Em novo e magnífico trabalho, Alanis Morissette marca seu triunfo sobre a depressão pós-parto

É compreensível que o novo álbum de Alanis, Such Pretty Forks in the Road, já esteja no topo da Billboard dos EUA: o disco é um arauto de superação e alegria que veio para ficar na história

Alanis Morissette | Foto: Foto: Rob Ball/WireImage

A cada dia que passa, fica mais difícil encontrar uma artista que se compare à Alanis Morissette. A cantora e compositora canadense, que também é atriz, escritora e empresária, parece ser o vestígio raro de uma época em que a música era feita para ser uma ferramenta de cura e identificação com a qual o artista conseguia deixar sua marca na alma de quem ouvia. Com Such Pretty Forks in the Road, Alanis não só deixa sua marca, mas traz de volta essa época.

Com 11 faixas inéditas (algumas divulgadas desde o ano passado) que chegaram às plataformas digitais no final de julho deste ano, Such Pretty Forks in the Road é o primeiro trabalho de Alanis após um hiato de 8 anos e não é à toa. A voz da cantora continua a mesma: cristalina, única, inconfundível. Mas intensas reviravoltas marcaram a vida de Alanis nos últimos tempos.

Ao longo da década, a canadense, considerada uma das vozes mais influentes do mundo da música, teve três filhos: Ever, de 9 anos, Onyx, de 4 e Winter, de 11 meses. Mas não pense que uma artista como Alanis, conhecida por contar sua vivência através da música, voltaria com um trabalho superficial e “bonitinho” sobre como a maternidade é um mar de rosas onde os problemas não existem. Such Pretty Forks in the Road atinge o auge do brilhantismo nesse ponto: assim como Adele, que transformou um sofrida desilusão amorosa num trabalho musical primoroso, o álbum 21, Alanis juntou todos as tragédias pessoais que a acometeram nos últimos anos, jogou no liquidificador e deu à luz um disco para ficar na história.

Problemas como alcoolismo, depressão pós-parto, estresse e bulimia são cantados com a precisão que só mesmo Alanis tem para conseguir transformar tais desgraças em algo belo. A artista é verdadeira consigo mesma e com os fãs em faixa por faixa e deixa claro: “Esta sou eu e não há vergonha nenhuma nisso”.

A depressão e a ansiedade da cantora são expostas de forma quase visceral em faixas como Diagnosis, onde Alanis parece deitar num divã imaginário para descrever uma rotina de angústia e desesperança. “Eu não saio de casa há um tempo/Eu não senti um vislumbre de facilidade/E eu não fiz muito progresso/Desde que voltei da guerra”, canta, ao som de um piano quase cruel de tão belo.

Em Reasons I Drink, uma balada impossível de não se acompanhar ao menos cantarolando e também um dos pontos altos do disco, Alanis parece se justificar para si mesma enquanto tece uma lista de fatores que a levaram à exaustão. O clipe é uma obra de arte à parte. Várias Alanis de diferentes épocas e momentos, incluindo a icônica de Ironic, se reúnem num grupo de apoio que culmina num caos catártico. Impossível não se arrepiar com seus agudos enquanto canta “E estes são os motivos pelos quais não enxergo direito/E estes são aqueles que eu sei que se afetam profundamente/E eu fico pensando como eu funcionaria sem eles”.

Porém, ao mesmo tempo em que Such Pretty Forks in the Road é dor e revelação, é também alívio e redenção. A faixa Nemesis é a prova disso. Intensa, solene e com um arranjo musical difuso, a canção é a determinação de Alanis de dar a volta por cima e seu mergulho na luta para se manter de pé. “E eu tampei meu nariz e mergulhei no lado fundo/E nadei como se minha vida dependesse disso, e dependia”, canta ela.

Enquanto a maternidade parece ter consumido uma das Alanis no clipe de Reasons I Drink, em Ablaze ela traz à tona o lado belo e maravilhoso de ser mãe. A música é uma ode aos três filhos cantada de maneira intimista e doce. Impossível ouvir só uma vez e mais impossível ainda não se emocionar com essa faixa.

O clipe de Ablaze segue a linha da letra e da melodia e traz uma Alanis fantasiada de molécula ao lado do marido e filhos pulando numa piscina de bolinhas, correndo pela casa ou pelo jardim. “Minha missão é manter a luz nos seus olhos acesa” canta a canadense para os filhos, numa música que transborda gratidão e alegria numa fase da vida em que Alanis parece ter encontrado o sentido do que é ser mãe.

A faixa de encerramento do álbum, Pedestal, não poderia ser mais adequada. Melódica e envolvente, Pedestal assume a dor, o prazer e a intensidade de um disco fruto de uma vivência humana cheia de altos e baixos, ao mesmo tempo em que se garante como um marco tanto para quem ouve, quanto para quem canta. Não é à toa que Alanis inicia a faixa cantando “Tenho certeza que você gostou do passeio/Quem não ia gostar? Tenho certeza que cada vantagem te deixou com mais vantagens/Como podia ser de outro jeito?”.

Nesta semana, Such Pretty Forks in the Road figura no topo da parada Billboard nos EUA (é a primeira vez que Alanis lidera a lista de rock com material novo desde 2012). O sucesso é compreensível. O álbum assinala o retorno triunfal de uma das mulheres mais importantes do mundo da música, trazendo melodias memoráveis, letras magistrais e o melhor: trazendo a verdade de uma voz que pode até ter se deixado abafar pela vida por um tempo, mas que voltou a ecoar como nunca antes. Bom trabalho, Alanis. E bem-vinda de volta.

 

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