Esquema de corrupção na Valec é idêntico ao da Petrobras, diz procurador

Apenas no trecho de Goiás das obras da Ferrovia Norte-Sul, o montante do desvio já apurado é de mais de R$ 630 milhões

delegado da PF Ramón Menezes, superintendente da PF, Humberto Ramos e procurador-geral da república, Hélio Telho durante entrevista coletiva sobre a Operação O Recebedor | Foto: Larissa Quixabeira / Jornal Opção

Delegado da PF Ramón Menezes, superintendente da PF, Humberto Ramos e procurador-geral da república, Hélio Telho durante entrevista coletiva sobre a Operação O Recebedor | Foto: Larissa Quixabeira / Jornal Opção

A Operação O Recebedor da Polícia Federal (PF), em parceria com o Ministério Público Federal (MPF), deflagrada na manhã desta sexta-feira (26/2), investiga um esquema de corrupção envolvendo a estatal Valec – Engenharia Construção e Ferrovias e empresas contratadas, utilizando um esquema muito parecido com o que acontecia na Petrobrás, investigado pela Operação Lava Jato.

O procurador da República Hélio Telho afirmou na manhã desta sexta, em entrevista coletiva na sede da Polícia Federal em Goiânia, que a Lava Jato está mais avançada em suas investigações, mas pelo que foi possível apurar até agora, o esquema é praticamente o mesmo. “Em qualquer esquema de corrupção envolvendo obras públicas, é utilizada a simulação de contratos de prestação de serviços que nunca existiram, pois transação de dinheiro precisa de nota fiscal”, explicou.

Esquema

No caso da Operação O Recebedor, foi constatado que o ex-presidente da Valec, José Francisco das Neves, o Juquinha, administrava um esquema de cartel nos processos de licitação das empresas escolhidas para realizar as obras da Ferrovia Norte-Sul e Ferrovia de Integração Leste-Oeste.

Segundo o procurador Hélio Telho, as empresas seguiam uma espécie de hierarquia entre si para a escolha de qual delas ficaria com qual trecho da obra. A partir daí, o edital para a escolha da licenciada, feito pela Valec, incluiria exigências de modo a excluir as outras concorrentes em favor da empresa escolhida. Outras empreiteiras também faziam propostas combinadas, com valores maiores que as outras, apenas para constar nos laudos e dar aspecto de legalidade no processo de escolha.

Depois disso, a empreiteira escolhida fazia contratos simulados e realizava o pagamento de propina para a conta de uma das três empresas indiciadas na operação: a construtora Elccom Engenharia, a empresa Evolução Tecnologia e Planejamento Ltda. e o escritório de advocacia Heli Dourado Advogados Associados, todas indicadas por Juquinha.

Segundo o procurador, as empresas chegaram a prestas alguns serviços para as empreiteiras, mas muitos contratos era fictícios. “Alguns dos documentos falsos são de serviços como empréstimo de máquinas ou roçagem de mato, que são de difícil verificação”, afirmou Hélio Telho.

Delação

Todas as informações do esquema foram concedidas em depoimento pela empresa Camargo Corrêa a partir de acordo de leniência e colaboração premiada com o Ministério Público Federal (MPF) em setembro, o que desencadeou este desmembramento da Operação Lava Jato.

A Camargo Corrêa admitiu um repasse de R$8 00 mil para Juquinha das Neves, mas a polícia trabalha com a possibilidade de um montante muito maior, visto que, apenas no trecho da Norte-Sul em Goiás, foi apurado um desvio de R$ 631.544.676,51.

Juquinha das Neves

De acordo com o delegado da Polícia Federal, Ramón Menezes, o escritório de advocacia Heli Dourado foi responsável pela defesa de Juquinha das Neves quando o mesmo era investigado pela operação Trem Pagador, em 2012, que investigava desvios de verbas na Valec, na época em que era presidente.

Com esta nova operação, ele agora também é indiciado por lavagem de dinheiro e corrupção passiva. Só em Goiás, foram expedidos na manhã desta sexta-feira (26/2) seis mandados de condução coercitiva contra sete pessoas.

Depoimentos

Até o fim da manhã, quatro pessoas já estavam na sede da Polícia Federal em Goiânia para prestar depoimento e depois serem liberados. Já haviam sido encaminhados José Francisco das Neves, o Juquinha, sua esposa Marivone Ferreira das Neves e seu filho, Jader Ferreira das Neves, além do sócio da empresa Evolução Tecnologia e Planejamento, Rafael Mundim Rezende.

Ainda devem prestar depoimento em Goiânia, Heli Lopes Dourado, do escritório de advocacia, Rodrigo Ferreira Lopes da Silva, diretor da Construtora Andrade Gutierrez e Josias Gonzaga Carodoso, assessor da Valec na época em que Juquinha era presidente.

Os policias também cumpriram mandados de busca e apreensão nas sedes da construtora Elccom Engenharia, Evolução Tecnologia e Planejamento e no escritório Heli Dourado Advogados Associados.

Ao todo foram 44 mandados de ação coercitiva e de busca e apreensão expedidos em Goiás, Paraná, Maranhão, Minas Gerais, São Paulo e no Distrito Federal. Segundo o delegado Ramón Menezes, os documentos apreendidos nas diligências desta sexta-feira (26) serão analisados e podem desencadear novas fases da Operação O Recebedor.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.