Condenado pela participação no assassinato do jornalista Mário Eugênio, em 1984, o ex-sargento do Exército Antônio Nazareno Mortari Vieira, hoje com 66 anos, construiu trajetória profissional extensa no serviço público do Distrito Federal mesmo após as condenações. Ele atuou como professor da rede pública por 12 anos, trabalhou por 18 anos como enfermeiro da Secretaria de Saúde (SES-DF) e atualmente é aposentado, recebendo mais de R$ 17 mil mensais.

Nazareno respondeu inicialmente a duas condenações, uma pela morte do jornalista e outra por latrocínio e ocultação de cadáver em Cocalzinho. As penas chegaram a ultrapassar 34 anos, foram unificadas, depois reduzidas e, com progressões e indultos, resultaram em diferentes fases de cumprimento, entre prisões, regime semiaberto e períodos de recolhimento domiciliar. Hoje, com esgotamento de recursos, o ex-sargento tem pena a cumprir até julho de 2033.

Segundo registros oficiais, Nazareno conseguiu ingressar no serviço público enquanto ainda estava condenado. Foi aprovado como professor em 1998 e, em 2000, assumiu o cargo de enfermeiro no Hospital de Base. O Tribunal de Contas do DF (TCDF) avaliou questionamentos sobre as admissões, mas entendeu que não houve irregularidade, já que ele se encontrava em regime aberto e com bom comportamento, entendimento alinhado a decisões do STF sobre condenados em funções civis.

Mesmo assim, em 2013, foi demitido da Secretaria de Educação por abandono de cargo. Na área da saúde, porém, permaneceu ativo até a aposentadoria, em 2018. Durante a pandemia, chegou a ser convocado em processo seletivo emergencial da SES-DF, em 2021.

No currículo Lattes, Nazareno se apresenta como professor universitário do Centro Universitário do Planalto Central Apparecido dos Santos (Uniceplac), onde leciona disciplinas como Anatomia Aplicada, Semiologia, Farmacologia e Urgência e Emergência.

Caso Mário Eugênio

O repórter policial Mário Eugênio, conhecido pela denúncia de grupos de extermínio, foi assassinado em 11 de novembro de 1984 no estacionamento da Rádio Planalto, na Asa Sul. O inquérito apontou que o crime foi planejado um mês antes, em um churrasco na casa de Nazareno, então integrante do Pelotão de Investigação Criminal (PIC) do Exército.

Segundo a acusação, Nazareno teria fornecido informações sobre o deslocamento do jornalista e estava, no momento do ataque, nos arredores da rádio fazendo cobertura armada, ao lado de Iracildo José de Oliveira.

Mário Eugênio foi assassinado em 1984 | Foto: Reprodução/TJDF

A investigação identificou participação de ao menos cinco agentes públicos. A maioria recebeu penas mínimas e cumpriu a maior parte em liberdade. Suspeitos apontados como mandantes — o então secretário de Segurança Lauro Rieth e o delegado Ary Sardella, tiveram os processos arquivados pelo STF por falta de provas.

Outros condenados pelo assassinato

  • Divino José de Matos (Divino 45): autor dos disparos, condenado a 14 anos; preso na Papuda em 2003 e beneficiado por indulto em 2010.
  • David Antônio do Couto: dirigiu o veículo usado na fuga; cumpriu pena mínima e respondeu em liberdade.
  • Iracildo José de Oliveira: estava com Nazareno no apoio armado; condenado a 2 anos e 6 meses; morreu em 1999.
  • Aurelino Silvino de Oliveira: simulou diligência policial para encobrir a ação; paradeiro atual desconhecido.
  • Moacir de Assunção Loiola: suspeito de participação; morreu em circunstâncias inicialmente tratadas como suicídio, levantando suspeita de queima de arquivo.

Ligação com outros casos e vida reservada

Nazareno também foi testemunha em episódios como o atentado do Riocentro e o assassinato do jornalista Alexandre Baumgarten, quando chegou a relatar nomes de militares envolvidos. À época, jornais registraram que ele temia ser morto dentro da Cavalaria do Exército, no Setor Militar Urbano.

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