E se João Doria fosse prefeito de Vila Boa? (ou o Mandato de Doria Grey)

Depois de uma malsucedida gestão na prefeitura de São Paulo, que culminou com o impeachment, no começo de 2020, ao ser finalmente enquadrado por incapacitação ao cargo (ele lançara um decreto que trocava o verde/amarelo/vermelho dos semáforos por prata, grafite e preto e disse, durante o depoimento na Câmara, que era uma “resposta a quem achava que ele só tinha amor pela prata e que não gostava de grafite nem de preto”), João Doria, então já Doria Grey com registro alterado em cartório, resolveu esquecer a política e se isolar.

Pegou a antiga trilha dos bandeirantes, conhecida hoje como Via Anhanguera, e foi parar bem longe da terra da garoa. Mudou-se para a bucólica cidade de Goiás, a velha Vila Boa. Queria viver seus dias em paz, sem ter de dar satisfação sobre suas preferências cromáticas a ninguém.

Passaram-se alguns anos. O forasteiro já havia se aclimatado e era conhecido como “o grã-fino da casa limpinha”. Em um dia nublado, olhando para o Rio Vermelho – não sem uma certa gastura e birra interna com o nome –, a mosca azul-marinho da política fez-lhe cócegas novamente no umbigo e ele não resistiu. Após uma campanha relativamente tranquila, já que ninguém via como superar o cacife e a grife do bilionário dos ternos chiques, Doria Grey não teve dificuldades para se eleger prefeito.

Casa de Cora Coralina | Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Começou o mandato já em alta rotação. Quer dizer, em baixa: é que, como já havia notado durante a campanha, o incomodava a falta de mobilidade nas principais ruas da cidade. Antes de se assentar na cadeira de prefeito, lembrou-se de uma sacada do passado para provar o que estava falando. Assim, 1º de janeiro de 2025 ficou conhecido como o dia em que um cadeirante fake tentou trafegar em meio às pedras do centro histórico. A ideia era retirar aquele piso “impróprio” e “perigoso” e passar o piche (“quero ver alguém dizer aqui que não gosto de pichação”) em tudo.

Mas o pessoal conservador se revoltou. Após um protesto que reuniu os Godoy, os Couto, os Fleury Curado, os Caiado e os Ludovico, entre outras famílias centenárias, Doria voltou atrás e decidiu apenas igualar com concreto as irregularidades entre as pedras. Até preferiu, já que o asfalto não tem um tom tão pastel assim.

Mas uma coisa o perturbava ainda mais: era a tal Procissão do Fogaréu. Considerou que o local não era apropriado para uma manifestação daquela, ainda mais à noite e as pessoas mascaradas, com vestimenta inapropriada e sem visibilidade adequada. E assim, em prol da segurança e da eficácia do evento, foi criado o Fogareódromo, ao redor do lago formado com as águas (quando havia água) do Córrego Bacalhau. Os displays gigantes com os cenários das Igrejas da Boa Morte, do Rosário, de São Francisco e das praça do Coreto e do Chafariz recriaram a cena. As tochas de LED deram um toque especial e, no fim do evento, ao som da corneta em play back (“pra não ter chance de errar), o banner reproduzindo o “Ecce Homo” de Veiga Valle (aquele “pano velho”, como o prefeito se referiu) até que combinou com a cena.

Mas a coisa começou a ficar insustentável após uma briga política de Doria Grey com o governador Iris Rezende, que queria um parque na cidade (“esse negócio de verde não dá”, reagindo à ideia). O prefeito achou ali o motivo definitivo para acabar com o Fica. O tradicional festival de cinema e vídeo ambiental deu lugar a Expo Porcelain, o maior evento de porcelanatos de alto padrão do mundo.

Em 2028, chegava ao fim, na cidade de Goiás, o mandato de Doria Grey. Com uma aprovação popular entre 2% e 3%, mais ou menos o tamanho de seu gabinete e de seus assessores. Não sem antes pintar, pessoalmente e vestido a caráter, a Casa de Cora Coralina. De sépia.

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