Em artigo, conselheiro frisa “incoerência entre discurso e prática” na OAB-GO

Danúbio Cardoso é um dos três conselheiros que anunciou recentemente dissidência da gestão do presidente Lúcio Flávio

Presidente Lúcio Flávio e conselheiro Danúbio Cardoso | Arquivo/Reprodução

O advogado Danúbio Cardoso, conselheiro da Ordem dos Advogados do Brasil – seção Goiás (OAB-GO), que recentemente anunciou dissidência da gestão do presidente Lúcio Flávio,é autor de artigo que critica o atual comando da seccional, destacando a “incoerência entre o discurso e a prática” por parte da presidência.

“Não posso me furtar de resignar que a OAB que temos, está distante da que queremos. Mais dividiu que somou. Mais prometeu que fez. Mais discursou que agiu. Chegar nos ombros do gigante, subir de elevador, ao invés de percorrer os difíceis degraus da política classista, foi fácil. Difícil é ser honesto, leal e coerente”, diz Danúbio no artigo. Veja a íntegra abaixo:

A incoerência entre o discurso e a prática: a OAB que não queremos

Danúbio Cardoso

A sociedade é vítima constante da incoerência entre o que falamos e o que de fato praticamos.

O tema do comportamento antissocial atingiu, a meu ver, a Seccional da OAB Goiás que, como o Conselheiro Federal Leon Deniz mencionou em suas redes sociais: fruto da inabilidade política e da falta de diálogo.

Pequenos danos cometidos à instituição e à classe dos advogados que, somados ao histórico intransigente de uma diretoria que não fraciona seus pensamentos e tolhe o direito de crítica da divergência das ideias, coloca em xeque o histórico de uma instituição que tem um papel íngreme na construção da sociedade.

O risco da política autoritária é iminente, organizado por um pequeno grupo que administra, com prerrogativas e sem um conjunto de regras eficazes, milhões de reais depositados compulsoriamente por mais de 40 mil profissionais.

Não é preciso conhecer muito a história do mundo para saber que Adolf Hitler é uma figura bastante controversa: pela dicotomia entre o discurso e a prática. Não é à toa, que até hoje sua história é objeto de estudo.
Assim como na advocacia classista, aos poucos, e em pouco tempo, se começou a montar um complexo quebra cabeça em torno de pessoas que mais fez e fará mal a advocacia goiana.

Lúcio Flávio que, em seu discurso de posse, disse ter chegado nos ombros de um gigante não é pessoa bem falada nos bastidores da advocacia e do judiciário. Leal em não cumprir compromissos e gigante na eloquência, quem o compra, não recebe o produto vendido pelo marketing que, pasmem, na campanha milionária da “OAB QUE QUEREMOS”, chegou próximo de “um milhão de reais” com marketing, mídia, publicidade e gráfica. O marketing não parou na campanha. Um contrato de R$ 12 mil reais mensais pagos pela advocacia goiana chegou a ser assinado, pela atual diretoria, para cuidar da imagem do presidente.

O discurso democrático não existe na prática. O presidente superou todos os ex-presidentes na arte de falar e não fazer. Falou muito, recebeu mais do que merecia e, por não outra lógica, deve favores, trabalho, satisfação e, à estrutura que o elegeu, até dinheiro para aqueles que, convocados, depositaram sua confiança em um projeto que de coletivo, tornou-se audacioso e próprio do poder. Sequer tem a hombridade de prestar conta e ressarcir parte dos recursos e sobras de campanha.

O discurso público, questionado pelos adversários foi só para vencer as eleições. O número um: é a criação da Procuradoria de Prerrogativas com salários equiparados ao de juiz e promotor, agora, anunciado na última semana, próximo a R$ 5 mil (cinco mil reais), distante dos R$ 20 mil prometidos em campanha. O somatório de 100% de sucumbência para o procurador de prerrogativas agride a inteligência da categoria, como que se dissesse que o procurador terá o direito a 10% da taxa de garçom.

A “transparência na gestão da OAB-GO” e a proposta de “pugnar por uma gestão transparente e compartilhada, com transmissão periódica e automática das informações financeiras para o Portal da Transparência” são outros dois pilares lançados fora pela atual diretoria. A Elaboração de regulamento próprio para contratação de pessoal por meio de seleção pública e a contratação de obras, serviços, alienações e locações por meio de seleção pública não seguem princípios de impessoalidade e moralidade esculpidos na estrutura política e administrativa brasileira: agora anunciado pelo Secretário – Geral, que a OAB/GO não segue a Lei de Licitações e que “não vê mecanismos de instalar o pregão eletrônico na Ordem”. O resultado disso são ações como a compra de uma área penhorada a R$ 2,3 milhões para a construção de um Shopping de serviços. Muito embora o lado positivo de mais uma estrutura para o sistema OAB/GO, a construção de edifícios, ótica, livraria não foi a pauta pela qual a OAB QUE QUEREMOS foi eleita. “A Ordem não precisa de construir mais nenhum tijolo, mas de resgatar a dignidade da advocacia”, esse era o discurso da eleição.

Aliás, ressalvado o pedido de desculpas que parte da advocacia merece recompor a Felicíssimo Sena, Miguel Cançado e Enil, dentre outros, a atual diretoria sempre criticou os prédios, o clube e as benfeitorias em subseções dizendo que “a dignidade e valorização do advogado devem ser resgatados e estar em primeiro lugar”. Porém, entre o que se viu no discurso, e o que se vê na prática, teremos mais um “elefante branco” construído para compor uma ótica, livraria a preços exorbitantes enquanto os advogados continuam desvalorizados. Shopping e centro de serviços são o que os advogados menos esperam em um momento em que o Poder Judiciário acumula 1,7 milhão de processos aguardando julgamento em Goiás.

Lúcio Flávio foi eleito como o inventor da roda, o descobridor de sete Mares da advocacia, a luz no fim do túnel, o salvador da advocacia – mas, em poucos meses mostrou-se o Policarpo Quaresma, idealista com muitos sonhos, poucas ações e zero de habilidade política classista. Reservado suas qualidades pessoais, sua trajetória política é desagregadora. Temos um presidente com desacertos, que humilha seus companheiros, age com austeridade, desqualifica as pessoas, centraliza poder, e, por certo, será vomitado pela advocacia goiana.

Não obstante que algumas pessoas não conseguem ser situação, e vivem se oprimindo na oposição. Porém, por outro lado, há aqueles que não conseguem deixar de ser situação, sempre fazem o “mais do mesmo” e se acovardam em deixar seus companheiros para garantir a manutenção de seu quinhão de vaidade pessoal. Esse pequeno grupo defenestrou a OAB FORTE e agora dilapida a OAB QUE QUEREMOS.

Criticamos a qualidade dos produtos que compramos e não demos a devida atenção à qualidade do que produzimos. Criticamos os que fizeram tudo, porém não cumprimos com as nossas mais simples obrigações. Criticamos os mentirosos, mas faltamos com a verdade. Por que tanta incoerência? Criticar é fácil. Acusar é fácil. Apontar os erros alheios foi fácil. Difícil foi mudar o nosso comportamento. Difícil é fazer certo a nossa parte. Difícil é abrir o diálogo, vencer as expectativas, honrar compromissos, despir da vaidade, fazer valer a pena.

Devemos pedir licença, e dedicar respeito, de forma clara e objetiva, àquelas dezenas de homens e mulheres, conselheiros, presidentes de Comissões, membros da diretoria – pessoas honestas, dedicadas e idealistas – que acreditam na arte do impossível. No discurso do Furher.

Porém, não posso me furtar de resignar que a OAB que temos, está distante da que queremos. Mais dividiu que somou. Mais prometeu que fez. Mais discursou que agiu. Chegar nos ombros do gigante, subir de elevador, ao invés de percorrer os difíceis degraus da política classista, foi fácil. Difícil é ser honesto, leal e coerente.

Para Maquiavel é possível esculpir três tipos de cérebros: os que entendem por si próprios; os outros discernem o que os primeiros entendem; e os terceiros não entendem nem por si próprios nem pelos outros. A conclusão é que os primeiros são excelentíssimos; os segundos são excelentes; e os terceiros totalmente inúteis. Lúcio Flávio, que gosta de parafrasear a psiquiatria em seus discursos, reservada as qualidades pessoais à pessoa humana, enquanto ser político, não se encaixa em nenhum deles.

Danubio Cardoso Remy Romano Frauzino é mestre em Ciência do Direito, Especialista, advogado e Conselheiro Seccional da OAB/GO.

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