Enem 2020: influências da pandemia e expectativa para o Sisu

Edição que contou com maior índice de abstenção teve menor número de inscritos e notas mais baixas na redação

Estudante em ensino remoto. | Foto: Governo do Estado de Mato Grosso do Sul/Reprodução

Instituído em 1998 e aperfeiçoado em 2009 com o objetivo de ampliar a entrada de jovens na universidade, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) ocorre anualmente como um mecanismo utilizado por diversos sistemas de seleção do país. Hoje, a maior parte das universidades públicas brasileiras têm a prova como principal forma de ingresso.

Com o início da pandemia do novo coronavírus, em março de 2020, assim como nas áreas da saúde, economia e política, o impacto no setor educacional foi inegável. Isso, porque logo que identificada como grave crise mundial, as aulas presenciais em escolas públicas e privadas precisaram ser suspensas. Com isso, tal como profissionais de todos os outros setores, gestores, professores e alunos precisaram gradativamente se adaptar às condições momentâneas e, ao passo que se pode compreender melhor o momento vivenciado, foi possível adotar estratégias para contornar as adversidades e buscar a melhor forma de fazer com que suas rotinas se mantivessem ativas.

O inesperado contexto, entretanto, não deixou de reverberar suas consequências nos resultados no Enem 2020, edição com maior índice de abstenção da história do exame. As provas, que são realizadas em duas etapas, tiveram 51,5% de ausência de estudantes em seu primeiro dia, e 55,3% no segundo. A porcentagem é quase o dobro da registrada em 2019, que contou com 23,6% de abstenção na primeira fase e 27,19% na segunda.

No ano da pandemia, a prova também registrou menor quantidade de inscritos que no ano anterior. Enquanto em 2019 o exame atingiu a marca dos seis milhões de participantes, em 2020, permaneceu nos 5,5 milhões. Nas notas, o impacto também foi visível. Enquanto em 2019, 53 participantes, em todo o território nacional, alcançaram a nota mil na redação, em 2020 esse número abaixou para 28.

Secretária de Estado de Educação de Goiás, Fátima Gavioli. | Foto: Reprodução

Para a secretária de Estado de Educação de Goiás, Fátima Gavioli, esses resultados já eram esperados e o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) deveria ter feito um esforço para deixar a população ciente disso. “As pessoas deveriam ter sido preparadas ao fato de que as notas cairiam, tanto através da mídia, quanto por meio de dados científicos. O aluno que tiraria 950 em 2019, se ele tirar 850 no Enem de 2020, ele é um vencedor. O 850 de hoje é quase o mil de ontem, porque com todo esse contexto, mesmo com todas as preparações, a queda nos resultados era e é a expectativa”, afirma.

Em contrapartida, a gestora se mantém confiante quanto às notas do Enem 2020 e as aprovações no Sistema de Seleção Unificada (Sisu), que oferece vagas nas instituições de ensino públicas de todo o país. “Acredito que o trabalho que foi e que está sendo feito durante a pandemia nos garante o primeiro lugar no Ensino Médio do país, com Goiás tendo as melhores notas”, declara Fátima.

Processo adaptativo

É de consenso entre os professores e gestores da educação que as principais dificuldades iniciais, tanto na rede pública, quanto na privada, foram relacionadas a pouca familiaridade com o ensino remoto e a falta de equipamento técnico adequado para que as aulas fossem realizadas. Thiago Marcel, que é professor de matemática do ensino fundamental e médio de escolas públicas do Estado de Goiás, explica que, de início, não havia um protocolo padrão a ser seguido, então cada professor adaptou suas aulas da forma que foi possível, com as plataformas que já tinham certa familiaridade.

Perfil do Instagram criado pelo professor de matemática, Thiago Marcel. | Foto: Captura de tela da página

“No começo, cada professor deu aula da forma que conseguiu. As opções foram muitas, desde a utilização de vídeos gravados no Youtube, até grupos de WhatsApp e outras redes sociais”, explicou. Thiago optou pelo Instagram. Criou um perfil novo direcionado às aulas, e lá, utilizava a ferramenta do IGTVS para publicar resoluções de exercícios, fazer revisões e tirar as dúvidas dos alunos. “Lá, eu filmava os exercícios com o celular em uma mão, enquanto os resolvia no papel com a outra, então era mais complicado”, conta.

Thiago diz que esse processo de adaptação durou até quase o fim do primeiro semestre de 2020, tendo migrado, em junho, à plataforma Zoom, que permitiu a realização de aulas com transmissão em tempo real aos alunos. “Quando passamos para o Zoom foi melhor porque os alunos podiam interagir e tirar dúvidas”, explica.

Em concordância, a secretária de Estado de Educação de Goiás, Fátima Gavioli, caracteriza a falta de conectividade entre professores e alunos que permeou o cotidiano educacional do país durante grande parte de 2020, como um problema grave.  “Se nós tivéssemos um plano nacional de conectividade para as escolas, tenho certeza de que nossos resultados teriam sido muito melhores. A parte da formação continuada aos profissionais da educação e a confecção de materiais aos alunos foram garantidas, mas faltou a possibilidade de profissionais e estudantes estarem munidos com máquinas e internet de qualidade; esse cenário é nacional”, acrescenta.

Roni Everson é professor de redação há mais de 13 anos e atualmente trabalha de forma majoritária na rede particular de ensino em Goiânia. Além de internet da baixa qualidade, o educador conta que fato comum às aulas à distância eram casas com apenas um computador ou celular, mas várias pessoas da mesma família que tinham aulas no mesmo horário. Entretanto, uma vez que o entendimento das tecnologias foi se tornando mais palpável, estas passaram a atuar como aliadas. O professor Thiago, por exemplo, conta que a plataforma LaTeX, que escreve em linguagem matemática e emite documentos em formato PDF de forma automática, esteve presente em seu cotidiano para que pudesse enviar atividades aos alunos.

Professor Roni Everson durante aulas remotas. | Foto: Arquivo pessoal

Para Roni, a falta de preparação juntou-se às dificuldades quanto ao método adequado a ser aplicado no modo de ensino à distância. “Como nós professores não tivemos uma formação acadêmica voltada a educação remota, naturalmente os professores acabaram tentando reproduzir a mesma dinâmica, oratória e metodologia que era usada de forma presencial. Isso tornou, diversas vezes, as aulas muito maçantes, o que ficou ainda mais cansativo para o aluno”, opina.

Saúde mental

Em 2020, falar de saúde mental se tornou comum. O tópico, que há anos vinha ganhando cada vez mais evidência, se tornou prioridade, visto que, por se tratar de um advento novo e praticamente imprevisível, a pandemia trouxe incertezas e inseguranças que afetaram de forma significativa o cotidiano da população. Levantamento divulgado em setembro pelo Ministério da Saúde (MS), com de objetivou entender o impacto da pandemia e do isolamento social na saúde mental dos brasileiros, avaliou a ansiedade como transtorno mais presente durante a crise sanitária. Das mais de 17,4 mil pessoas entrevistadas, 86,5% se mostraram ansiosos.

Estudante Ana Clara Paulino, que quer cursar Medicina. | Foto: Arquivo pessoal

Segundo o próprio Ministério da Saúde, essa falta de concentração nas atividades realizadas em home office ou ensino remoto tem ligação direta com o isolamento. Para o educador Roni Everson, a ansiedade já era uma característica dos jovens da atual geração, mas com a pandemia e a necessidade do distanciamento social, se fez ainda mais acentuada. “O psiquiatra Augusto Cury fala muito sobre isso, essa é a geração da síndrome do pensamento acelerado. Com a pandemia, como o aluno perdeu essa questão relacional, de ter contato corpo a corpo e estar com os amigos, teve a parte psicológica muito prejudicada”, explica o docente. E a estudante Ana Clara Paulino, que em 2020 fez seu terceiro ano de cursinho pré-vestibular para atingir o objetivo de cursar Medicina, concorda. “Quando você não está ali socializando com outros estudantes, você perde um pouco da motivação”, completa.

Para Álvaro Recoba, que estudou em escola pública, fez o último ano do ensino médio em 2020 e aguarda por uma vaga no curso de Publicidade e Propaganda da Universidade Federal de Goiás (UFG), ter que mudar toda sua rotina e planejamento de estudos de forma abrupta atrapalhou seu rendimento de forma significativa. “Era uma novidade para todo mundo, mas tanto a pandemia em si, como a grande quantidade de notícias ruins eram bem difíceis de assimilar e não pensar nisso o tempo todo. Com isso, minha rotina de estudos não foi tão produtiva quanto eu esperava. Com a pandemia, tudo que eu tinha planejado foi por água abaixo e demorei a me readaptar”, relata Álvaro.

Com isso, são muitos os relatos que Roni ouve em seu dia a dia sobre estudante que precisaram iniciar tratamentos psicológicos ou psiquiátricos e começar a serem medicados. “Nos últimos meses vimos muitos alunos ansiosos, mais debilitados, tristes, reclusos e com vários outros problemas. Esse prejuízo psicológico que a pandemia está deixando nos alunos vai demorar a ser assimilado e compreendido de forma clara”, opina Roni.

Multitarefas e falta de foco

Somado a falta de preparo sobre como dar uma aula à distância que prenda a atenção do aluno, a pouca possibilidade de controle sobre o rendimento dos discentes se tornou um impasse. “Durante as aulas presenciais, é possível saber que o aluno está ali, prestando atenção. Na aula remota, não é a mesma coisa. Se for uma aula no Zoom e o aluno mantiver a câmera ligada, é possível ver se ele está ou não, mas poucos mantêm a câmera aberta, mesmo que exista uma pressão por parte da escola e dos professores. Além disso, ter acesso a esse tipo de aplicativo não é a realidade de todos. Muitas escolas públicas estão realizando as aulas por grupos no WhatsApp: o professor manda a atividade, mas pouquíssimos alunos respondem; muitas vezes não chega a 50%”, narra.

“O problema disso é que o professor manda a atividade e pouquíssimos alunos respondem, e o ensino público não tem tanto dinheiro para plataformas. Na escola que eu trabalho, a associação ajudou a custear a plataforma Zoom, mas na maioria das escolas, não se tem dinheiro para isso”, afirma Thiago.

Para o professor de matemática, as aulas remotas, em si, não prejudicaram tanto o desempenho dos alunos. O que, em diversos casos, foi prejudicial, é que nem todos conseguiram tirar melhor proveito das aulas à distância, seja por condições adversas, ou por tentarem realizar outras atividades durante o período de estudo. “Nas minhas aulas, por exemplo, eu via que os alunos estavam logados, mas às vezes eu os chamava, e eles não respondiam, então nós víamos que alguns não estavam realmente ali ouvindo a aula. Geralmente, menos de um terço acaba realmente prestando atenção”, diz.

Ana Clara Paulino concorda com a dificuldade de manter o foco nos estudos durante o período pandêmico. “Mesmo já tendo alguma maturidade nos estudos, percebi que com a pandemia, esse discernimento e disciplina se perderam durante o caminho. Ninguém estava preparado. Acordar cedo e ligar o computador ou celular sozinha todos os dias, nesse contexto todo de pandemia, foi bem difícil”, disse.

“Além disso, apesar de os professores acharem que teríamos facilidade com as plataformas, a adaptação não foi fácil. Mesmo que nossa geração tenha muito contato com tecnologia, temos maior acesso às redes sociais, não com estudo online. No início tive muita dificuldade para enviar minhas redações na sala de aula virtual, por exemplo. Eu até pedia ajuda a uma amiga, que pedia ajuda a outro amigo, e ele enviava os trabalhos de nós duas. No fim das contas, consegui me acertar, mas levou um tempo”, relata Ana Clara.

Estudante Álvaro Recoba em seu ambiente de estudo à distância. | Foto: Arquivo pessoal

Mesmo concordando com todas o impacto da crise sanitária em seu cotidiano, o estudante Álvaro Recoba assume a responsabilidade no que tange aos resultados obtidos. “Sei que poderia ter me saído melhor, então não culpo só a pandemia, porque eu tenho internet em casa e muito acesso à informação, diferente de muitos estudantes que não tiveram condições de acessar aulas, por exemplo”, acrescenta.

Estratégias para reduzir o impacto nos estudos

Na tentativa de melhorar tal conjuntura, a secretária de Estado de Educação, Fátima Gavioli, algumas das estratégias utilizadas pelo Governo Estadual. O programa Seduc em Ação, por exemplo, contou com diversos projetos de transmissão de aulas ao vivo no canal da Televisão Brasil Central (TBC) e nas rádios Brasil Central AM e FM.

O primeiro foi o projeto Goiás Bem no Enem em Casa, que ofereceu aulas e conteúdos direcionados a mais de 46 mil estudantes da rede estadual de ensino. Nele, videoaulas periódicas, com duração de 10 a 20 minutos, via aplicativo de mensagens foram encaminhadas, todas as segundas e sextas-feiras. Já o segmento “Goiás Bem no Enem na TV” foi transmitido via TBC, aos sábados, e contou com duas aulas televisionadas a cada semana.

Também fizeram parte das ações o projeto “Segundou!!!” com transmissão, via aplicativo de conversa, de vídeos com indicações que contemplam filmes, séries e documentários. A maratona de estudos ainda contou com o “Desafio Weekend”, onde eram enviadas listas de exercícios no padrão da avaliação nacional, dividida em quatro áreas de conhecimento: Ciências da Natureza, Ciências Humanas, Matemática e Linguagens e Códigos. Com os desafios, os alunos receberam videoaulas e a resolução dos enunciados. O suporte da Secretaria de Educação (Seduc) ainda encaminhou videoaulas aos alunos às sextas-feiras com dicas de literatura, por meio do projeto “Sextou!!!”; além de pílulas sobre todos os conteúdos do Enem no “Minuto Enem”.

“Nós preparamos nossos alunos para o Enem. Tudo o que você imaginar que pudesse ser feito, o estado de Goiás fez para que o prejuízo fosse o menor possível. Cada aluno da rede pública estadual que conseguiu fazer o Enem 2020, foi fruto da articulação de um trabalho planejamento da Seduc, das escolas de ensino médio e de um tamanho esforço para que eles não desistissem da prova”, disse Fátima.  

Perspectivas futuras

Apesar das dificuldades e de não terem ficado completamente satisfeitos com seus resultados da edição de 2020 do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), tanto Ana Clara, quanto Álvaro tiveram altas notas na redação da prova, tendo tirado 920 e 900, respectivamente. Hoje, Ana Clara diz ter se adaptado ao ensino remoto e conta ter se matriculado em um cursinho pré-vestibular completamente online em 2021.

A opinião da secretária de Estado de Educação, Fátima Gavioli, é que o ensino híbrido, que ocorre tanto na modalidade presencial, quanto remota, veio para ficar. Para ela, se trata de inclusão e da universalização do ensino. “Vamos precisar dele para dar aulas de nivelamento e de reforço, então vamos aprimorá-lo cada vez mais e adquirir novos equipamentos, para que os alunos possam assistir aulas a qualquer momento, de suas casas, e tirar todas as suas dúvidas. Isso garante que um aluno que mora a 50km da escola, ao invés de pegar um ônibus e ir todos os dias presencialmente, possa assistir as aulas em tempo real apenas com a instalação de uma antena que dê sinal de internet”, conclui Fátima.

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