E se fosse um branco?

O caso do ator Vinícius Romão mostra que no século 21 o regime de separação racial ainda está fortemente presente no Brasil. Mesmo com Mandela e com um presidente dos EUA negro, uma pessoa com a pele escura ainda é vista por muitos nessa sociedade com olhos preconceituosos

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É culpado até que se prove o contrário. Um ator negro, confundido com um assaltante nas ruas do Rio de Janeiro, ficou preso por 15 dias até um juiz decretar sua soltura, na última terça-feira (25/2). No momento da prisão, o ator de 26 anos, Vinícus Romão, formado em psicologia, voltava do shopping onde trabalha para complementar a renda enquanto tenta alavancar sua carreira de ator. O mais interessante é que nenhum objeto furtado foi encontrado com ele, que mesmo assim foi tirado do seu percurso diário algemado. Segundo o pai de Vinícius, o tenente-coronel da reserva do Exército Jair Romão, no depoimento o policial ainda escreveu que Vinicius tinha passado o material para uma pessoa conhecida como “Braço” só para justificar a prisão dele. Afinal, alguém tinha que ser preso, certo?

Jair Romão disse não acreditar se tratar de racismo, já que a descrição da vítima é parecida com a de seu filho. O advogado Flávio Buonaduce Borges disse que o caso se parece mais com erro policial do que com o crime de racismo. “Pode ter sido racismo do policial, mas não creio que se encaixe no crime de racismo”, esclareceu.

De qualquer forma, o que nós brasileiros percebemos é que negro é sempre visto como mais suspeito que uma pessoa de pele clara. O professor titular do departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP), Antonio Sérgio Alfredo Guimarães, escreveu um texto cujo título é “Suspeição estatística”. A expressão, segundo o docente, significa um conjunto de características do indivíduo, como o perfil físico, cultural e a apresentação de si, que se associam estatisticamente a certos delitos. Ele exemplifica que, “se a frequência de jovens negros presos por roubo é maior que a de jovens brancos, os jovens negros tornam-se suspeitos porque seu grupo de pertença tem maior probabilidade de cometer tal delito”.

Às vezes parece que enxerga-se o negro como se fossem todos iguais (como gêmeos mesmo!), sendo confundidos facilmente, como foi no caso de Vinícius. E isso me faz lembrar de um episódio da série humorística estadunidense, “Todo Mundo Odeia o Chris”, em que uma senhora branca é assaltada e ao descrever quem a assaltou diz: “Ele é negro, é negro e é negro.” É claro que Chris foi um dos suspeitos. Afinal, quem mandou nascer negro?

O fato de Vinícius ser ator me fez lembrar da lei de 2002, proposta pelo atual senador Paulo Paim (PT/RS), que na época era deputado, que propunha a quota de 25% dos espaços destinado à produção televisiva, cinematográfica e teatral e 40% à publicidade de atores afro-descendentes. Coincidiu com a exibição da telenovela Porto dos Milagres, adaptação de obra de Jorge Amaro, ambientada na Bahia, cuja temática principal era uma comunidade pesqueira e a ligação deles com o universo religioso afro-brasileiro. De 45 atores no elenco, apenas 6 eram negros. E isso na Bahia, cuja capital é a mais negra do país!

hebersonPara reafirmar esta questão de que pobre e negro nesse país não tem vez, recentemente o Jornal Opção Online repercutiu o caso de Heberson Lima, um homem pobre preso injustamente no Amazonas acusado de ter estuprado uma criança de 9 anos. Após ser preso, Heberson foi estuprado na prisão e adquiriu o vírus da Aids. Assim como no caso de Vinícus, uma pessoa simplemente levou o dedo em direção a Heberson e disse: “Foi ele!” Acontece que este homem tinha uma desavença com o então ajudante de pedreiro, que ficou por três anos preso até obter ajuda de um advogado, que levou seu caso adiante e Heberson foi absolvido em 2006.

Ações afirmativas são implementadas e pensadas constantemente no Brasil. No entanto, um problema cultural se cura com o tempo e muito esforço da população. Esforço esse que não pode se dar somente com políticas compensatórias ou de reposição àqueles chamados de “excluídos”. É um processo quase civilizatório, em que paulatinamente a população passará a entender que negro não é sinônimo de ladrão, que Candomblé não é macumba, e muito menos índios são preguiçosos. É uma ironia imensa um país repleto de miscigenação demorar tanto a superar preconceitos como estes. Mas pudera! Uma nação que tanto relutou em abolir a escravidão terá que demandar um grande esforço para desenraizá-lo.

Os negros deviam ter vindo ao nosso país como reis, mas vieram como escravos. E mesmo depois do fim daquele terrível tempo, o preconceito racial persiste nos fazendo lembrar daquela época. Alguns ainda insistem em dizer que o racismo não existe, já que é mais fácil silenciá-lo, fingir que não existe. Mas sempre existem aqueles casos em que o negro é confundido com funcionário de uma loja, como babá de seu filho branco ou como ladrão.

A cor da violência está aí para nos mostrar quem mais morre no país. O Mapa da Violência de 2013 apurou que as taxas de homicídio da população preta (19,7 óbitos para cada 100 mil pretos) são 88,4% maiores que as taxas brancas (10,5 óbitos para cada 100 mil brancos). Desta forma, proporcionalmente morrem 88,4% mais pessoas pretas do que brancas.

Interessante como Huxley, com o Admirável Mundo Novo, criticava essa sociedade na década de 30, e aparentemente, esse regime de separação racial pouco mudou. Negros ainda são vistos como descontrolados, primitivos, que devem ser enviados para o recondicionamento a fim de não ser uma ameaça ao bom cidadão branco. O doído é ver isso no Brasil, país fruto da miscigenação.

Nosso eterno presidente da África do Sul, Nelson Mandela, que faleceu em 2013, lutou contra essa separação – o apartheid. Mandela, que levou o Prêmio Nobel da Paz em 1993, encabeçou uma série de articulações políticas que culminaram nas primeiras eleições democráticas e multirraciais da África do Sul, em 1994, e foi ele o primeiro presidente negro do país africano. E há pouco tempo o mundo conheceu Barack Obama, o 1º presidente negro nos Estados Unidos da América, país conhecido pelo imenso preconceito racial. Mesmo assim, com grandes figuras políticas com a pele escura, ainda somos obrigados a perceber diariamente o racismo.

A estudante da Universidade de Oxford, Lily Green, que tem textos publicados na BBC Brasil, escreveu uma frase interessante em um dos seus textos intitulados “Uma inglesa brasileira”. Nesse artigo, Lily, cuja nacionalidade é inglesa, fala sobre como as pessoas a confundem com brasileira por ter a pele morena, os cabelos castanhos e os olhos escuros. Ao falar sobre a temática do racismo no Brasil, a inglesa diz: “Não esperava que em um país com população tão geneticamente diversa e misturada, sem história de apartheid em tempos recentes, fosse tão marcado pela discriminação racial.”

Não interessa se Vinícius é ou não o assaltante, mas sim a forma em que tudo ocorreu. Mesmo se ele não for inocente, é absurdo uma pessoa voltar para a casa depois de um longo dia de trabalho, e simplesmente ir preso porque alguém apontou e disse: “Foi ele!” Depois disso, ainda ficar 15 dias preso sem nenhuma comprovação de que foi de fato ele que cometeu o crime. Pois é isso que ocorre no Brasil com negros e pobres. Desta forma, Vinícius, faça a você mesmo um favor: na próxima encarnação, por favor, peça para nascer branco.

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