Especialistas explicam que o eleitor que não aparece na pesquisa pode decidir a eleição em Goiás
04 outubro 2026 às 14h03

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A pesquisa eleitoral é uma fotografia. A urna, porém, registra o filme completo. Entre uma coisa e outra existe um eleitor que pode mudar de ideia, deixar de comparecer, esconder sua preferência ou simplesmente decidir o voto nos últimos dias. É nesse espaço entre a intenção declarada e o comportamento efetivo que estão alguns dos principais limites dos levantamentos de opinião.
A discussão ganhou força na reta final das eleições de 2026 a partir da análise do jornalista Pedro Doria sobre os chamados “pontos cegos” das pesquisas. Entre eles estão justamente aqueles que não aparecem com clareza nos levantamentos: quem efetivamente irá votar, quem poderá mudar de escolha na última hora e segmentos do eleitorado mais difíceis de alcançar ou de medir.
Em Goiás, o tema ganha importância adicional diante do histórico recente de abstenção. No primeiro turno de 2022, 4.870.354 eleitores estavam aptos a votar no Estado, mas 1.057.713 não compareceram às urnas, o equivalente a 21,72% do eleitorado. No segundo turno, foram 1.008.547 ausências, ou 20,71%.
Para a advogada Júlia Matos, especialista em Direito Eleitoral, esse é um dos principais elementos que precisam ser considerados quando se interpreta uma pesquisa. Ela explica que existe uma diferença entre declarar que pretende votar e efetivamente comparecer à seção eleitoral.
“Sobre os pontos cegos das pesquisas, o primeiro, eu acho que seria quem vai votar. Como voto obrigatório, quase todo entrevistado diz que vai comparecer, mas a gente tem uma abstenção que gira em torno mais ou menos de 20%, e ela não se distribui de forma homogênea entre os eleitores”, afirma.
A especialista ressalta que a abstenção não invalida os levantamentos. O problema está em interpretar uma pesquisa como se ela fosse uma previsão matemática do resultado.
“Nenhum desses pontos cegos invalida as pesquisas, mas mostra que, de fato, a pesquisa é um recorte, uma fotografia do momento e não uma previsão”, diz Júlia.
Goiás já tem histórico de abstenção elevada
O comportamento do eleitorado goiano ajuda a dimensionar o problema. Em 2022, mais de um milhão de pessoas deixaram de votar no primeiro turno. O percentual de ausência ficou acima de 20% também no segundo turno.
Isso significa que uma parcela expressiva do eleitorado que pode aparecer em uma amostra de pesquisa como simpatizante de determinado candidato não necessariamente se transforma em voto depositado na urna.
Para Luciano Hanna, advogado eleitoralista e ex-desembargador do Tribunal Regional Eleitoral (TRE), essa dificuldade de identificar antecipadamente quem realmente comparecerá às urnas é um dos principais pontos cegos dos levantamentos.
“Ponto cego. Isso é ponto cego, ninguém dá conta de detectar isso. A chance de errar numa pesquisa dessa natureza é enorme, porque as pessoas às vezes, dois dias antes, três dias antes, uma semana antes das eleições, não queriam votar, mas por alguma mudança, alguma coisa que as despertou, elas vão votar”, afirma.
Segundo ele, o comportamento pode ocorrer nos dois sentidos: alguém que afirma que irá votar pode desistir, enquanto outro eleitor que inicialmente pretendia faltar pode mudar de decisão.
“Essa eu acho que vai ser um eterno ponto cego nas pesquisas eleitorais”, resume Hanna.
O eleitor que muda de ideia
O segundo elemento apontado pelos especialistas é a movimentação nos últimos dias de campanha. Em uma eleição muito disputada, pequenas alterações no comportamento dos eleitores podem modificar a distribuição dos votos.
Júlia Matos inclui nesse grupo o voto útil, a migração dos indecisos e a reação a acontecimentos ocorridos na reta final.
“O segundo é a movimentação de última hora, o voto útil, a migração dos indecisos, a reação dos fatos dos últimos dias. Muitas coisas acontecem de uma hora para outra, que também interferem em relação às pesquisas”, explica.
Esse movimento pode ser particularmente relevante quando há vários candidatos próximos nas pesquisas. Um eleitor que inicialmente declara preferência por determinado nome pode, diante da percepção de que seu candidato tem pouca possibilidade de avançar, optar por outro.
A dinâmica também pode ocorrer no sentido inverso: um candidato que aparece em posição competitiva pode receber votos de eleitores que anteriormente declaravam apoio a outras candidaturas.
O que é, afinal, o voto útil?
O voto útil costuma aparecer com maior intensidade quando o eleitor entende que precisa escolher entre apoiar seu candidato preferido ou votar em outro nome com maior possibilidade de vitória ou de avançar na disputa.
Hanna, entretanto, faz uma avaliação crítica desse comportamento, especialmente no primeiro turno.
“Eu não vejo isso com bons olhos. Eu vejo com péssimos olhos, que você deixa de prestigiar o candidato do seu partido ou candidato da coligação ao qual você faz parte e passa a trabalhar o não voto”, afirma.
Para o advogado, a estratégia pode acabar reduzindo a diversidade da disputa.
“Você entra em uma eleição para ganhar ou perder e não é porque você não está na perspectiva boa nas pesquisas que você tem que ser excluído do processo eleitoral. Então eu vejo isso com péssimos olhos e vejo como uma exclusão”, diz.
Juridicamente, porém, a existência do voto útil não significa irregularidade. Trata-se de uma decisão individual do eleitor. O que a Justiça Eleitoral restringe são práticas de aliciamento, propaganda irregular e outras condutas previstas na legislação.
Liderar dentro da margem de erro não significa estar isolado
Outro ponto importante na leitura das pesquisas aparece quando dois candidatos estão próximos numericamente.
Júlia explica que, quando a diferença entre os concorrentes está dentro da margem de erro divulgada, tecnicamente o resultado é tratado como empate.
“Sobre a liderança dentro da margem de erro, tecnicamente isso é um empate”, afirma.
Ela faz, contudo, uma ressalva estatística que costuma passar despercebida: a margem de erro apresentada em uma pesquisa é calculada para as estimativas individuais, e não deve ser interpretada simplesmente como uma espécie de margem automática para a diferença entre dois candidatos.
“A margem divulgada se aplica a cada candidato individualmente e a incerteza sobre a diferença entre os dois candidatos é ainda maior”, explica.
Isso não significa que os candidatos tenham necessariamente exatamente o mesmo desempenho. Significa que uma diferença numérica pequena não deve ser transformada em uma vantagem consolidada.
Terceiro colocado pode terminar na frente?
Outro fenômeno que ajuda a explicar a distância entre pesquisa e urna é a possibilidade de um candidato que aparece atrás nos levantamentos terminar à frente no resultado oficial.
Júlia lembra que isso já ocorreu em eleições anteriores.
“Terceiro nas pesquisas, primeiro nas urnas. Isso pode acontecer, já aconteceu”, afirma. Como exemplo, ela cita as disputas para governo de Minas Gerais e do Rio de Janeiro em 2018, nas quais candidatos que apareciam atrás em pesquisas terminaram o primeiro turno na liderança.
Para ela, esse tipo de virada se torna mais plausível quando há proximidade entre os candidatos, grande quantidade de indecisos e forte movimentação de última hora.
“Isso é plausível quando os candidatos estão próximos entre si e existem muitos indecisos e tem um movimento forte de voto útil ou até mesmo de rejeição aos líderes ou àqueles que estão com certo destaque há um tempo nessas pesquisas finais”, afirma.
O cenário goiano
A discussão sobre os limites das pesquisas também aparece no cenário eleitoral de Goiás.
Levantamentos registrados na Justiça Eleitoral são obrigados a apresentar metodologia, tamanho da amostra, período de coleta, margem de erro, nível de confiança e outras informações. O TSE mantém o sistema PesqEle para consulta dessas informações. Em setembro, a Corte anunciou mudanças para ampliar o detalhamento dos procedimentos de campo, da amostra efetivamente realizada, das recusas e substituições e de outros aspectos metodológicos.
Um levantamento da Quaest divulgado na reta final, por exemplo, ouviu 2.004 eleitores de Goiás entre os dias 2 e 3 de outubro para a disputa pelo governo estadual. A margem de erro máxima informada foi de dois pontos percentuais, com nível de confiança de 95%, e a pesquisa foi registrada no TSE sob o número GO-00674/2026.
Em outro levantamento, sobre a disputa presidencial em Goiás, a Quaest entrevistou 804 eleitores em 38 municípios entre 20 e 23 de setembro, com margem de erro de três pontos percentuais.
Os números, portanto, devem ser lidos dentro de seus respectivos períodos de coleta. Uma pesquisa realizada dias antes da votação não consegue incorporar automaticamente acontecimentos posteriores ao encerramento das entrevistas.
É justamente por isso que a fotografia pode mudar.
O eleitor silencioso
Além de quem não sabe em quem votar e de quem ainda pode mudar de ideia, existe outro grupo difícil de mensurar: o eleitor que não revela sua preferência.
Hanna afirma que esse comportamento existe e pode ganhar força em disputas polarizadas.
“Eu tenho a certeza disso, até porque nós estamos vivendo uma época de muito extremo e existem alguns eleitores que têm medo de dizer o seu voto”, afirma.
Para o advogado, o sigilo constitucional do voto ajuda a compreender por que uma pessoa pode declarar uma preferência diferente daquela que efetivamente deposita na urna.
“O eleitor hoje tem muito medo de expressar o seu voto. Você realiza uma pesquisa hoje, por mais que seja por telefone, o eleitor acha que pode ser alguém que ele esteja apoiando e que ele não vai votar, ou que ele esteja trabalhando e que seja ligado a alguma pessoa próxima a ele e que ele não vai votar”, afirma.
Por isso, segundo ele, alguns entrevistados podem “camuflar” a preferência.
“Então ele pode sim camuflar o seu voto e liberar apenas na urna, como traz a Constituição, o segredo do voto. Então não são todas as pessoas que respondem 100% correto uma pesquisa eleitoral”, diz.
Pesquisa não é previsão
A existência desses fatores não significa, entretanto, que as pesquisas sejam inúteis.
Ao contrário: elas são instrumentos estatísticos construídos a partir de métodos definidos e submetidos a regras de registro e transparência. O próprio TSE estabelece que pesquisas relativas às eleições devem ser registradas previamente e disponibiliza informações como metodologia, amostra, margem de erro e questionário para consulta pública.
O que muda é a forma como os números devem ser interpretados.
“A pesquisa tem método, tem registro na Justiça Eleitoral, margem de erro calculada, e é justamente por isso que é um instrumento valioso, mas ela mede a intenção, ela não vai medir o comportamento do eleitor”, afirma Júlia.
Segundo ela, quanto mais apertada é uma disputa e quanto maior a presença de indecisos e de eleitores que podem não comparecer, maior é a cautela necessária na interpretação.
“Ela é um retrato honesto daquele momento, mas o resultado mesmo quem define é o eleitor na urna”, resume.
O desafio de medir quem não aparece
Há ainda um terceiro ponto apontado por Júlia: a dificuldade de alcançar determinados segmentos da população.
“O terceiro é a dificuldade de alcançar alguns segmentos do eleitorado, seja pela recusa em responder, seja pela distância entre o perfil da amostra e o próprio eleitorado”, afirma.
É uma questão metodológica importante. Uma pesquisa precisa construir uma amostra que represente características relevantes da população eleitoral. Se determinados grupos têm maior dificuldade de ser entrevistados ou apresentam taxas de resposta diferentes, o instituto precisa utilizar procedimentos estatísticos para ponderar os dados.
A atualização feita pelo TSE no PesqEle passou justamente a detalhar aspectos relacionados a amostra, procedimentos de campo, perdas, recusas, substituições, ponderação e taxa de resposta, ampliando a quantidade de informações disponíveis para a sociedade.
Abstenção pode pesar em uma eleição apertada
Para Júlia, entre os diferentes fatores que podem interferir em uma disputa equilibrada, a abstenção merece atenção especial.
“Os indecisos e o voto útil costumam se diluir entre vários candidatos, enquanto a abstenção pode atingir de forma desproporcional o eleitorado, de um lado só, por questões diversas, mobilidade, idade ou até mesmo região”, afirma.
Ela ressalta que pequenas diferenças no comparecimento podem ter impacto relevante quando os candidatos estão separados por poucos pontos.
“Poucos pontos de comparecimento, a mais ou a menos, também podem interferir nessa questão”, explica.
Em Goiás, o histórico de 2022 mostra que não se trata de uma hipótese abstrata. Mais de 1 milhão de eleitores deixaram de votar no primeiro turno daquele ano.
O que as pesquisas não conseguem responder
A questão levantada por Pedro Doria, portanto, não é necessariamente se uma pesquisa está “certa” ou “errada”. A pergunta central é outra: até onde uma fotografia consegue antecipar o comportamento de milhões de pessoas diante de uma urna?
A resposta dos especialistas é que existem limites.
Uma pesquisa consegue medir a intenção declarada no período em que as entrevistas são realizadas. Não consegue saber com certeza quem estará presente no local de votação, quem mudará de ideia depois da entrevista, quem decidirá fazer voto útil, quem esconderá a preferência ou como acontecimentos de última hora modificarão o comportamento do eleitor.
Em Goiás, onde a abstenção ultrapassou 20% nas duas rodadas de 2022, essa diferença entre o eleitor pesquisado e o eleitor que efetivamente comparece às urnas ganha dimensão concreta.
Hanna acredita que o eleitorado chega às urnas de 2026 marcado também por um cenário de menor mobilização política.
“Eu acho que os eleitores mesmo estão desacreditados, acho que tem uma desmotivação política que já vem sendo cultivada há muitos anos”, afirma.
Na avaliação dele, a baixa disposição para participar da eleição pode se somar à polarização e tornar o resultado mais difícil de antecipar.
“É muito imprevisível também o cenário. Muito, muito. Podemos ter caixa de surpresa em ambos os cenários”, diz.
Júlia, por outro lado, reforça que a imprevisibilidade não deve ser confundida com falta de método nas pesquisas. O levantamento tem um objeto específico: registrar o que o eleitor declara naquele momento.
A urna mede outra coisa.
É a passagem entre esses dois momentos — a entrevista e o voto — que pode explicar por que uma eleição aparentemente definida termina diferente do retrato apresentado nos últimos levantamentos.
E, em uma disputa apertada, o eleitor que não aparece nas manchetes das pesquisas — aquele que ainda pode mudar, faltar ou simplesmente não revelar o que pretende fazer — pode acabar sendo uma das peças centrais para compreender o resultado final.


