Duelo das Famílias Scolari: qual seleção é melhor, a de 2002 ou a de 2014?

Num olhar superficial, a comparação pode parecer injusta, pois a primeira já foi campeã.
É um risco, mas futebol não é para fracos — às vezes é preciso entrar de sola

Ademir Luiz
Especial para o Jornal Opção

No excelente livro “As Melhores Seleções Brasileiras de Todos os Tempos”, o jornalista Milton Leite defendeu que o melhor time já montado para uma Copa foi o escrete de 1970, vencedor no México. Embora respeite essa opinião, discordei dela e escrevi o artigo “1958 – rei de Copas”, publicado em março de 2010 no Jornal Opção, no qual, obviamente, defendi nossa primeira equipe campeã. Retomo a discussão, enfocando as duas Famílias Scolari: a do mundial 2002 e a atual. Num olhar superficial pode parecer injusto, considerando que a primeira já foi campeã. Certamente, é um risco, mas, futebol não é para fracos — às vezes é preciso entrar de sola.

A possível conquista de 2014 será mais importante do que a de 2002. O próprio patriarca da família admitiu que a Seleção tem obrigação de vencer em casa. Não se pode repetir 1950, o mal fadado Maracanazo, quando o Brasil perdeu para o Uruguai por 2 a 1. Objetivamente, a equipe de 2002 era favorita simplesmente pela tradição, mas estava fresca a acachapante — e para muitos suspeita— derrota de 1998, para a França de Zidane. Scolari não havia comandado todo o processo: foi o substituto de Leão, que substituíra Vanderlei Luxemburgo. A situação se repetiu agora, com Scolari na vaga do decepcionante Mano Menezes.

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Scolari não mudou muito as peças. Não por ser uma geração de unanimidades, mas pela oferta de nomes selecionáveis se mostrar escassa desde a Segunda Era Dunga, em 2010, que deveria representar renovação à vencedora geração anterior, encerrada em 2006 e que começou a se desenhar em 1990, a Pri­meira Era Dunga.

Scolari não enfrentou polêmicas. Divergências foram pontuais. Alguns defenderam veteranos como Ro­naldinho Gaúcho, Kaká e Robinho; outros, que Diego Cavalieri deveria ter vaga de goleiro reserva; ainda outros lamentaram o corte de Lucas. Nada que colocasse em xeque a legitimidade dos eleitos. Nada parecido com a balbúrdia pela ausência de Romário em 2002.

O que essa calmaria representa? Trata-se de confiança, de descrédito ou apatia quanto à Seleção? Difícil, mas a vitória na Copa das Confederações deu crédito à segunda Família Scolari.

Em termos de nível de dificuldade na 1ª fase, 2014 supera 2002, quando os adversários foram Turquia, China e Costa Rica. Em 2014, serão Croácia, México e Camarões. A Turquia surpreendeu em 2002, mas o México é sempre um time complicado de bater, a Croácia costuma apresentar um futebol ofensivo e perigoso e Camarões é uma incógnita, variando de letal até semiamador. Mas é provável que se repita o 1º lugar do grupo.

O esquema de Scolari em 2002 foi considerado exageradamente defensivo, com três zagueiros. Poucos perceberam que essa formação permitia que os laterais Cafu e Roberto Carlos e o volante Kléberson fossem livres para atacar. Efeito surpresa fundamental para o sucesso. Por outro lado, a seleção agora é claramente ofensiva, contando com três atacantes de ofício: Hulk, Fred e Neymar.

Contrapondo os titulares de cada uma das gerações o que se pode observar? Começando pelo gol, Júlio César não é rival para Marcos. Bom goleiro, Júlio César é alvo de desconfiança desde sua falha contra a Holanda em 2010. Não se mostra muito acima dos reservas Jefferson e Victor. Ironicamente, recusou o número 1 e vai usar o 12 nesta Copa. Marcos, independentemente das defesas milagrosas que realizaria em 2002, já na preparação conquistou a confiança de Scolari e dos torcedores. Coisa de santo.

A zaga de 2002 era eficiente e disciplinada, com Lúcio, Edmílson e Roque Júnior. Mas a dupla Thiago Silva e David Luiz parece mais sólida e técnica. Edmilson, que usava a camisa 5, deve ser comparado ao volante Fernandinho. Talvez Ed­milson devesse perder, mas seu fantástico desajeitado gol de bicicleta contra a Costa Rica lhe concede o empate. O mesmo vale para os dois camisa 8, Gilberto Silva e Paulinho.

O segundo volante em 2002 era Kléberson. Não existe no time de 2014 ninguém com função tática parecida. Sua guisa de comparação, então, seria o atacante Hulk. Entre os dois, a superioridade técnica de Kléberson é evidente, embora Hulk, jogador muito esforçado, mereça crédito de ser uma das forças motriz do time.

Nas laterais, duas situações diferentes. Na direita duelam Cafu — versátil, velocista e líder equilibrado, mas que parecia ser melhor do que era — e Daniel Alves, tecnicamente melhor, mas que não se mostrou insubstituível ou decisivo. Por conta disso, outro empate. Na esquerda, Roberto Carlos e Marcelo. Não se pode chamar de duelo: Roberto Carlos foi o segundo melhor lateral esquerdo do Brasil, e talvez mundial, de todos os tempos, só atrás do lendário Nilton Santos, bi em 1958 e 1962. Marcelo é bom jogador, titular do Real Madri, e com medalhas olímpicas em 2008 e 2012, mas ainda não é História. Roberto Carlos, apesar das meias em 2006, é.

A seleção de 2014 possui só um armador, o discretíssimo Oscar, que não usa a 10, mas a 11. A mesma de Ronaldinho Gaúcho em 2002. Apesar de Oscar ser promissor, Ronaldinho já era uma realidade. Lembro-me da “Placar” o comparar ao rei Pelé. Exagero? Muito. Mas o fato de esse exagero ter sido cometido já indica algo.

A 10 de 2014 pertence a Neymar Jr. Ele venceria fácil todos os citados, com exceção de Ronaldinho, mas os dois últimos nomes de 2002 são gênios. Infelizmente, para o esbelto topetudo, seu rival imediato é o brilhante Rivaldo, escolhido o melhor do mundo em 1999. O mal de Rivaldo foi a humildade. Se tivesse a saudável petulância de um Romário poderia conseguir vaga na galeria das lendas futebolísticas, ao lado de gigantes como Cruyff, Puskas, Maradona e Eusébio. Não poderia ser rei, pois só existiu Pelé, mas seria um grande príncipe. Rivaldo, embora o laureado oficial tenha sido o goleiro alemão Oliver Kahn, foi o melhor jogador da Copa de 2002. É até provável que Neymar se torne um dos melhores do mundo e de todos os tempos, mas ainda não é.

Liderando o ataque de hoje está Fred. Em 2002 havia Ronaldo. Davi contra Golias, e desta vez o gigante esmaga o pequeno. Fred é bom jogador, parece ser ótimo sujeito e tem a confiança de Scolari, mas Ronaldo é simplesmente gênio. Não por acaso, após uma séria contusão, terminou a Copa como o maior artilheiro brasileiro de uma edição da competição em todos os tempos.

A partir dessa opinião, a Família Scolari de 2002 vence a de 2014 por 6 a 2, com três empates. Para terminar, relembro que em 2002 havia um reserva de luxo, Denílson, vendido como uma espécie de Garrincha mirim. Não era para tanto, mas Denílson cumpriu muito bem sua função na Copa. A cena dele sozinho, segurando a bola perseguido por um esquadrão de turcos é antológica. Esse ano tal papel deveria ser representado por Lucas. Não deu. Espero que Lucas, mesmo preterido, torça tanto para o escrete canarinho quanto Romário torceu em 2002. A Família Scolari agradece.

Ademir Luiz é doutor em História e professor da UEG.

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Hector Bonilla

A seleção de 2014 é formada por moleques cheirando a leite (com algumas exceções), que só se preocupavam em tirar fotos, arrumar o cabelo, fazer tatuagem e mostrar a marca do patrocinador na cuequinha.