Entenda por que as terras raras mudam a geopolítica mundial, geram conflito entre Estados Unidos e China e colocam o Brasil no circuito global
13 janeiro 2026 às 13h33

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Há dez anos, em 2016, a China estabeleceu um plano para dominar o mundo em menos de uma década. O planejamento previa o controle chinês sobre vários setores da indústria e do comércio global.
Já em 2019, o país oriental abandonou uma velha expressão conhecida mundialmente: Made in China. O objetivo era bajular os então parceiros, americanos e europeus, mas o plano de dominar o mundo continuou inabalável.
Essa tal superioridade já é, particularmente, evidente na cadeia de fornecimento de baterias de lítio, um tipo de bateria recarregável a base de composto de lítio, conhecida por sua alta densidade de energia, pela vida útil mais durável e pela ausência de efeito de memória, sendo essencial para eletrônicos (celulares e notebooks) e veículos elétricos — já que armazena mais energia em menos espaço que outras tecnologias.
Hoje, por meio de políticas protecionistas, expansão global estratégica e uma dose saudável de financiamento governamental, a China domina o mercado de carros elétricos e as células que dão vida a eles.
Um dos componentes mais importantes da bateria de um automóvel elétrico é o lítio. Há estudos, mundo afora, sobre baterias que usam o sódio para recarregamento, mas o peso das baterias de lítio, que são ultraleves, continua sendo o diferencial que faz delas as preferidas na montagem dos veículos elétricos.
Enquanto a Austrália e o Chile colocam a China em terceiro lugar quando o assunto é a extração do lítio, quase toda exploração é enviada para os chineses. Porque possuem todo o know how para transformar o lítio bruto em bateria. Mas pra quem mora na China, o lítio que vem do outro lado do mundo, por lá, já emerge dentro de um carro-elétrico.

Para os europeus, o avanço da China sobre lítio tornou-se um grande problema porque a indústria automotora de veículos elétricos corresponde a 6% do PIB dos 27 membros que formam a União Europeia, responsável pela fabricação e venda de 25% de carros-elétricos no planeta.
Como os países europeus se comprometeram a encerrar o uso de combustíveis fósseis em 2035, as baterias de lítio e seus componentes vão se tornar cada vez mais imprescindíveis. Se a Europa não conseguir alcançar a meta planejada ou pelo menos ocupar parte desse mercado, sua indústria automobilística ficará refém dos chineses e, caso isso aconteça, os carros europeus serão apenas lembranças do passado. Mas, claro, a aposta principal é que os carros elétricos vão conquistar todo o mundo, e não apenas a Europa.
Há 20 anos a China não possuía nenhuma mina de extração de lítio e muito menos capacidade de processamento. O país reconheceu a importância do mercado deste mineral muito antes que o resto do mundo e agora colhe os frutos.
Por intermédio de uma série de ações estratégicas, os chineses investiram em vários países que já exploravam terras raras. Hoje, companhias chinesas têm participação direta em mineradoras especializadas na exploração do lítio no Chile e na Austrália — que tem a maior mina do mundo.
Mineração global: o lado cinza da alta tecnologia
Eles eram invisíveis, mas sempre estiveram sob os nossos pés. Durante séculos ninguém se sabia que existiam. Agora, sãos os responsáveis pela reconfiguração do futuro da humanidade e abrem um leque de infinitas possibilidades. No entanto, são uma ameaça real ao meio ambiente. As terras raras são o lado cinza da alta tecnologia.
Tudo começa pela tabela periódica. Repare que ela tem algumas linhas que não estão completas, às vezes quase vazias, com um ou dois elementos que parecem não fazer parte da harmonia formada pelos outros componentes e por isso sempre foram ignorados por estudiosos e cientistas.

Há pouco mais de vinte anos, esses elementos químicos passaram a chamar atenção pelas propriedades tecnológicas que eles ofereciam, foi quando mudou o foco na Tabela Periódica. A característica marcante desses componentes é a capacidade de rápido agrupamento.
É como se tivessem sido colados, e, uma vez unidos, separá-los é praticamente impossível. Hoje, os elementos químicos que um dia foram vistos como inúteis e, por isso, foram ignorados, em poucos anos passaram à categoria de catalizadores do futuro da humanidade. No século XXI, nenhum desenvolvimento acontecerá sem eles.
Desde que foram redescobertos, esses componentes deram início a uma revolução tecnológica que não tem mais retorno. E são tão raros que seu valor de mercado já supera o ouro e petróleo: metais e minerais de terras raras.
O termo “raras”, segundo cientistas, não é referência adequada, porque não há raridade nenhuma. Tais elementos já existiam e estavam expostos na tabela periódica. Talvez, pela dificuldade em isolar quimicamente seus componentes, provavelmente cientistas chineses — que são, oficialmente, os primeiros a se atentar à potência desses elementos — tenham nomeado as minas exploradas em território chinês de “terras raras”. Uma vez isoladas, revelam propriedades permitem a criação de uma infinidade de tecnologias, algumas já estão entre nós como os smartphones, tablets, carros elétricos e turbinas que geram energia eólica.
O cenário de mineração das “terras raras” por todo mundo está se tornando cada vez mais diversificado e há uma série de países ocupados e envolvidos na extração e industrialização. Da produção de “terras raras” na China à provisão “infinita” de lítio na Austrália, é obvio que os dois países ditam as regras e têm papel vital no funcionamento das indústrias de tecnologia e infraestrutura nos quatro cantos da Terra. Essas minas são e serão indispensáveis para funcionamento desse mercado — portanto, do mundo — por muito tempo. Por isso, serão cada vez mais valiosas.
Não foi há muito tempo, mas o necessário para que fosse estabelecida a dependência global de um vasto network mineral, sejam os metais das “terras raras” ou a indústria mineral que mantém em pleno funcionamento as tecnologias e infraestruturas que estão presentes no dia a dia de todos. Com a alta demanda por esses minerais, em todo mundo, o setor de mineração conseguiu estabelecer sua devida importância. Apesar da China e dos Estados Unidos ocuparem a liderança na extração desses minerais, pesquisadores encontraram “terras raras” em outros países. Em efeito dominó, todos eles têm consciência da importância que representam nessa cadeia de produção.
Desde que voltou à Casa Branca, Donald Trump enfatiza a urgência dos Estados Unidos por independência energética. Em apenas um ano do seu segundo mandato, o presidente continua insistindo e conclamando os americanos a expandir não só a exploração mineral doméstica como também o estabelecimento de infraestrutura interna que vai garantir a autonomia dos EUA no processamento e refino dos minerais, principalmente os de terras raras.
A anexação da Groenlândia ao território americano e a cooperação com a Ucrânia para explorar os minerais raros do país voltaram à tona na agenda de Trump. E os acordos bilaterais com a Austrália e com o futuro governo da Venezuela para explorar seus recursos naturais, além do tarifaço sobre a China, são ações conjuntas que fazem parte da agenda Trump sobre terras raras.
Durante décadas, debates indicam que a super exploração de ecossistemas e biodiversidade pode levar ao colapso climático. Nos últimos anos, cientistas vêm alertando que as mudanças na diversidade química do planeta — o tipo de metais e minerais utilizados, concentração e distribuição — colocam o meio ambiente em risco. Ninguém sabe ainda como o planeta vai reagir com a exploração em massa das terras raras. Não há mais como voltar atrás no avanço tecnológico que caminha junto com a evolução da humanidade, mas dá tempo de estabelecer parâmetros sobre o uso responsável de metais e minerais raros, como a reciclagem e o reuso. Ações que vão garantir que esses recursos estejam disponíveis para as próximas gerações.
Confira abaixo em quais países as minas de terras raras foram localizadas. Algumas, como na Austrália e China, há décadas, vêm sendo exploradas, outras como no Brasil (frise-se: Goiás está na mira do mercado) ainda estão em fase inicial de estabelecimento de leis e diretrizes que possam apontar como esses recursos serão utilizados e negociados.
1
China: a superpotência das terras raras
Os chineses dominam elementos de “terras raras” como neodímio (utilizado na produção de baterias de ímãs), Disprosio (usado na produção de imãs e lasers), Terbio (usado não só na produção de imãs, mas de semicondutores, ligas metálicas para a produção de dispositivos eletrônicos e lasers), além de outros minerais que são utilizados na fabricação de carros elétricos, turbinas, tecnologia militar e muito mais.
Quase todas as “terras raras” do mundo foram encontradas em Bayan Obo, no interior da Mongólia. O achado deverá manter a China na liderança mundial do comércio desses minerais. Para manter a liderança, a China vem intensificando os investimentos nas áreas de processamento e refino dos minerais em seu território e no exterior, inclusive no Brasil. Ações que devem garantir ao governo chinês o domínio absoluto das “terras raras” no mundo inteiro. (Por isso o jogo pesado de Donald Trump — que, a rigor, nada tem de maluco, ao contrário do que muitos pensam.)
2
Austrália
O país da Oceania possui uma poderosa indústria mineral. Assim como a China, é um gigante global da mineração. Minério de Ferro, bauxita e lítio, entre outros metais e minerais, são abundantes no país.
3
República Democrática do Congo
O país africano é o centro mundial da exploração de cobalto e cobre. O Congo abriga ricos minerais e também os mais caros. Mas é criticado pela falta de investimentos para manter a produção ininterrupta das minas de cobalto, um componente usado para recarregar baterias. O país detém 60% das reservas de cobalto do planeta e uma expressiva indústria de produção de baterias que puxam as exportações do país.
4
Rússia
O país de Vladimir Putin faz do clube dos poderosos das “terras raras” e tem papel de destaque global quando o assunto é mineração.
Quase todo o país é rico em depósitos minerais. Apesar de não ter terras raras, a nação de Putin tem reservas importantes de nióbio, tântalo e uranio (e, claro, tem petróleo e gás em grandes quantidades).
A Rússia desenvolveu alta capacidade de mineração e diversificou sua produção mineral para não depender da China. Em operação permanente, a Rússia também possui minas de diamantes, potássio e carvão. Este último abastece não só o mercado interno, mas a Europa e parte da Ásia.
5
Estados Unidos
Os americanos são a fonte da indústria mineral que transforma o material bruto que vem das minas no que eles quiserem, e tem se tornado mais competitivos quando o assunto é mineração.
Do bronze ao ouro, o processamento e refinamento desses metais e outros minerais são os americanos que dominam o mercado. O que faz deles líderes nestas áreas da mineração são os equipamentos de ponta que utilizados para a exploração e manufatura de gesso, sal e rochas de fosfato.
No Estado de Nevada ficam as minas de ouro, no Arizona as de cobre e em Utah estão as minas de Molibdênio, mineral essencial para a saúde humana de difícil exploração. Os depósitos de terras raras se concentram na Califórnia (Estado que, fosse um país, seria um dos dez mais ricos do mundo). Uma das poucas minas de terras raras na América do Norte.
Apesar de estar bem atrás da China no mercado de minerais raros, os americanos vêm avançando e já consolidaram sua presença no mercado internacional — sempre em busca de novos investimentos para a formação de infraestrutura para exploração de terras raras.
6
Brasil
O Brasil possui grandes reservas de terras raras sob o solo do bioma Cerrado e da Amazônia. E é campeão mundial na exploração da bauxita.
O maior país da América do Sul, e um dos maiores do mundo, há tempos que se consolidou como uma referência mundial da mineração com suas gigantescas minas de bauxita, minério de ferro e outros metais, além de possuir uma rica indústria mineral.
A bauxita exportada pelo Brasil, é usada no mundo todo para a produção de alumínio. O país também exporta minério de ferro que garante a produção do aço. Umas das maiores minas de minério de ferro do planeta é a de Carajás, no Pará. O subsolo brasileiro também é rico em manganês. Essa rica diversidade mineral coloca o país entre os líderes mundiais da mineração que abastece não só o mercado interno, mas a Europa, Ásia e as Américas. Frise-se que o país também produz ouro.
7
Chile
A maior reserva de cobre do mundo fica no Chile. O cobre é elemento essencial quando o assunto é transmissão de eletricidade.
O Chile abastece o mundo todo com o cobre. As minas de cobre ficam no deserto do Atacama, mas há também diversas minas de lítio, com grandes reservas, que fazem do Chile referência global sobre a exploração de minerais raros.
8
Índia
A Índia é uma potência em ascensão no ramo da mineração e exploração de terras raras.
O país vem incrementando sua produção de minerais e metais raros que era inexistente há bem pouco tempo. Carvão, granito e bauxita são os principais produtos da indústria mineral primária.
As minas de carvão, recentemente encontradas, transformaram a Índia não só no maior explorador desse mineral como também usuário. Quase toda produção é usada internamente para garantir o abastecimento de eletricidade que mantém em atividade o setor de manufatura.
Brasil tem a 3ª maior reserva mundial de terras raras
Além das grandes reservas de cobre, nióbio, níquel e lítio, o Brasil possui a terceira maior reserva mundial de terras raras.
As principais potências mundiais tentam buscar acordos com o governo brasileiro para a exploração dos minerais raros, componentes essenciais na produção de alta tecnologia.
A demanda fez os investimentos na área da pesquisa crescerem mais de 250% na última década, enquanto a extração saltou para 40%. Mas, por enquanto, não há o que comemorar. A exploração desses metais e minerais passou a ser motivo de conflitos de terras que se espalham pelo país, além da poluição ambiental que afeta os recursos hídricos e a sustentabilidade.
Não há no Brasil leis específicas que estabeleçam diretrizes para a exploração adequada das terras raras. Até agora, os acordos de exploração são realizados por companhias particulares que recebem o aval do governo para lidar com outros governos de países interessados nas terras raras do Brasil.
O Reino Unido já firmou parceria com uma empresa brasileira para novas pesquisa na área. Os Estados Unidos em princípio demonstraram interesse e acordo para integrar a indústria brasileira que vai explorar esses materiais. Mas o governo de Donald Trump mudou de ideia e agora joga as cartas como quer com o governo federal para o acesso total a mineração, exploração e refino dos metais e minerais que forem encontrados nas terras raras.
Goiás concentra boa parte das terras raras do país

Em Goiás, onde se concentra boa parte das terras raras do país, mineradoras que já atuam no Estado receberam, recentemente, financiamento dos Estados Unidos.
A injeção americana na indústria mineral privada que já explora o subsolo goiano deverá ampliar, ainda mais, a disputa global por terras raras. Os recursos saíram diretamente do banco estatal DFC e reforçam o interesse estratégico dos Estados Unidos sobre minerais críticos e amplia a presença americana na cadeia de suprimentos de terras raras no Brasil.
O investimento do governo Trump foi diretamente direcionado às empresas Serra Verde e Aaclara que possuem projetos considerados avançados no Estado.
A Serra Verde, atualmente única produtora de terras raras no país, anunciou o aporte de US$ 465 milhões, equivalente a mais de R$ 2,5 bilhões, junto ao DFC. A empresa informa que os recursos serão utilizados para a expansão da capacidade produtiva da mina localizada em Goiás. Ao mesmo tempo, a mineradora também fechou acordos com os chineses em meio a concentração do refino global na Malásia e na China.
A outra empresa, a Aaclara, que tem origem peruana, e também desenvolve um projeto de terras raras em Goiás, recebeu um empréstimo de U$ 5 milhões do DFC para concluir estudos sobre a viabilidade da instalação definitiva no Estado para a exploração dos minérios raros.
Caso a viabilidade se confirme, a companhia espera suprir 75% da demanda americana por terras raras pesadas que oferecem os componentes que garantem a produção de carros elétricos. Em um acordo entre a empresa peruana e o governo Trump, ficou decidido que o refino dos minerais raros será realizado em algum lugar dos Estados Unidos, mas o processamento vai ser em Goiás.
O Brasil ainda não possui políticas públicas que possam fortalecer a produção domésticas dos metais e minerais raros desde a exploração nas minas até o produto final como baterias, imãs etc.
A carência de diretrizes que possam indicar o caminho que leve à independência energética e aumente a participação direta na cadeia global força o país a se render a acordos diretos, como esse assinado entre companhas de mineração particulares e o governo dos Estados Unidos e não a negociações bilaterais como o assinado, recentemente, entre o a Austrália e a América do Norte.
A mineração aberta ao capital estrangeiro no Brasil permite a entrada de investimentos como os do DFC na Serra Verde e Aaclara sem pactos formais entre governos.
No entanto, é justamente a disponibilidade de recursos minerais estratégicos e estabilidade institucional que garantem ao Brasil papel relevante na disputa global por suprimentos alternativos, e Goiás é a meca desse mercado.
Por isso, o governo estadual saiu na frente do governo federal sobre a forma de conduzir o comércio bilionário dos metais raros.
No ano passado, o governador Ronaldo Caiado (União Brasil) sancionou a lei que regulamenta o setor mineral criando a Autoridade Estadual de Minérios Críticos (AMIC/GO) e o Fundo Estatal de Minérios Críticos (FEDMC).
A lei ainda autoriza a criação de Zonas Especiais de Minerais Críticos (ZEMCs), regiões com potencial estratégico para a exploração e beneficiamento mineral, que terão prioridade em licenciamento ambiental, investimentos em infraestrutura e poderão receber benefícios fiscais e crédito.
O decreto colocou Goiás na vanguarda de normas jurídicas que posicionam o Estado como referência nacional e internacional na produção responsável de minérios críticos.
Desde agosto do ano passado, quando a lei foi sancionada, a Secretaria de Indústria e Comércio passou a ter as ferramentas necessárias para conduzir os interesses do Estado junto às companhias particulares que exploram o subsolo goiano e os governos de países interessados em explorar as terras raras de Goiás.

O secretário Joel Sant’anna Braga disse, em entrevista ao Jornal Opção, que, “mesmo com os investimentos americanos”, Goiás exporta terras raras para a China há três anos.
O secretário explica que, para explorar o subsolo, qualquer país ou empresa privada tem que obter uma licença no Ministério de Minas e Energia.
“É o governo federal dá a licença e isso demora um tempo. Goiás tem 30 projetos de pesquisa de terras raras, desses apenas três são viáveis. Goiás tem condições de receber investimentos porque tem o Plano Estadual de Recursos Minerais. O que permite que se possa fazer a prospecção dos planos de investimento no estado.”
Joel Sant’anna Braga afirma que não há um governo (país) específico para onde as terras raras serão enviadas e que os acordos sairão para aqueles que trouxerem investimentos para Goiás. “O que a gente quer é alguma coisa real, que os países interessados nas nossas terras raras invistam aqui, numa realidade que possamos ter benefícios disso.”

