“É necessário que haja engajamento das mulheres na política”

A ex-vereadora Célia Valadão (MDB) pode interromper uma breve pausa, em que se dedicou mais a música e atividades no Executivo municipal para, mais uma vez, disputar um cargo político, na eleição deste ano. “Tenho sido cobrada por várias pessoas, amigos, familiares, por nosso grupo politico. O próprio prefeito Iris, por várias vezes, me fez este apelo. É algo que está sendo estudado com muito carinho”, diz.  

A ex-vereadora Célia Valadão (MDB) Foto: Fernando Leite

Uma das figuras femininas de mais carisma e tradição dentro do seu partido, o MDB, Célia Valadão acumula experiência política de dois mandatos na Câmara Municipal de Goiânia, onde ocupou a liderança do Paço Municipal. Também atuou em funções de secretariado e diretoria na Prefeitura de Goiânia nos governos de Iris Rezende (MDB)

Nesta entrevista, Célia Valadão fala sobre a possibilidade de disputar novamente uma cadeira na Câmara Municipal de Goiânia. Ela também é lembrada para compor a chapa majoritária, como vice-prefeita.

A ex-vereadora comenta o momento especial que passa o MDB, após a anunciada aposentadoria de Iris Rezende (MDB) e fala sobre a proximidade com o prefeito, que a levou para o partido. Ela avalia também a pré-candidatura em  Goiânia de Maguito Vilela. 

Ligada a Igreja Católica, Célia avalia também o papel dos segmentos religiosos na formação das lideranças políticas e a importância das mulheres na representatividade e atividade políticas.

Célia é cantora de sucesso do segmento gospel católico e completou este ano 25 anos de carreira.

A sra. é  cantora, tem uma extensa carreira consolidada, também tem uma atuação muito presente na Igreja Católica. Fale um pouquinho desta trajetória.

Ela se iniciou exatamente no Ministério da Música, na Igreja Matriz de Campinas. Desde adolescente, quando cheguei em Goiânia com minha família, com nove anos – eu sou da Cidade de Goiás – e lá ingressei. Fiz catequese, primeira eucaristia, e nunca mais saí de lá. É algo que, na minha vida, na da nossa família, é motivo de muita benção, muita graça, muita alegria. Poder servir, exercer o nosso dom, a música, de uma forma tão prazerosa. Ao longo de todo este tempo – estamos fazendo 25 anos de carreira – tivemos dez álbuns, sendo nove cds e um DVD. O último cd foi lançado no início deste ano. Graças a Deus, nesta área, temos um trabalho diferenciado. Nossa origem é na música sertaneja raiz católica, e, desde o início, buscamos fazer um trabalho bem nesta nossa origem sertaneja, mas também com mensagens positivas, que ajudam a entrar em sintonia com Deus, para que as pessoas pudessem ouvir, com suas famílias, e terem paz. Em um mundo tão tumultuado, como o em que vivemos, proporcionar isso através da música, é uma benção. Podemos falar de uma forma mais profunda, a gente sente que pode tocar a alma das pessoas.

“Desde o início, buscamos fazer um trabalho com mensagens positivas, que ajudam a entrar em sintonia com Deus, para que as pessoas pudessem ouvir, com suas famílias, e terem paz”

Célia teve dois mandatos na Câmara Municipal de Goiânia Foto: Arquivo pessoal

Em paralelo a esta atividade, a sra. construiu uma carreira sólida na política. Como foi que a política surgiu na sua vida?

Ao longo de todo este tempo, trabalhando a música, a evangelização, sempre com minha família, a oportunidade foi acontecendo naturalmente. Com o tempo, foi despertando nas pessoas que me conhecem essa possibilidade de me envolver, atuar e trabalhar na política. E aconteceu. Em 1992 fui candidata a vereadora pela primeira vez. E, ao longo do tempo, eu fui gostando, simpatizando com esse trabalho político. Entendi que podia conciliar com o trabalho de evangelização. E, de acordo com o trabalho que você se propõe a fazer, naturalmente, ele acrescenta. Tanto um como o outro trabalho lidam diretamente com as pessoas, com falar com elas, interagir. Ouvir suas necessidades.

Desde o início da atividade na política, já são quantos mandatos na Câmara Municipal? E a sra. também trabalhou no Poder Executivo. Como foi esta experiência?

São dois mandatos de vereadora, mas eleições de 2008 e 2012. Antes, trabalhei com o prefeito Iris Rezende no mandato dele de 2004, fui diretora na Secretaria de Desenvolvimento (Sedem), lidando em uma área que eu tinha uma afinidade, uma simpatia, muito grande, as feiras, as livres e as especiais, tinha um contato muito grande com o público. Pude conhecer o trabalho do Executivo, e me apaixonar. No final do meu primeiro mandato como vereadora, fui convidada novamente e estive na Assistência Social, em 2011 e 2012. Voltei recentemente para o Executivo, a convite do prefeito Iris, na atual gestão, para ser Secretária da Mulher, estive lá por um ano e nove meses, e foi uma experiência fantástica. E depois estive também na Superintendência de Habitação e Regularização Fundiária.

E quando se filiou ao MDB?

Trabalhando na Sedem, fui convidada para ir para o PMDB, pelo prefeito Iris e pela Dona Iris. Eles me falaram da importância da minha participação nas disputas, eleições.  O prefeito Iris costumava dizer ser importante que pessoas que vêm com a bagagem da Igreja, sendo mulher também, trabalhar com esta possibilidade. E, em 2008, foi a minha primeira eleição para a Câmara.

Sempre foi do MDB?

Minha primeira filiação foi no PDS, que depois de várias fusões se transformou no PFL, que é hoje o DEM.

“Poder ter tido dois mandatos no MDB é motivo de muita honra. É um partido popular, é o maior partido. Eu me sinto muito bem nele, fui acolhida com muito respeito, carinho”

Iris Rezende convidou Célia para ir para o MDB Foto: Arquivo pessoal

A sra. é uma das lideranças femininas mais tradicionais e identificadas com o MDB. A sua carreira política foi toda construída neste partido. Certamente houve convites para ir para outros, mas, nesta retomada agora de um projeto político, a sra. se manteve no MDB. É, para a sra., importante esse vínculo com o MDB?

Sem dúvida, para mim foi um presente poder ser eleita pelo PMDB, hoje MDB. Eu tenho como referência pessoas que trazem para a gente este legado, a origem do partido, a forma como aconteceu toda a trajetória e história do Iris Rezende, da Dona Iris, enfim, de todas as pessoas que se destacaram no MDB. Poder ter tido dois mandatos no MDB é motivo de muita honra. É um partido popular, é o maior partido. Eu me sinto muito bem nele, fui acolhida com muito respeito, carinho. Valorizaram a minha pessoa. Então, eu conheço este partido, a maneira como é conduzido. 

Em Goiânia e em Goiás o partido tem uma história longa no governo, na Prefeitura. A sra. acredita que já consolidou uma marca administrativa?

A contribuição deste partido para Goiás, para Goiânia, é muito grande. Esses mandatos todos do prefeito Iris. A gente tem alegria de olhar para a cidade, ver como vem crescendo Goiânia, como ele conseguiu asfaltar todos os bairros da capital. Então, ele tem feito exatamente aquilo que ele apresenta no seu Plano de Governo, com muita maestria, zelo, competência. Hoje, já no final de mais uma gestão, você vê uma cidade um canteiro de obras, como sempre foi. Não é à toa que ele é conhecido como um tocador de obras. Sabemos que a gestão hoje em todos os municípios do Brasil passam por inúmeras dificuldades. Goiânia não é diferente. Mas o prefeito Iris tem conseguido, mais uma vez, mostrar o dom dele para administrar. Ele sabe fazer o pouco render, um Orçamento que parecia que não daria, ele fez acontecer, com parcerias. Enfim, ele dá exemplo do que é servir a cidade, através da administração pública. Nestes anos todos, pode-se dizer que ele não se ausentou nenhum dia. Ele se dedica, literalmente, dia e noite.

“A contribuição deste partido, do MDB, para Goiás, para Goiânia, é muito grande”

Percebendo esta admiração toda que a sra. tem pelo prefeito Iris, essa ligação, como assimilar a aposentadoria da carreira anunciada por ele recentemente? Com toda esta experiência, era natural que ele fosse à reeleição. Como a sra. recebeu a notícia de que ele não iria mais concorrer?

Tenho que confessar que foi com tristeza. Mas, ao mesmo tempo, com a certeza de que a dedicação dele nestes mais de 60 anos de vida pública foi tão grande, valorosa e representativa na história do nosso estado, da nossa cidade, que, apesar de nunca querer aceitar e nem acreditar que chegaria este dia – e de ter tentado, por várias vezes, persuadi-lo de voltar atrás nesta decisão – eu respeito muito. Acho que, antes de mais nada, a gente tem que saber entender a hora e a visão dele. Ele entendeu que agora é o momento e, apesar de não querer que ele se afaste, se aposente, nós temos que respeitar e aceitar a decisão dele, que é consciente, tranquila, coerente. Um momento de se dedicar mais a família. É difícil imaginar o Iris Rezende fora da política, fora da administração. Ele é naturalmente um conselheiro, uma referência. Espero que ele continue fazendo isso. No meu caso, eu sempre recorro a ele, busco sugestões, orientações. Deve ser muito gratificante para ele olhar para a cidade e ver o que ele foi capaz de fazer, olhar para o estado e ver o que ele fez. Deve ser uma sensação de dever cumprido. O povo goiano e goianiense tem que reconhecer e agradecer pela dedicação dele, uma vida inteira, à administração pública. Isso ninguém questiona: ele sabe administrar.  Eu só posso agradecer a ele e deixar o meu reconhecimento, a minha alegria de ter podido participar da gestão. Eu pude aprender muito com ele, com a forma humilde dele de ser. Ele costuma dizer que nunca deixou o poder subir a cabeça. E isso é verdade. (Interrompe, emocionada)

“O prefeito Iris tem conseguido, mais uma vez, mostrar o dom dele para administrar. Ele dá exemplo do que é servir a cidade, através da administração pública”

Foto: Arquivo Pessoal

E como fica o MDB após a aposentadoria de Iris Rezende, em um momento importante, prestes a mais um período eleitoral?

O MDB, acredito, está como eu: meio ainda em estado de choque, sem querer acreditar que realmente chegou este momento, da aposentadoria do nosso líder maior.  Mas de uma forma também bastante consciente de que é um grande partido, é o maior do Brasil. E isso tudo vai servir para que as pessoas percebam que nós temos também outros nomes, outras pessoas que podem  pegar  esta bandeira e dar continuidade ao belo trabalho que o Iris deixou.

“É difícil imaginar o Iris Rezende fora da política, fora da administração. Ele é naturalmente um conselheiro, uma referência. Espero que ele continue fazendo isso.

O ex-governador Maguito Vilela anunciou a sua pré-candidatura a prefeito de Goiânia. Como a sra. avalia esta pré-candidatura e Maguito dentro do MDB, neste momento de vácuo, após a saída de Iris da cena política?

Nós temos uma situação privilegiada: um prefeito muito bem avaliado, no final de uma gestão, deixando uma administração bem organizada, “redondinha”. E que seria naturalmente reeleito até no primeiro turno, eu não duvido disso. Pesquisas já mostravam isso. Então, a situação do MDB, neste contexto da administração de Goiânia, tem esse privilégio, da forma como o prefeito Iris sempre foi e está terminando o mandato agora. Mas, não sendo o prefeito Iris (candidato), nós temos esta liderança incontestável, que é o Maguito Vilela. Uma pessoa que já deu provas da sua competência, tanto no governo do estado, como prefeito de Aparecida de Goiânia. Ele transformou aquela cidade, fez o sucessor. Então, é uma pessoa que traz uma bagagem enorme. E vejo que a referência dele também é o Iris. É uma grata satisfação saber que nós temos uma pessoa como Maguito Vilela para ser sucessor de Iris. Ele terá uma administração que já passou por uma crise – Iris pegou a gestão com muitos problemas –  e que o prefeito conseguiu contornar, organizar a casa. O próximo prefeito vai só administrar isso.

A sra. espera que Maguito reúna, a partir de agora, as forças políticas do MDB aqui da capital, para uma conversa, um alinhamento, uma coesão?

A história do Maguito é de uma pessoa de diálogo, coerente, que tem um perfil de articulador. Acredito que ele vai sim fazer isso, não vejo dificuldade. É um caminho natural: a Democracia impõe essa necessidade do diálogo. Ninguém faz nada sozinho, especialmente na política. Vamos aguardar, tenho certeza de que até a convenção serão dias de muito diálogo.

“Maguito Vilela já deu provas da sua competência, tanto no governo do estado, como prefeito de Aparecida de Goiânia. Ele transformou aquela cidade, fez o sucessor. Então, é uma pessoa que traz uma bagagem enorme”

A sra tem representatividade no segmento religioso católico, é uma liderança feminina, tem experiência em gestão no executivo, experiência parlamentar. Este perfil tem potencial para composição de chapa majoritária. O nome da sra. circulou como opção de vice de Iris. Foi sondada recentemente?

Não, em nenhum momento. Mas vejo isso de ser lembrada com muita alegria e tranquilidade, na verdade, é uma honra. Minha vida sempre foi  colocada na presença de Deus, ele é quem conduz, da forma que vai ser melhor para mim, para minha família. Não descarto, mas também não tenho nenhuma pretensão, ou vaidade, em ocupar uma função ou outra.  É algo que eu também não tenho nenhuma opinião formada no sentido de querer ou de não querer. Entendo que, a partir do momento em que você está no processo político, tem que se estar pronta para os desafios que chegarem. Acho que a preocupação maior agora é tentar aglutinar forças e naturalmente buscar apoios, aliança, parcerias, com partidos para agregar ao nosso projeto do MDB. A questão é muito maior.  E a composição da chapa é uma prerrogativa do pré-candidato e ele, naturalmente, deve estar avaliando todas estas possibilidades. Mas vamos aguardar, ainda tem muita água para rolar.

A sra. estava se dedicando mais, recentemente, a carreira na música.  Mas e um  projeto de disputar novamente uma cadeira na Câmara Municipal de Goiânia? Uma nova pré-candidatura já está decidida?

Tenho sido cobrada por várias pessoas, amigos, familiares, por nosso grupo politico. O próprio prefeito Iris, por várias vezes, me fez este apelo. Ele me disse que eu deveria dar sequência ao meu projeto político, sempre me incentivou muito, vê a minha participação na vida política de uma forma muito positiva. Tenho ouvido bastante os incentivadores, e isso tem trazido também esta responsabilidade: de fazer uma avaliação e tomar uma decisão, para que seja um trabalho como foram os outros mandatos. É algo que não é descartado de forma nenhuma, não está ainda fechado no nosso projeto familiar, mas é algo que está sendo, sem dúvida nenhuma, estudado com muito carinho.  

Foto: Fernando Leite

“A representatividade da mulher ainda não está como eu sonhei, mas vai chegar, tende a se fortalecer. A nossa característica de fazer política é diferenciada, mais conciliadora, mais leve”

Atualmente, as candidaturas femininas estão sendo muito demandadas, há um estímulo para que mulheres se candidatem, até para que os partidos se adequem a exigências da lei eleitoral. É importante que a mulher ocupe cada vez mais espaços na política?

É necessário que haja engajamento das mulheres na politica. Nós temos tido alguns avanços, mas ainda tímidos. A representatividade da mulher ainda não está como eu sonhei, mas vai chegar, tende a se fortalecer. A nossa característica de fazer política é diferenciada, mais conciliadora, mais leve. Nós temos um estilo diferente. E, graças a Deus, o trabalho da mulher na política é sempre reconhecido  e que traz para a gente satisfação de saber que as mulheres estão se empenhando. Precisamos caminhar com muito comprometimento, se estamos em todas as atividades sociais, decisões, por que não como representantes da política partidária? Somos mais de 50 por cento da população e do eleitorado. Muitas mulheres são mantenedoras do seus lares, responsáveis pela educação dos filhos.

Ao ocupar cadeiras nos parlamentos e nos governos, vereadoras e deputadas, prefeitas,  podem ajudar a diminuir o preconceito, o desrespeito e a violência, crimes como o feminicídio, que as mulheres ainda sofrem tanto?

Sim, especialmente através de propostas e posicionamento, na condução das matérias que tramitam no Legislativo. A forma de se colocar no processo político fortalece isso ainda mais essa luta, que é de todas. 

“Importante ressaltar o incentivo do Papa Francisco no engajamento do leigo na política. Tenho lido várias cartas dele no sentido de fortalecer isso nos cristãos católicos, que tenham pessoas envolvidas que sejam oriundas desta formação”

Candidaturas oriundas de grupos e segmentos religiosos estão também mais comuns. Igrejas, no caso da sra. a católica, contribuem para a formação de lideranças políticas?

Temos muitos líderes. Importante ressaltar o incentivo do Papa Francisco no engajamento do leigo na política. Tenho lido várias cartas dele no sentido de fortalecer isso nos cristãos católicos, que tenham pessoas envolvidas que sejam oriundas desta formação. Isso vai trazendo para cada um que tem esta vivência uma alegria muito grande.

Quais seriam as pautas que candidatos e parlamentares católicos defendem com mais destaque?

A pauta geral é o bem comum, da comunidade, a preservação da vida, a defesa da família. O que existe de mais importante na atuação do cristão católico é a oportunidade de fortalecimento e valorização da família, da vida, assim você pode ter  uma sociedade mais justa, mais feliz, estruturada e engajada. Investir na família é investir na cidade, na criança, no idoso, na mulher, no respeito por todas as pessoas. É muito claro que a Igreja busca fortalecer a família, que é o local onde a gente começa a formar os cidadãos.  

Este ano, a eleição vai acontecer em meio a uma pandemia. Como fazer campanha, conquistar o eleitor, com tantas restrições de contato, medidas de contenção sanitária?

Está difícil, porque o assunto que domina o mundo, as redes sociais, é a pandemia.  E há o fato das pessoas ficarem hoje limitadas, evitar aglomeração. E fazer politica é contato. Mas hoje há outras possibilidades de aproximação da população, outros meios, que não os físicos. E são meios muito ágeis as redes sociais, a gente até se surpreende. Tem sido diferente o contato com estes novos meios, mas satisfatório. É um desafio, que vai nos mostrar que o eleitor está mais exigente e atento.  

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