Dribles e jogadas irreverentes vão ser coisa proibida no futebol?

A genialidade dos craques é ameaçada não só pelos adversários, como também por árbitros que resolveram punir lances criativos

Atacante do Flamengo Michael dribla Reinaldo, do São Paulo | Foto: Reprodução

* Cilas da Silva Gontijo
Especial para o Jornal Opção

O Brasil, apesar de não ter inventado o esporte, é reconhecido mundialmente como “o país do futebol” – justamente por ter ao longo da história revelado grandes craques e gênios da bola. Aqueles jogadores que faziam o torcedor ir ao estádio e pagar as vezes um preço salgado pelo ingresso, porém não se importava porque sabia que valeria a pena o investimento.

O gol sempre foi e sempre será o auge de uma partida de futebol. Tanto que não existe gol feio – há sim, gol perdido. O gol pode ser de barriga, à la Renato Gaúcho; de bumbum, de bico e até mesmo de mão, como os de Maradona e Túlio Maravilha. Aliás, Túlio fez a Argentina de Maradona provar de seu próprio veneno.

O gol será sempre a busca dos três pontos, não interessa como será feito. Mas o que faz o torcedor vibrar, gritar, sorrir, cantar e aplaudir de pé são as belas jogadas – os encantos das gingas e dos dribles desconcertantes que só os grandes craques conseguem dar em seus adversários. Essas jogadas geniais podem ser chamadas de “orgasmo” de um jogo. Justamente por levar o torcedor à loucura, seja ele do mesmo time ou não.

Todavia, nos últimos tempos temos visto coisas estranhas acontecendo no mundo de um modo geral. Parece que está tudo virando de cabeça para baixo. Toda essa genialidade citada acima parece estar ameaçada atualmente no futebol, e não é somente pelos jogadores que sofrem com os dribles desses craques.

Por incrível que pareça, tal ameaça vem partindo hoje da arbitragem, dos homens que deveriam resguardar os jogadores que estão ali proporcionando aos donos do espetáculo, os torcedores, momentos de êxtase e de felicidade.

Os craques podem desaparecer?
Recentemente vimos o caso do atacante Michael, que se destacou no Goiás pelos seus dribles irreverentes e desconcertantes. Foi isso um dos motivos que fizeram com que o Flamengo o comprasse. No jogo do time carioca contra o São Paulo, no domingo, 14, Michael fez uma partida impecável e, quando já estava 3 a 0 para o Flamengo, aos 47 do primeiro tempo, recebeu um lançamento e dominou de letra, de uma forma que só os craques conseguem fazer.

Essa jogada irritou os jogadores do São Paulo, tendo como mais exaltado o lateral Reinaldo. Eles partiram para cima de Michael – como se o jogador tivesse dado uma cotovelada na boca do seu adversário ou algo semelhante. O atacante rubro-negro ainda foi advertido pelo árbitro da partida.

“Sou assim. Gosto de jogar bola, jogo brincando, com alegria. Não fiz isso para desmerecer ninguém, esse sou eu”, disse o jogador, em entrevista no intervalo.

Outros atletas, como Neymar e Paquetá, da seleção brasileira, já chegaram a ser não apenas hostilizados por seus adversários depois de aplicarem dribles ou jogadas de efeito, como também receberam cartão amarelo por simplesmente fazer o que os torcedores esperam deles, ou seja, lhes dar alegria.

Em 2020, na disputa do torneio sub-14, no Rio Grande do Sul – no jogo entre Palmeiras e Grêmio, o atacante Endrick do alviverde tentou dá uma lambreta no adversário – e foi rapidamente advertido pelo árbitro com cartão amarelo. A atitude do juiz foi defendida fervorosamente pelo narrador da partida. “Quis fazer bonito, tem que levar o cartão”. Como ficou a cabeça desse garoto?

O que diz a regra
Porém o que a regra do futebol fala sobre isso? A regra 12 que trata da conduta antidesportiva diz que “o árbitro pode aplicar o cartão amarelo ou chamar atenção do jogador se esse estiver claramente desrespeitando seu adversário”. Entretanto o que realmente pode ser visto como desrespeito?

Podemos considerar falta de respeito dribles, embaixadinhas, domínios de bolas irreverentes quando o jogo já está no seu final e com o resultado já estabelecido, em que haja clara intenção de desmerecer o outro, sem intenção nenhuma de buscar o gol. Quem não se lembra das famosas embaixadinhas de Edilson, o extravagante Capetinha, atacante do Corinthians – na final do Paulistão de 1999, contra o Palmeiras? Aquilo, sim, foi para provocar a ira dos adversários.

Os árbitros precisam de bom senso nessas interpretações para resguardar esses jogadores, em vez de puni-los por praticar o que há de mais belo no futebol. E, além disso, têm de disciplinar os que realmente merece a punição: os agressores.

Imaginemos o que seria dos grandes jogadores dribladores do passado se estivessem atuando hoje. O que seria de Garrincha, Denílson, Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo Fenômeno, Rivaldo, Dener (promessa do futebol brasileiro que morreu precocemente aos 23 anos em um acidente de carro). Use sua imaginação e faça ai a sua lista.

É preciso sempre levar em consideração os três princípios básicos do jogo, que são igualdade, segurança e diversão. Os dribles com certeza se encaixam perfeitamente no terceiro. E é exatamente esse um dos motivos que levam as pessoas aos estádios de futebol.

Deixem nossos craques driblarem, fazer a alegria da galera – caso contrário o futebol se tornará tão chato e burocrático que deixará de atrair a atenção de milhares de apaixonados por esse esporte tão encantador.

* Cilas da Silva Gontijo é aluno de Jornalismo da Faculdade Araguaia.

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