Em “Persona”, Bergman traz o silêncio como aliado e vilão
16 outubro 2026 às 19h46

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Lançado em 1966, Persona, do cineasta sueco Ingmar Bergman, é um filme que incomoda justamente porque não oferece respostas fáceis. A história começa com uma situação aparentemente simples: Elisabeth Vogler (Liv Ullmann), uma atriz que para de falar durante uma apresentação teatral, passa a ser acompanhada pela enfermeira Alma (Bibi Andersson). As duas se isolam em uma casa à beira-mar, onde a convivência começa a transformar a maneira como cada uma enxerga a si mesma e a outra.
Elisabeth não apresenta qualquer dificuldade física que explique seu silêncio. Ela simplesmente se recusa a falar. Alma, por outro lado, fala bastante e, aos poucos, começa a revelar detalhes de sua vida, seus desejos e suas inseguranças. O que inicialmente parece uma relação entre paciente e enfermeira se transforma em algo muito mais complexo, marcado por aproximações, conflitos e uma crescente confusão entre as duas identidades.
O silêncio de Elisabeth é o ponto de partida para uma das principais questões do filme: até que ponto somos obrigados a representar um papel diante da sociedade? Como atriz, Elisabeth passou a vida interpretando outras pessoas, demonstrando sentimentos e pronunciando palavras que não eram necessariamente suas. Ao deixar de falar, ela parece rejeitar esse mundo de aparências. Mas Bergman não permite que o espectador tenha certeza de suas motivações. Seu silêncio pode representar uma forma de resistência, uma fuga ou simplesmente a incapacidade de continuar vivendo como antes.
Alma, por sua vez, parece encontrar em Elisabeth alguém disposto a ouvi-la sem julgamentos. A enfermeira começa a falar sobre experiências íntimas e episódios que talvez nunca tivesse contado a outra pessoa. Porém, quanto mais se abre, mais vulnerável se torna. Elisabeth não precisa revelar quase nada sobre si mesma para exercer influência sobre a companheira. Basta permanecer em silêncio, observando.
É nessa relação desigual que o filme encontra boa parte de sua força. Uma mulher fala demais; a outra não fala nada. Uma se expõe; a outra mantém o controle. Mas essa divisão começa a desaparecer à medida que a convivência se intensifica. Alma, que inicialmente parece segura de quem é, passa a questionar a própria identidade. Elisabeth, que parecia distante de tudo, se torna cada vez mais presente na vida da enfermeira.
Bergman sugere que conhecer alguém não é necessariamente uma tarefa simples, mesmo quando existe intimidade. Às vezes, a proximidade revela aspectos que preferíamos esconder. Em outras situações, o desejo de compreender o outro acaba nos levando a perder a segurança sobre quem somos. Alma acredita estar ajudando Elisabeth, mas acaba envolvida em uma relação na qual suas próprias emoções se tornam difíceis de controlar.
O título do filme ajuda a entender essa discussão. A palavra persona está relacionada à ideia de máscara, à imagem que apresentamos ao mundo. Todos, de alguma maneira, desempenham papéis: no trabalho, nas relações familiares, nas amizades e na vida amorosa. Aprendemos a controlar o que mostramos, escondemos sentimentos e tentamos corresponder às expectativas dos outros.
Elisabeth parece ter chegado ao limite desse processo. Ela já não quer representar, falar ou cumprir as obrigações que a sociedade espera dela. Mas o filme levanta uma questão importante: é possível abandonar completamente as máscaras? Até mesmo o silêncio pode se transformar em uma forma de representação. Ao se recusar a falar, Elisabeth também passa a controlar a maneira como os outros reagem a ela.
Alma não está livre dessa contradição. Embora se apresente como uma mulher simples e espontânea, ela também construiu uma imagem sobre si mesma. Conforme revela seus segredos, essa imagem começa a desmoronar. O que parecia uma personalidade bem definida se mostra cheio de conflitos, desejos e inseguranças.
Visualmente, Persona é tão marcante quanto sua história. A fotografia em preto e branco explora os rostos das atrizes com uma intensidade impressionante. Bergman utiliza primeiros planos longos, expressões discretas e silêncios que parecem durar mais do que o esperado. Em vez de explicar o que as personagens sentem, o diretor deixa que o espectador observe seus rostos e tente interpretar cada gesto.
A casa isolada à beira-mar também contribui para a atmosfera do filme. Longe da rotina e das outras pessoas, as protagonistas parecem ter perdido as referências que organizavam suas vidas. O isolamento, que poderia proporcionar tranquilidade, acaba tornando a convivência mais intensa e sufocante.
Outro aspecto importante é a maneira como Bergman brinca com a própria linguagem do cinema. Desde a abertura, o filme apresenta imagens inesperadas e interrompe a narrativa tradicional, deixando claro que o espectador não está diante de uma história convencional. Em determinados momentos, a montagem aproxima os rostos das duas mulheres de maneira que torna difícil separar visualmente uma da outra.
Essas escolhas não servem apenas para criar um efeito estético. Elas reforçam a principal questão da obra: onde termina uma pessoa e começa a outra? A relação entre Alma e Elisabeth parece mostrar que nossas identidades não são tão independentes quanto imaginamos. Somos influenciados pelas pessoas com quem convivemos, pelas expectativas que depositam sobre nós e pela maneira como nos enxergam.
Essa proposta faz de Persona um filme que exige paciência. A narrativa não explica todos os acontecimentos, e algumas cenas podem parecer difíceis de compreender. Bergman não está interessado em oferecer uma solução para cada mistério. Seu objetivo é provocar dúvidas e fazer com que o espectador participe da construção dos significados.
Isso não significa que o filme seja perfeito. Em alguns momentos, a preocupação com os símbolos e com as questões psicológicas pode tornar a experiência abstrata até demais. Quem espera uma história com começo, meio e fim bem definidos pode se frustrar. As personagens também permanecem, em certos aspectos, distantes do público, como se o diretor estivesse mais interessado nas ideias que elas representam do que em construir uma narrativa tradicional sobre suas vidas.
Ainda assim, a força das atuações sustenta o filme. Liv Ullmann consegue transmitir uma grande variedade de sentimentos sem depender das palavras, enquanto Bibi Andersson constrói uma Alma que passa gradualmente da segurança à fragilidade. O contraste entre as duas é fundamental para que a tensão funcione, e boa parte do impacto da obra nasce justamente da maneira como seus rostos e gestos se complementam.
Quase 60 qnos depois de seu lançamento, Persona continua relevante porque fala de uma questão que atravessa a vida de qualquer pessoa: a dificuldade de ser quem realmente somos. Em uma sociedade na qual existe tanta pressão para construir uma imagem de sucesso, felicidade e segurança, a recusa de Elisabeth em continuar representando pode ser entendida como uma tentativa extrema de escapar dessas exigências.
Mas Bergman não apresenta o silêncio como uma solução. Parar de falar não significa necessariamente alcançar a verdade, assim como revelar segredos não garante que alguém seja compreendido. O filme mostra que tanto a exposição quanto o recolhimento podem esconder conflitos que nem sempre conseguimos explicar.
No fim, Persona é menos um filme sobre descobrir quem são suas protagonistas do que sobre questionar a própria necessidade de encontrar uma resposta definitiva. Bergman nos lembra que as pessoas são cheias de contradições e que nem sempre conseguimos compreender completamente aqueles que estão ao nosso lado, muito menos a nós mesmos.
É essa inquietação que faz da obra um dos grandes filmes do cinema. Ao transformar o silêncio em linguagem e os rostos em enigmas, Bergman constrói uma história que permanece na memória muito depois dos créditos finais. Não porque esclareça todos os mistérios, mas porque nos obriga a conviver com eles.
O filme, querendo ou não, ainda é um dos melhores da história do cinema. Tudo é brilhante na obra. A nota, claro, é 5 de 5…


