Em carta ao Legislativo paulista, CNBB pede ação contra deputado que ofendeu Igreja

Da tribuna da Assembleia de SP, Frederico D’Avila (PSL) chamou arcebispo de “safado” e “vagabundo”. Sobrou também para o papa e a entidade

Deputado Frederico D’Avila chamou Dom Orlando Brandes de “safado” e “vagabundo” após arcebispo ter criticado prioridade ao armamento da população | Foto: Reprodução

A presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou neste domingo, 17, carta dirigida ao presidente da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), Carlão Pignatari (PSDB). No documento, a entidade rejeita “fortemente as abomináveis agressões” proferidas na quinta-feira, 14, pelo deputado estadual Frederico D’Avila (PSL).

Segundo a carta, o político agiu com ódio descontrolado e desferiu ataques ao Papa Francisco, à própria CNBB e ao arcebispo de Aparecida (SP), dom Orlando Brandes. No sermão da missa pelo Dia da Padroeira do Brasil, o religioso havia defendido a vacina, condenado o descaso com a pandemia, a disseminação de fake news e disse que “Pátria amada não é Pátria armada”. D’Avila, da tropa de choque bolsonarista, soltou vários impropérios ao arcebispo, à CNBB e até ao Papa Francisco, da tribuna do Parlamento paulista.

A CNBB defende que, com esta atitude, o deputado “feriu e comprometeu a missão parlamentar, o que requer imediata e exemplar correção pelas instâncias competentes” e vai buscar uma reparação jurídica a ser corrigida “pelo bem da democracia brasileira”.

A CNBB afirma se ancorar, profeticamente, sem medo de perseguições, no princípio contido na encíclica Gaudium et Spes (“Alegria e Esperança”, em latim) sobre o papel da Igreja no mundo contemporâneo, a única constituição pastoral e a 4ª das constituições do Concílio Vaticano II: “A Igreja reivindica sempre a liberdade a que tem direito, para pronunciar o seu juízo moral acerca das realidades sociais, sempre que os direitos fundamentais da pessoa, o bem comum ou a salvação humana o exigirem”.

A CNBB quer entregar pessoalmente o documento ao presidente da Alesp. Confira, abaixo, a íntegra do documento:

CARTA ABERTA

Exmo. Sr.
Deputado Estadual Carlão Pignatari
Presidente da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo
Cidadãos e cidadãs brasileiros

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB, nesta casa legislativa e diante do Povo Brasileiro, rejeita fortemente as abomináveis agressões proferidas pelo deputado estadual Frederico D’Avila, no último dia 14 de outubro, da Tribuna da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Com ódio descontrolado, o parlamentar atacou o Santo Padre o Papa Francisco, a CNBB, e particularmente o Exmo. e Revmo. Sr. Dom Orlando Brandes, arcebispo de Aparecida. Feriu e comprometeu a missão parlamentar, o que requer imediata e exemplar correção pelas instâncias competentes.

Ao longo de toda a sua história de 69 anos, celebrada no dia em que ocorreu este deplorável fato, a CNBB jamais se acovardou diante das mais difíceis situações, sempre cumpriu sua missão merecedora de respeito pela relevância religiosa, moral e social na sociedade brasileira. Também jamais compactuou com atitudes violentas de quem quer que seja. Nunca se deixou intimidar. Agora, diante de um discurso medíocre e odioso, carente de lucidez, modelo de postura política abominável que precisa ser extirpada e judicialmente corrigida pelo bem da democracia brasileira, a CNBB, mais uma vez, levanta sua voz.

A CNBB se ancora, profeticamente, sem medo de perseguições, no seguinte princípio: a Igreja reivindica sempre a liberdade a que tem direito, para pronunciar o seu juízo moral acerca das realidades sociais, sempre que os direitos fundamentais da pessoa, o bem comum ou a salvação humana o exigirem (cf. Gaudium et Spes, 76).

Defensora e comprometida com o Estado Democrático de Direito, a CNBB, respeitosamente, espera dessa egrégia casa legislativa, confiando na sua credibilidade, medidas internas eficazes, legais e regimentais, para que esse ultrajante desrespeito seja reparado em proporção à sua gravidade – sinal de compromisso inarredável com a construção de uma sociedade democrática e civilizada.

A CNBB, prontamente, comprometida com a verdade e o bem do povo de Deus, a quem serve, tratará esse assunto grave nos parâmetros judiciais cabíveis. As ofensas e acusações, proferidas pelo parlamentar – protagonista desse lastimável espetáculo – serão objeto de sua interpelação para que sejam esclarecidas e provadas nas instâncias que salvaguardam a verdade e o bem – de modo exigente nos termos da Lei.

Nesta oportunidade, registramos e reafirmamos o nosso incondicional respeito e o nosso afeto ao Santo Padre, o Papa Francisco, bem como a solidariedade a todos os bispos do Brasil. A CNBB aguarda uma resposta rápida de Vossa Excelência – postura exemplar e inspiradora para todas as casas legislativas, instâncias judiciárias e demais segmentos para que a sociedade brasileira não seja sacrificada e nem prisioneira de mentes medíocres.

Em Cristo Jesus, “Caminho, Verdade e Vida”, fraternalmente,

Brasília-DF, 16 de outubro de 2021.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo de Belo Horizonte, MG
Presidente

Dom Jaime Spengler
Arcebispo de Porto Alegre, RS
1º Vice-Presidente

Dom Mário Antônio da Silva
Bispo de Roraima, RR
2º Vice-Presidente

Dom Joel Portella Amado
Bispo auxiliar do Rio de Janeiro, RJ
Secretário-Geral

2 respostas para “Em carta ao Legislativo paulista, CNBB pede ação contra deputado que ofendeu Igreja”

  1. Avatar Valdir disse:

    Se o arcebispo resolveu discutir assuntos políticos em suas pregações dentro da igreja, e se posicionado a favor da ideologia da esquerda, normal que seja contestado politicamente de alguma forma, nesse caso por um parlamentar na tribuna de uma casa legislativa. Esse arcebispo não tem que reclamar de nada, já que disse o que quis teve que escutar o que não quis, querer punição para o parlamentar é agir como ditador censurador.

    • Avatar Josivaldo disse:

      Ah quer dizer que um bispo católico não pode falar de política mas os pastores podem? E estes muitas vezes falam esculachando pessoas e interferindo inclusive no Palácio do Planalto. O que é isso: dois pesos e duas medidas? Quer dizer então que ser a favor da “ideologia de esquerda não pode”, mas da ideologia direitista pode, né? Que argumento cínico e leviano. A Igreja não deve ser amordaçada nem por um deputadinho bolso-nazistinha de araque, como este, nem por ideologia nenhuma e nem tampouco pelos hipócritas e canalhas desse mundo.

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