Episódio narrado por general Villas Bôas em livro recém-lançado nunca aconteceu, diz Elio Gaspari

No livro, o general narra que, após a morte de Tancredo, Ulysses Guimarães tentou impor a realização de um novo pleito, o que, segundo o jornalista, não procede

General Eduardo Dias da Costa Villas Bôas / Foto: Marcos Corrêa

Já está nas bancas o livro “Villas Bôas: Conversa com o Comandante”. A obra é resultado de mais de dez horas de conversas e entrevistas realizadas pelo professor Celso Castro com o general Eduardo Villas Bôas. As memórias trazidas na obra revelam detalhes de momentos cruciais para a história da política brasileira. O livro, quando pré-finalizado, foi revisado pelo general que ainda solicitou o acréscimo de novos detalhes.

Porém, nem tudo passou pelo crivo do olhar experiente do jornalista Elio Gaspari. Ele, que é autor de cinco volumes sobre a história do regime militar, entre eles “A Ditadura Encurralada”, não hesitou em afirmar que em dado momento a memória do general “falhou feio”.

Em texto assinado por Gaspari e publicado no jornal Folha de S. Paulo, chama atenção para um trecho narrado pelo general onde ele diz o seguinte: “O presidente Sarney relata que, após a morte de Tancredo Neves, houve uma reunião para deliberar como se processaria a nova sucessão. O deputado Ulysses Guimarães tentou impor sua posição que consistia na realização de um novo pleito”.

E continua: “O ministro Leônidas [general Leônidas Pires Gonçalves] posicionou-se no sentido de que, conforme a legislação vigente, o cargo de presidente caberia ao senador Sarney [que havia sido eleito para a Vice-presidência]. Ato contínuo, voltou-se para ele, prestando uma continência disse: ‘Boa noite, presidente’. Com seu arbítrio, o fato estava consumado, o que assegurou uma transição sem percalços”.

O jornalista destaca que Sarney jamais relatou isso. E lembra que o então vice-presidente vestiu a faixa em 15 de março de 1985, sendo a morte de Tancredo em 21 de abril. As incertezas em relação à posse, segundo ele, só foram desencadeadas na noite da véspera, quando Tancredo foi levado para o Hospital de Base de Brasília para uma cirurgia.

Depois, Gaspari rememora as palavras de Sarney sobre o episódio: “Rasga-me a alma o sofrimento de Tancredo. Ulysses me desperta ríspido: ‘Sarney, não é hora de sentimentalismos. Nossa luta não pode morrer na praia. Temos de tomar decisões. Você assume amanhã, como manda a Constituição, na interinidade do Tancredo’. (…) Você não pode acrescentar problemas aos que estamos vivendo. É a democracia que temos que salvar”.

Em outro trecho da publicação, o jornalista destaca que às três da madrugada o telefone de Sarney toca e do outro lado está o general Leônidas [ministro do Exército escolhido por Tancredo] que começou o diálogo com um “boa noite, presidente”. Sarney teria então repetido que não assumiria e Leônidas continuou: “Não temos espaço para erros”.

Por fim, Gaspari enfatiza que a cena narrada por Villas Boas jamais aconteceu, haja vista que Tancredo ainda não estava morto. E completa lembrando que Ulysses, na verdade, não defendia uma nova eleição e sim a posse do vice, Sarney.

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