Em depoimento, ex-diretor do Samu afirma que pacientes são mantidos na UTI sem necessidade

Médico ouvido pela CEI da Saúde disse que paciente em estado grave custam um terço a mais e por isso são rejeitados

A Comissão Especial de Inquérito (CEI) que apura irregularidades na Saúde em Goiânia ouviu  na manhã desta segunda-feira (19/3) o médico Carlos Henrique Duarte Bahia, que foi diretor do SAMU entre 2005 e 2016. Em depoimento, ele afirmou que hospitais credenciados ao Sistema Único de Saúde (SUS) costumam manter pacientes na UTI, mesmo sem necessidade.

Segundo o médico, o custo de um paciente que já poderia ter recebido alta, mas continua na UTI sem precisar, é de um terço do de um paciente em estado mais grave, como em caso de parada cardiorrespiratória.

“A pessoa teve um trauma, por exemplo, e tem melhoras clínicas, poderia ir para um apartamento ou enfermaria, não precisaria mais de UTI, mas é mantida ali. Se está na UTI sem precisar, o custo (de tratamento) cai”, denunciou aos vereadores.

Para o relator da CEI, vereador Elias Vaz (PSB), o depoimento do ex-diretor reforça a denúncia de que as vagas de UTI eram disponibilizadas visando apenas o lucro.

“Isso é gravíssimo. Não é o depoimento de um leigo, é de um profissional que viveu a realidade do SAMU por mais de 10 anos. E reforça o que temos investigado, que hospitais usam práticas para aumentar a margem de lucro, escolhendo os pacientes de menor custo e até mantendo na UTI quem não necessita do leito”.

O vereador contou que recebeu denúncia de um servidor municipal que ficou cinco dias na UTI, apesar de não se tratar de quadro grave, e questionou a equipe médica. “Ele disse que conversou depois com outros médicos e confirmou que não precisava ter ficado tanto tempo”.

O ex-diretor do SAMU também relatou dificuldades que a equipe enfrentava para encaminhar pacientes à UTI. “Dificilmente havia leito disponível, então o médico regulador tentava encontrar vaga nos cais. Não tínhamos leitos de UTI para receber os pacientes na época e ainda hoje não tem”.

A CEI divulgou há 15 dias relatório da própria Secretaria Municipal de Saúde que aponta média de 41% de leitos desocupados de UTI nos hospitais credenciados ao SUS no período de agosto de 2016 a agosto de 2017

Nesta segunda-feira (19), a Comissão aprovou requerimento dos dois vereadores para que os hospitais encaminhem relatório completo com nome, tipo de UTI e número da AIH (autorização de internação hospitalar) de cada paciente atendido entre agosto de 2016 e agosto de 2017.

“Alguns hospitais estão contestando os dados da prefeitura, outros informaram à imprensa que a taxa de ocupação está em torno de 90%. Então terão que provar. Vamos comparar os dados, checar com os pagamentos feitos pelo Ministério da Saúde e descobrir quem está falando a verdade”, adiantou Elias Vaz.

“Não podemos permitir que pacientes sejam condenados à morte enquanto hospitais escolhem quem vão atender e de que forma vão oferecer o serviço. Existe um contrato com o Município e ele deve ser cumprido”, destacou Jorge Kajuru.

A CEI também aprovou requerimento de Elias para convocação de três servidores municipais. Devem ser ouvidos nos próximos dias Márcia Ribeiro de Souza, gerente de Internação Hospitalar do Município, Sílvio José de Queiroz, diretor de Atenção à Saúde, e Devalmir Oliveira dos Santos, gerente de Urgências.

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