Elefantes também choram

“Os elefantes não são apenas animais majestosos. Eles são altamente inteligentes e capazes de demonstrar sentimentos de tristeza. Por isso, podemos imaginar o quanto meio século de tortura representa para ele”, disse uma das ambientalistas que participaram do resgate

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Depois da sofrida (e também cômica) derrota da seleção canarinha para a alemã na última terça-feira (8/7), procurei distração nas redes sociais, onde piadas corriam soltas. Um post no Facebook de um dos grandes portais de notícia brasileiros me chamou mais atenção que as provocações ressentidas dos torcedores, que começavam a criticar os políticos e os gastos com o mundial só por causa da goleada, o que evidenciou que tudo poderia ficar embaixo dos panos caso o hexa fosse conquistado. Pois bem. Entre as lágrimas noticiadas, uma me tocou, e não foi por conta do futebol que movimenta trilhões em dinheiro por todo o mundo para uma minoria. Foi o choro pela eminência de salvação, liberdade e fim de sofrimentos acumulados ao longo de meio século.

Raju, um elefante indiano acorrentado e abusado por seres humanos pelo tempo que dá duas vidas da minha, me trouxe de volta à realidade do que realmente importa para mim nessa vida. Animais, desde pequena, sempre que comoveram mais que humanos. Quando matam não é por maldade, sim por instinto e necessidade (visto a cadeia alimentar). Quando atacam, não é por mero prazer, mas para defender-se. E por aí vão os motivos que me fazem amá-los e respeitá-los, apesar do medo que alguns me provocam –– as cobras são um exemplo de aversão total. Na infância, cheguei a considerar a possibilidade de ser veterinária, mas uma feira de ciências no fim do ensino fundamental em que vi um coelho anestesiado ser aberto ao meio, ainda vivo, me mostrou que eu não teria estômago. Nunca me esqueci da cena.

Voltando a Raju, que chegou a comer papel e plásticos para disfarçar a fome e tinha sinais de espancamento, tenho a dizer que, infelizmente, é só um caso de vitória do amor sobre a maldade. Quantos outros animais são explorados e maltratados para diversão em circos –– nunca fui a um –– e zoológicos? Sem falar no comércio de carne pelos frigoríficos… Nem por isso a história específica desse elefante deveria passar despercebida por mim, que sempre tive uma admiração sem explicação por essa espécie grande, elegante e de ar autêntico, que na Índia em que foi acorrentada e maltratada é considerada um deus (Ganesha, o protetor das crianças e destruidor de obstáculos).

Há outros casos de elefantes que choraram diante de sofrimentos, assim como há casos de mais humanos, como eu, comovidos com isso. Um caçador africano que pegava marfim dos elefantes e para isso os matavam, deixou de caçar após presenciar lágrimas de uma de suas vítimas, me contou uma colega a saber deste artigo.

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Raju foi capturado ainda filhote e desde então viveu seus 50 anos com uma das patas presas a uma corrente pontiaguda que lhe causava ferimentos a cada movimento. Não bastava ao humano que dizia ser seu dono apenas privar-lhe da liberdade, foi preciso cinco décadas de demonstração de superioridade e força. O resgate de Raju não foi pacífico. Os ambientalistas que se “atreveram” com o “proprietário” do elefante foram ousados.

Segundo informado pelo Departamento Florestal do estado indiano de Pradesh Uttar e noticiado em diversos veículos de imprensa mundo afora desde o último dia 7, quando o caso foi divulgado, o resgate se deu no meio da noite do dia 3, quinta-feira passada, e precisou de apoio da polícia e de funcionários do Estado. Consta que o homem que se dizia dono de um ser roubado da natureza –– que, portanto, nasceu livre –– chegou a tentar impedir a entrada da equipe e do caminhão no qual Raju foi colocado.

Raju se mostrou apreensivo num primeiro momento do resgate, afinal seres humanos eram (e vão continuar sendo por um bom tempo) sinônimos de dor, fome e maldade. E foi quando o elefante percebeu que não seria agredido, mas salvo, é que as lágrimas escorreram pela pele sofrida de sua face, pois diferente de elefantes livres, Raju não tinha o direito de se refrescar em lagos e rios e assim umedecer sua couraça. Segundo relatado por Pooja Binepal, da ONG Wildlife SOS UK, todos da equipe de ajuda se espantaram com o tímido choro do animal. Eu, particularmente, me sinto como que constrangida, no sentido de que se não fosse a nossa espécie, animais não conheceriam essa forma de expressão de sofrimento, embora aquele choro possa ter sido de alívio. Penso que para um animal vir a externar a dor e a alegria por meio da lágrima, algo de essencial dentro deles se quebrou… Uma essência mágica que dá a eles o ar glorioso de seres da natureza –– o que, definitivamente, o homo sapiens deixou de ser.

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“Os elefantes não são apenas animais majestosos. Eles são altamente inteligentes e capazes de demonstrar sentimentos de tristeza. Por isso, podemos imaginar o quanto meio século de tortura representa para ele”, disse Pooja Binepal após o impacto das lágrimas de Raju. A ambientalista afirmou aos repórteres que cobriram o caso de perto que a crueldade desse tipo de atitude começa na captura, quando as mães e os filhotes são ludibriados a se aproximarem das armadilhas nas quais os bebês caem. “Quando isso acontece, a mãe chora por seu bebê durante dias”, afirma. Raju foi roubado de seu habitat para virar elefante de trabalho, carregar peso, transportar todo tipo de coisas.

Levou nas costas o peso da exploração, a que são submetidos tantas outras espécies tidas como fundamentais à manutenção de mordomias de humanos. Não raro, nos deparamos com cavalos e jegues caídos pelas ruas devido ao peso das carroças. Recentemente, registrei aqui o caso de uma cadela bull terrier usada em rinhas em Goiânia. O sofrimento era tanto que ela parecia indiferente a tudo que viesse a lhe ocorrer, de bom ou de ruim. Ela foi resgatada por uma protetora goianiense e passa bem. Me conforta saber que existem essas pessoas, que tocadas pela dor silenciosa dos animais, ajudam, sacrificam-se financeiramente, lotam as casas de alegrias colhidas nas ruas do abandono.

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