Engenheiro denuncia que Enel faz “artimanha jurídica” na contratação de profissionais

“Velocidade no aumento da tarifa não coincide com a melhoria dos serviços”, defende presidente da Associação Brasileira de Engenheiros Eletricistas – Seção de Goiás

Foto: Divulgação

O presidente da Associação Brasileira de Engenheiros Eletricistas – Seção de Goiás (ABEE-GO), Petersonn Caparrosa, falou ao Jornal Opção sobre a situação enfrentada pelos profissionais da área após o grupo italiano Enel assumir o controle acionário da Celg Distribuição S/A. “Eles estão sistematicamente demitindo profissionais preparados do quadro da empresa”, denuncia Petersonn.

“Essa proposta de enxugamento do quadro começou em 14 de fevereiro de 2017, dia em que eles assumiram o controle da empresa. Mas não imaginei que seria tão agressivo a ponto de dispensar a memória técnica histórica da empresa tão rapidamente”, afirma Petersonn Caparrosa.

Ele conta que, em meados de março de 2017, a empresa lançou um Plano de Aposentadoria Espontânea (PAE), direcionado a trabalhadores com mais de 50 anos, independente do nível do salarial. Nos meses seguintes, foi criado o Programa de Demissão Voluntária (PDV), sem limite de idade e para todos os níveis salariais.

Manobra

No entanto, o presidente da ABEE-GO pondera que profissionais que não aderiram aos programas acabaram sendo demitidos em massa. “Foram demitidos, engenheiros, economistas, administradores, eletricistas e técnicos de nível médio. Após esse momento, a empresa passou a demitir profissionais para, em seguida, encaminhá-los a empresas terceirizadas”, explica o engenheiro ao enfatizar que os salários pagos caíram bastante com essa “artimanha jurídica”.

“Só que essa artimanha jurídica não tem valor”, defende Peterson ao explicar que os engenheiros passaram então a serem contratados como analistas. “Essa é uma tentativa equivocada de burlar a lei, mas se isso for a juízo a empresa irá perder, pois existe uma lei federal de que o piso é de 8,5 salários mínimos. Isso já está pacificado no STF”, argumenta.

Segundo Caparrosa, com essa jogatina “de baixo nível” a Enel acaba por contratar muitos engenheiros recém-formados, que demoram certo tempo para conseguirem atuar com segurança em um setor tão complexo.  “A área de geração, transmissão e distribuição de energia elétrica para o consumidor final demanda um tempo de ‘amadurecimento’ profissional que leva cerca de 5 anos”, explica, ao contar que trabalhou por cerca de 17 anos na Celg.

Privatização

“Lá atrás, em 2016, tentamos mostrar para a população, imprensa e para os políticos que privatização do setor elétrico não é uma brincadeira que se faça para aumentar caixa de Estado. Temos inúmeros exemplos de que não deu certo como Pará, Tocantins e Rio de Janeiro”, acentua Caparrosa.

Ele avalia que, em Goiás, o serviço está cada vez pior. “Quando os italianos assumiram prometeram investir bilhões para atender a demanda reprimida e fazer ajustes necessários. Eles anunciaram investimentos, mas até agora o serviço não melhorou e a tarifa subiu quase 40%”, destaca. “A velocidade no aumento da tarifa não coincide com a melhoria dos serviços”, completa.

Sem desculpa

Para Petersonn, é notório o desprezo da empresa pelas autoridades goianas, “inclusive com o governador do Estado”.  Para o engenheiro, no entanto, a atitude de Ronaldo Caiado de ir ao Governo Federal pedir a concessão de volta caso o serviço não melhore foi corajosa. “Ele não tem nenhum tipo de responsabilidade pela situação da Celg lá atrás. Ela passou por um processo de destruição ao longo dos anos moral, financeira, técnica”, pontua.

Essa deterioração ao longo dos anos, para o engenheiro, não é desculpa para a situação atual. “Isso valia no primeiro ou segundo ano, agora não. Eles não têm burocracia de uma estatal que, apesar de todos os problemas, apresentava resultados mais rápidos”, explica. “Vejo com muito receio o discurso de estatização da empresa. Talvez seja o caso de retomar a concessão e colocar em leilão, caso o Estado não tenha condições para que ela volte para o Estado”, complementa.

“O processo de pressão contra o grupo italiano deve ser grande e coeso, senão vamos padecer com um péssimo serviço. Eu entendo que o serviço de energia elétrica e saneamento básico deve ser muito bem pensados antes de passara por uma privatização”, afirma Petersonn, ao defender que o contrato deve ser honrado pelos dois lados. “Eu disse lá atrás, que os planos de investimentos não seria cumpridos, isso é suficiente para retirar a concessão e devolver para o Estado ou levar a leilão. Tem que ter pressão para melhorar o serviço”, ressalta.

Caparrosa por fim, clama pelo fim do desrespeito aos engenheiros. “Eu acredito na seriedade do governo, se não tiver condições de manter eles vão passar a concessão para outro grupo privado. Para continuar, a Enel precisa atender a demanda energética e contratar os engenheiros e demais trabalhadores dentro dos parâmetros legais. “Temos que acabar com esse tipo de tratamento desrespeitoso em Goiás”, finaliza o engenheiro.

Em nota, a Enel se posicionou:

A Enel Distribuição Goiás esclarece que com o aumento de investimentos no Estado para a melhoria da qualidade do serviço prestado, a empresa tem gerado cada vez mais vagas de emprego, relacionadas principalmente às obras estruturais para a recuperação da rede elétrica do Estado, ao reforço das equipes de reparo e manutenção em campo e ao aumento da capacidade de resposta da Central de Atendimento da distribuidora, além de cargos administrativos para a coordenação de diversas atividades. Atualmente, o número de colaboradores próprios e parceiros representam um aumento de 22%, cerca de 1.870 postos de trabalho a mais, em comparação com o ano anterior à privatização. A companhia reforça que nos próximos três anos, com o plano de melhorias em andamento, será necessário aumentar o volume de serviços a serem executados e a mão de obra qualificada no Estado para garantir a aceleração das obras e manutenções necessárias.

A empresa está focada em qualificar a mão de obra de profissionais de todo o Estado e firmou uma parceria com o Senai, onde já estão sendo oferecidos gratuitamente cursos técnicos para os interessados em trabalhar em rede elétrica. Já foram construídos oito centros de treinamento no Estado.

 As primeiras turmas já estão em andamento e até dezembro teremos cerca de 170 novos profissionais concluindo o curso e a expectativa é que novas turmas sejam criadas, de forma contínua.

 A distribuidora informa que quando assumiu a gestão da concessionária, realizou programas de aposentadoria incentivada e de desligamento voluntário, voltados a colaboradores interessados em se desligar espontaneamente da distribuidora em Goiás. As duas iniciativas foram implementadas de forma transparente e ofereceram benefícios adicionais aos previstos em lei.

 Desde que assumiu a distribuidora em fevereiro de 2017, a Enel investiu cerca de R$ 2 bilhões até setembro deste ano, cerca de 3,5 vezes mais do que os níveis históricos investidos antes da privatização, com melhorias significativas nos índices de qualidade medidos pela Aneel.

 Sobre os valores da tarifa, a Enel esclarece que em outubro a Enel Distribuição Goiás teve uma redução média nas tarifas aprovadas pela Aneel de 3,9%, A redução para os clientes residenciais, desde o dia 22 de outubro, é de 5,08%. A tarifa da companhia está abaixo da média das 54 distribuidoras do país.

Uma resposta para “Engenheiro denuncia que Enel faz “artimanha jurídica” na contratação de profissionais”

  1. Jessica disse:

    Tudo o que este colega engenheiro denuncia é exatamente o que aconteceu e esta acontecendo em São Paulo.

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