Do diagnóstico do filho à criação de um evento para centenas de pessoas com autismo em Goiânia
14 agosto 2026 às 16h48

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*Colaboração de Tathyane Melo
“Quando eu descobri o diagnóstico dele, a gente entendeu o ser humano melhor.” A frase do empresário goiano Vinícius Kelldrin resume a transformação provocada pelo diagnóstico de autismo do filho, Valentim. A experiência vivida dentro de casa deu origem ao Laço Azul, evento criado para promover inclusão, lazer e acolhimento a pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e suas famílias. A segunda edição foi realizada nesta sexta-feira, no Rancho Laço Azul, em Goiânia.
Neste ano, 260 pessoas, entre crianças, jovens e adultos de cinco instituições, participarão gratuitamente de uma programação com brincadeiras, apresentações artísticas, oficinas, alimentação, recreação e atendimentos. O evento também contará com transporte para facilitar o acesso dos participantes ao local.
Para Vinícius, o diagnóstico do filho mudou a forma como passou a enxergar não apenas o autismo, mas as diferentes necessidades de cada pessoa. Segundo ele, a convivência com Valentim ensinou a família a prestar mais atenção aos momentos e às particularidades de cada indivíduo.
“Não apenas só do autismo, mas todo ser humano tem alguma dificuldade. Ninguém é perfeito. Então, a gente entender a pessoa melhor. Às vezes a pessoa está feliz, a outra está triste. A gente entendeu o momento de cada um”, afirma em entrevista ao Jornal Opção.
O empresário conta que alguns acontecimentos do desenvolvimento do filho ganharam um significado especial para a família. Um deles foi quando Valentim começou a chamá-lo de “papai”, próximo dos quatro anos.
“Para alguns era simples, um menino de um ano, um ano e meio falando ‘papai’. Para mim, aquilo foi muito forte. Ele me ensinou a dar valor às pequenas coisas, que a gente acaba dando grandes valores na vida”, relata.
Evento nasceu em 40 dias
A ideia de criar o Laço Azul surgiu depois do diagnóstico do filho e, segundo Vinícius, a primeira edição foi organizada em aproximadamente 40 dias. O projeto começou com uma ideia simples, mas acabou tomando uma proporção maior do que ele esperava.
“Eu e meu filho, à noite, tivemos a ideia de fazer um evento, uma prova de laço. E eu falei: através de você, nós vamos ajudar muitas crianças”, conta.
O crescimento da iniciativa também foi acompanhado pela chegada de pessoas que tinham alguma relação direta com o autismo. Vinícius cita como exemplo integrantes da equipe de montagem e alimentação do evento que têm filhos ou familiares autistas.
“Eu ainda estou anestesiado com o tamanho do evento que está saindo este ano, das pessoas que foram entrando no meu caminho. O menino da tenda, o Tônio, tem duas filhas autistas. O pessoal do churrasco tem uma filha autista. E isso foi acontecendo naturalmente”, diz.
A segunda edição terá brinquedoteca, pintura facial, manipulação de balões, apresentações circenses, oficina Mini Chef, corte de cabelo e avaliação e atendimento odontológico. A programação foi organizada para combinar momentos de diversão com serviços e atividades voltadas às famílias.
Projeto quer se tornar permanente
A intenção de Vinícius é fazer com que o Laço Azul continue sendo realizado nos próximos anos e, no futuro, se transforme em uma iniciativa permanente de apoio às famílias.
Uma das possibilidades pensadas pelo empresário é criar uma instituição própria para desenvolver ações durante todo o ano. Ele também imagina que o projeto possa, em longo prazo, contribuir para ampliar o acesso a serviços especializados para pessoas autistas.
“Quem sabe no futuro existe a instituição do Laço Azul? Essa é a ideia. Não sei se vai ser para o ano que vem, daqui a um ano ou dez anos, mas é um pensamento de longo prazo”, afirma.
O projeto também recebe doações, que são destinadas a ações pontuais de apoio a mães, famílias e instituições que trabalham com pessoas autistas.
“Quando a gente encontra uma criança autista, uma mãe que não tem condição ou uma pessoa próxima, é preciso conscientizar e ajudar. Acho que isso é o mais importante: a conscientização”, afirma.
Na primeira edição, Vinícius chegou a assumir a possibilidade de arcar pessoalmente com um eventual prejuízo para garantir a realização do evento. Segundo ele, a organização chegou a projetar um déficit de R$ 20 mil, mas as arrecadações superaram as expectativas e permitiram que a iniciativa se sustentasse.
“O ano passado estava dando R$ 20 mil de prejuízo no evento. Eu falei: ‘Eu vou pagar os R$ 20 mil’. No fim, acabamos arrecadando muito mais, o próprio evento se pagou e arrecadamos muito mais do que imaginávamos”, conta.
Conscientização sobre o autismo
Para Vinícius, o principal objetivo do Laço Azul é contribuir para que a sociedade conheça melhor o autismo e compreenda as necessidades das pessoas com TEA.
“O que o Laço Azul vai trazer é a conscientização das pessoas. Hoje o autismo está muito presente. A gente vê as estatísticas. É preciso conscientizar, entender o próximo, entender uma criança autista, um adulto autista e fazer com que as famílias interajam mais com isso”, afirma.
De acordo com o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 2,4 milhões de pessoas declararam ter recebido diagnóstico de autismo no Brasil, o equivalente a 1,2% da população. Entre crianças de 5 a 9 anos, a proporção chega a 2,6%.
O aumento da identificação de pessoas com TEA também ampliou o debate sobre diagnóstico, atendimento especializado, educação, inclusão e suporte às famílias. Para o empresário, a conscientização precisa ultrapassar o ambiente familiar e envolver toda a sociedade.
Próximos passos
Depois da segunda edição, Vinícius pretende ampliar o projeto. Para 2027, a ideia é promover ações menores ao longo do ano, alcançar mais famílias e aumentar a participação de empresas e parceiros.
“Eu quero que permaneça por muitos anos. Cada dia com mais conscientização, com mais famílias junto. Tenho certeza de que a gente vai transformar, de alguma forma, o mundo para melhor. É um pouquinho cada um fazendo a sua parte”, resume.
O Laço Azul é realizado pela empresa Kelldrin, com gestão cultural do Instituto Fluir, patrocínio da AVAGUI e fomento cultural do Programa Goyazes, do Governo de Goiás.


