanAI investe pesado na comunicação direta com o cidadão. Um dos módulos irá permitir que qualquer morador registre problemas urbanos, como buracos, postes com lâmpadas queimadas, fios soltos ou mato alto, por meio de um chatbot com geolocalização integrado ao WhatsApp.

“A pessoa manda uma foto com a localização e o chatbot vai armazenando aquilo e entregar para o gestor de obras, infraestrutura”, descreve Gabriel. Ele ressalta que o impacto político dessa funcionalidade é viabilizar a voz do povo. “Quanto mais pessoas reclamarem, o prefeito irá entender que aquele problema está mais grave. E aí ele vai saber quais são os pontos da cidade que estão mais críticos.”

Outro módulo focado em saúde já está em fase adiantada: o sistema pretende enviar lembretes automáticos lembrando sobre dias de vacinação, consultas e necessidades médicas em geral. “Olá, Senhora Maria das Graças. O seu filho, João, nasceu no dia tal, no hospital tal, e amanhã é o dia da sua primeira vacina… O posto de saúde em que a senhora deve levá-lo, no horário tal ou horário tal, é o posto de saúde tal, que é o mais próximo com farmácia que tem aquela vacina”, exemplifica o idealizador.

Tudo isso, porém, esbarra em um desafio conhecido por pesquisadores: o custo. No caso da UrbanIA, o armazenamento de dados sensíveis. “A gente precisa guardar esses dados em servidores muito seguros e muitos dados são muito caros, e é o que é o gargalo hoje da nossa atuação”, admite Gabriel.

Por isso, a equipe propõe um modelo de cobrança acessível. “Uma prefeitura do tamanho de Luziânia, que tem 200 mil habitantes, é um orçamento de cerca de 900 milhões por ano, pedimos cerca de 100 mil para a prefeitura. Para eles isso é nada. E com 100 mil a gente consegue comprar o armazenamento, e consegue manter também pelo menos 4 a 5 garotos alimentando a plataforma”, calcula.

Ele reforça que “90% do que a gente pensa em cobrar, pelo menos no início, é para guardar dados, porque é o nosso maior gargalo, e a gente não tem grana para isso ainda”.

Expansão para outras cidades

O projeto já despertou interesse para além da Cidade Ocidental. “A prefeitura de Novo Gama já topou, a prefeitura de Luziânia. Também estivemos com a equipe de  Valparaíso, todos eles amaram muito a plataforma”, comemora.

Gabriel Eduardo ressalta que a UrbanAI surge como uma ferramenta para ampliar o repertório do gestor. “A ideia é trazer para ele outro tipo de visão, sem nenhum dogma. É mostrar para ele que, às vezes, existe outra visão, outro lugar para se colocar aquele equipamento público.”

Se tudo correr conforme o planejado, a equipe pretende fechar contrato com a primeira prefeitura ainda neste ano. “A gente precisa fechar com uma prefeitura para essa prefeitura nos dar a capacidade de pelo menos contratar um desenvolvedor e quatro estagiários. E aí a gente entrega para a Cidade Ocidental e entrega para outra prefeitura que contratar”, planeja Gabriel.

“A gente só quer que o prefeito pague alguma coisa para os meninos alimentarem a plataforma durante o ano, mantermos funcionando ou os meninos ajudarem as equipes da prefeitura que forem trabalhar e pagar o armazenamento. Pagando isso, para nós não vem nem 20%.”

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