Enem 2018: questões polêmicas dividem opiniões e são alvos de críticas e elogios

Professores comentam a prova e as discussões geradas depois dela

Foto: Divulgação

A prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) deste ano, feita por 5,5 milhões de candidatos no País, foi muito comentada nas redes sociais e se tornou alvo de críticas e elogios depois de questões polêmicas no primeiro dia de prova, no último domingo (05/11). O presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) foi um dos críticos do exame.

Jornal Opção conversou com alguns professores da Capital sobre o assunto. Para isso, a reportagem selecionou as questões que mais foram comentadas nas redes sociais e o tema da redação, que, como em anos anteriores, foi amplamente discutido.

Dialeto Pajubá

A prova do primeiro dia do Enem abordava as seguintes áreas do conhecimento: Ciências Humanas e suas Tecnologias, Ciências da Natureza e suas Tecnologias, Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, Matemática e suas Tecnologias. Entretanto foram questões da parte de Linguagens que mais geraram comentários.

Criticada por Bolsonaro, uma das questões pedia que o estudante definisse os requisitos para que uma linguagem fosse considerada dialeto a partir do exemplo dado na prova: o Pajubá. Popular entre a comunidade LGBT, a linguagem conta, inclusive, com dicionário e o texto na prova trazia essa e outras informações a respeito do dialeto.

O presidente eleito disse que a questão não media conhecimento e que induziria os estudantes “para que no futuro (…) se interessassem mais por esse assunto”. O professor de Linguagens e Redação do Colégio Visão, Ademar Nogueira, discorda desse ponto de vista e considerou a questão pertinente.

“A prova cobra conhecimento linguístico amplo e exige o reconhecimento das manifestações linguísticas diversas hoje”, disse Ademar. Para ele, a crítica é descabida e não conhece a “vertente mundial que é a Linguística (enquanto área do conhecimento)”.

O professor doutor de Relações Públicas da Universidade Federal de Goiás (UFG), Claudomilson Fernandes, que estuda identidade e representações sociais, compartilha da opinião de Ademar e acrescenta: “A polêmica toda está relacionada ao fato de as pessoas não terem entendido qual o sentido da questão”, disse.

Para o professor, quando o Enem traz uma questão sobre um tema como esse, “está querendo, na verdade, uma discussão mais acentuada sobre cidadania”. Claudomilson ainda destacou que o dialeto em discussão é utilizado pela comunidade LGBT como forma de marcação identitária.

Ademar ainda completa que a questão se torna ainda mais pertinente por trazer a realidade linguística brasileira. “Assim como existe o goianês, o caipirês, as pessoas que usam o Pajubá para se auto-proteger”, disse.

Interpretação de Texto

Outra questão que foi amplamente discutida nas redes sociais foi uma que exigia interpretação de texto e também estava na parte de Linguagem. Trecho do texto Amora, de Natália Borges Polesso, foi utilizado como base para a resposta e trazia uma personagem principal com receio de contar para a família que era lésbica.

No trecho selecionado tinha, inclusive, a narrativa de um beijo lésbico. O candidato, então, teria que dizer em que estava fundamentada a tensão do texto. Para o professor Ademar a polêmica em volta dessa questão revela “Uma tendência preconceituosa contra a população LGBT”.

“As questões que mais deram polêmica foram justamente as que falavam de orientação sexual, há uma tentativa de satanizar esse assunto, porque as pessoas acham que ele não deve ser abordado”, completou.

A crítica principal era de que a questão induzia a uma resposta baseada em estereótipos e não em conhecimento científico. “Afirmar isso é desconhecer que para você descrever e compreender estereótipos, você precisa de conhecimento científico, a estereotipia é um conceito muito mais complexo do que as pessoas imaginam ser”, opinou o professor Claudomilson. Para o professor da UFG essa é uma crítica infundada e baseada numa moral preconceituosa.

Redação

O tema da redação deste ano era “Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet”. Nas redes sociais houve quem elogiou a atualidade e pertinência do tema e quem criticasse que, por abordar o universo digital, excluiria a parcela da população que não tem acesso à internet.

O professor de história do Colégio Visão Caius Vinicius de Oliveira, que é mestre na área, discorda. Para ele, o aluno que se prepara para o Enem está por dentro de todos os possíveis temas atuais que possam cair na prova.

Segundo Caius, a diferença do acesso à internet entre as camadas sociais é evidente, mas “as mídias sociais estão pulverizadas entre todas elas, inclusive as classes D e E”, considerou. O professor Claudomilson também concorda que, mesmo que em menor intensidade, o estudante de classes mais baixas teve acesso a essa discussão por meio de outras mídias.

Já o professor de redação Ademar partilha dessa crítica. “Foi um tema muito bom, com textos-base muito bem escolhidos, mas extremamente elitista”, considerou. Ademar elogiou a complexidade do tema, que dava vazão para falar não só do Brasil, mas do mundo inteiro, mas criticou o caráter excludente da temática.

“Você pega, por exemplo, o menino que viajou por três dias de barco, ele está fora do processo, porque o tema tem uma vertente mais elitista”, exemplificou.

No geral, os professores elogiaram a construção da prova. “É uma prova que exige mais que o conteúdo dado em sala de aula, ela cobra conteúdo da nossa vivência, da vivência do candidato”, opinou Ademar.

Caius também parabenizou a estrutura da prova no primeiro dia de Enem, que tem foco nas Ciências Humanas. “Ela aumentou o nível e a base conteudista, não fugiu da perspectiva do Enem de abordar a História de maneira multifacetada e foi extremamente seletiva em relação ao conteúdo abordado”, disse.

Para o professor Claudomilson, para além da prova, foi possível perceber uma tomada de posição política por parte da sociedade em relação a seu conteúdo. Mas, para ele, essa não é a intenção do certame. “A prova é uma tentativa de levar o aluno a refletir sobre esses temas independente se ele é de esquerda ou de direita, e não de levar o aluno a tomar uma posição”, afirma.

“Penso que quem elaborou a prova fez um belo convite a refletir sobre os dois lados para que a polarização política não signifique a caminhada do país, o país é mais do que essa polarização”, completou.

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Usiel Amaral

Acho inaceitável e lamentável a abordagem de temas LGBT em prova do ENEM.

Matheus Lage

Foda-se, seu lixo humano

Douglas pertile

Porque diz isso? É inaceitável tratar de assuntos atuais, ou é inaceitável debater sobre algo que você possui pré-conceitos? E como foi explicado o tema lgbt foi usado para perceber se o aluno possuía pré-conceitos ou se iria analisar a questão com o viés científico, achei genial a formulação e ideia das questões, provavelmente você iria errar as questões “polêmicas” pois pelo que parece não é capaz de discernimento suficiente.

Gabriel Lothar

O que foi lamentável foi a questão em si. Era necessário interpretar a definição do usuário, e não a definição de dialeto. Pior ainda, era necessário interpretar a definição daquele usuário entrevistado na questão e não da comunidade. Isso não tem cabimento, visto que somente o entrevistado saberia da resposta. Em teoria a questão é de interpretação de texto, mas ao mesmo tempo ela se contradiz da definição da palavra.

Hilda Oliveira da

Sinceramente. A verdadeira complexidade da questão do “dialeto” LGBT, está relacionada ao fato do não entendimento do sentido da questão, Especialmente para o público acima dos 40 anos. Eu por exemplo, não fazia nem ideia desse “Dialeto”, tenho 52 anos e descobri essa novidade tendo que escolher uma alternativa acertativa.