Do sertanejo ao gospel: goiano teria trocado seu estilo musical?

O gospel está entre as mais tocadas nas rádios, e os CDs sempre aparecem entre os mais vendidos. O evangélico não compra só pelo gosto, mas também pelo engajamento

Para a cantora Renata Guerra, de 23 anos, o mercado gospel goiano está hoje muito mais atrativo do que foi há cinco anos / Foto: Reprodução Twitter

Para a cantora Renata Guerra, de 23 anos, o mercado gospel goiano está hoje muito mais atrativo do que foi há cinco anos / Foto: Reprodução Facebook

Os estereótipos regionais são sempre motivos de muita controvérsia. Há quem diga que o Nordeste brasileiro, em sua totalidade, é vítima da seca e da miséria, ou que pelas bandas do Acre a civilização ainda não se faz presente. Assim como na região Sul só há pessoas loiras e bonitas trajando galochas, Goiás é o Estado das raízes caipiras e do sertanejo. Basta ligar a TV na novela das 9 para confirmar tal premissa. Acontece que o Nordeste possui regiões bastante ricas, no Acre já tem Shopping Center, o Sul é cheio de Ronaldinhos Gaúchos e Goiás não é mais a capital do sertanejo.

Apesar das centenas de duplas de irmãos cantores exportadas pelo Estado, o povo goiano hoje não anda muito satisfeito com o rótulo de “caipira”. Goiânia, por exemplo, em pleno cerrado, se concretiza no cenário nacional como centro do rock alternativo. Além disso, o voluptuoso mercado da música sertaneja não é mais exclusividade de Goiás e, Brasil afora, o gênero ganhou o gosto da maioria dos brasileiros, conforme indicam as grandes gravadoras.

Neste cenário, cravado em segundo lugar, o emergente gospel aparece de maneira definitiva no mercado musical brasileiro, e Goiás não é exceção. De acordo com uma pesquisa da revista Exame feita no último ano, apenas na capital, cerca de 390 mil pessoas se declaram evangélicas, o que representa 32,07% de toda a população. Prova do bom resultado oriundo da composição “fé + música”, cantores como Alda Célia e Kléber Lucas e as bandas Pedras Vivas e Radicais Livres são apenas alguns dos exemplos goianos de sucesso no cenário gospel.

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A Gospel Fair é feira goiana voltada ao público evangélico. O evento ocorre no Centro de Convenções de Goiânia e atrai pessoas do Brasil inteiro

Em entrevista ao Jornal Opção Online, o empresário Jeferson Baick, um dos coordenadores da Gospel Fair – feira goiana voltada ao público evangélico – afirma que o segmento gospel é o que mais cresce no Brasil, mas avalia não ser possível superar ou se equiparar ao sertanejo. “Esta é uma opção utópica. O sertanejo está arraigado nacionalmente, mas o gospel é o segmento que mais vende. É uma prova de que não se trata de uma febre ou que tenha curta vida. O gospel tem trazido cada vez mais novos nomes e se estabelecido comercialmente”, alegou.

Apesar da medalha de prata no ranking das gravadoras, o gospel possui uma vantagem preciosa frente ao sertanejo e a outros estilos musicais: o engajamento do público. De acordo com Baick, o número total de produtos pirateados no segmento gospel não chega aos 10% frente aos 60% da música sertaneja. O estilo está entre as mais tocadas nas rádios, e os CDs sempre aparecem entre os mais vendidos. “O evangélico não compra só pelo gosto, também pelo engajamento”, explica o empresário.

Para se ter uma ideia, no Brasil esse mercado movimenta cerca de R$ 1,5 bilhão por ano e emprega dois milhões de pessoas no mesmo período. A venda total de CDs, DVDs e mídia digital de música gospel rendeu R$ 359 milhões no País apenas em 2009. Em Goiás, o crescimento também é significativo. Para a cantora Renata Guerra, de 23 anos, o mercado gospel goiano está hoje muito mais atrativo do que foi há cinco anos. “Era muito fechado. O mercado está cada vez maior e abrangente”, afirma.

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Na avaliação de Jerferson Baick, um dos grandes responsáveis por este crescimento é o abandono de uma visão simplista que acompanhou o gospel por muitos anos. Atualmente, o segmento possui parâmetros mercadológicos concretizados que garantirão sua longevidade. Questionado se existe algum contraponto entre a lógica mercadológica e a fé cristã – motivo para críticas de dentro e fora da Igreja –, o empresário garante que esta é uma questão já superada. “No meu ponto de vista, devemos encarar essa relação sem tabus. Antigamente, as pessoas olhavam a nomenclatura ‘mercado’ de forma negativa, mas é um mercado. A compreensão disso facilita muito a qualificação do artista. Se não encararmos isso como uma questão profissional, a tendência é continuar na mesmice.”

Com todo esse sucesso de público, o segmento gospel tem recebido dezenas de “turistas” que alegam ter encontrado o “caminho de Deus”, deixando de lado a carreira construída por anos. Este é o caso de Mara Maravilha, da ex-funkeira Perla, da ex-sertaneja Sula Miranda e rumores recentes davam conta que até a Banda Calypso se renderia ao estilo.

A goiana Renata Guerra, que se dedica à música gospel desde seus cinco anos de idade, vê com desconfiança a vinda de alguns cantores seculares para o cenário evangélico, mas prefere ver a questão de um ângulo mais positivo. “Eles transmitem que é por uma escolha melhor para a vida deles, mas há sim dúvidas quanto a possuir uma fama maior. Espero que estejam fazendo esse caminho por Deus”, diz.

Recentemente, até a cantora Beyoncé – eleita pela revista Forbes a celebridade mais poderosa do mundo – participou de uma produção gospel. Ao lado das parceiras da extinta girl band Destiny Child, a norte-americana  entoa o coro “When Jesus say yes, nobody can say no” (Quando Jesus diz sim, ninguém pode dizer não). Confira o clipe da música “Say Yes”:

Acompanhado de seu irmão, Renata Guerra já tem um álbum lançado e está prestes a se arriscar em carreira solo. A cantora morou por oito anos no Estado de Massachusetts, nos Estados Unidos, e define seu estilo musical como “pop pentecoste”. Em entrevista ao Jornal Opção Online, ela explica a principal diferença entre o gospel nacional e o norte-americano. “Nos EUA, todas as faixas etárias gostam do gospel pop, voltado para os jovens. No entanto, aqui no Brasil, temos os mais tradicionais e os mais joviais também.”

Vale lembrar que, apesar de estar reunido em um grande grupo, o gospel abrange vários gêneros musicais. O DJ goiano “PV”, por exemplo, é referência nacional na música eletrônica gospel. Mundo afora, bandas e cantores encontram as mais variadas formas de expressar suas crenças. Heavy Metal, Axé, Sertanejo e até mesmo Funk. Confira produções gospel em ritmos jamais pensados:

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