O desaparecimento de uma adolescente de 13 anos em Anápolis, após manter contato durante cerca de dois meses com um homem de 19 anos pelo Discord, acendeu um alerta para pais e responsáveis: nem sempre os aplicativos utilizados por crianças e adolescentes são conhecidos pela família. No caso ocorrido em Goiás, segundo a delegada Aline Lopes, responsável pela investigação, os familiares sequer sabiam que a menina utilizava a plataforma.

O problema, porém, não se limita ao Discord. Jogos, redes sociais e aplicativos de mensagens oferecem diferentes formas de interação entre usuários, que podem incluir chats privados, conversas em grupo, mensagens, chamadas de voz e contato durante partidas online.

Isso não significa que essas plataformas sejam, por si só, perigosas ou impróprias para adolescentes. O alerta está relacionado à forma como são utilizadas, às configurações de privacidade e à possibilidade de pessoas mal-intencionadas se aproveitarem dos recursos de comunicação.

A preocupação ganha dimensão diante de dados recentes. Relatório do UNICEF Innocenti, produzido em parceria com a ECPAT International e a Interpol, aponta que 19% das crianças e adolescentes brasileiros de 12 a 17 anos foram vítimas, em um período de um ano, de exploração ou abuso sexual facilitados pela tecnologia. A estimativa corresponde a aproximadamente 3 milhões de meninas e meninos.

1. Discord

Originalmente popularizado principalmente entre jogadores, o Discord funciona por meio de servidores e comunidades nas quais os participantes podem conversar por texto, voz e vídeo. Também há possibilidade de interação direta entre usuários.

Foi justamente pela plataforma que, segundo a investigação da Polícia Civil de Goiás, a adolescente de 13 anos encontrada em Anápolis teria conhecido o homem de 19 anos. A delegada Aline Lopes afirmou ao Jornal Opção que os dois conversavam havia aproximadamente dois meses e chamou a atenção para o fato de os familiares não saberem que a adolescente possuía Discord.

O próprio Discord disponibiliza uma Central da Família, que permite que pais e responsáveis acompanhem aspectos da atividade do adolescente. A ferramenta oferece informações sobre a atividade e resumos semanais, além de permitir o gerenciamento de determinadas configurações de segurança e privacidade, sem revelar aos responsáveis o conteúdo das conversas privadas.

App Discord | Foto: reprodução

2. Roblox

O Roblox pode parecer apenas um jogo para quem observa de fora, mas funciona como uma grande plataforma que reúne inúmeras experiências criadas por usuários e possui recursos de comunicação entre jogadores.

A própria empresa informa que há recursos de conversa durante os jogos e comunicação direta. Atualmente, o acesso ao chat exige uma verificação de idade, e responsáveis podem gerenciar as configurações de comunicação de contas de menores. Para usuários com menos de 13 anos, os pais podem inclusive desativar o chat.

É justamente a existência dessa interação que torna importante saber com quem a criança joga, e não somente qual jogo está utilizando.

Cena do jogo Roblox | Foto: reprodução

3. Fortnite

Outro fenômeno entre crianças e adolescentes, Fortnite não se resume às partidas. Jogadores podem utilizar bate-papo de voz e texto para conversar durante a experiência.

A Epic Games possui controles específicos para usuários mais jovens. Nas chamadas Contas Limitadas, determinadas funcionalidades ficam bloqueadas até que haja autorização de um responsável, incluindo comunicação com outros jogadores por chat de voz ou texto livre.

Além disso, as configurações do Fortnite permitem diferentes níveis de comunicação, como somente com amigos, amigos e companheiros de equipe ou outros usuários. A empresa informa que o bate-papo fica desligado por padrão para contas que indicam idade inferior a 18 anos, embora as configurações possam variar conforme idade e controle parental.

Para os responsáveis, portanto, conhecer os amigos adicionados ao perfil e verificar as configurações de voz pode ser tão importante quanto acompanhar o conteúdo do próprio jogo.

Cena de Fortnite | Foto: divulgação/YT

4. Snapchat

O Snapchat é uma rede social voltada especialmente para compartilhamento de fotos, vídeos e mensagens e possui características que exigem atenção dos responsáveis, incluindo conversas privadas e recursos relacionados à localização.

A plataforma oferece a Central da Família, por meio da qual pais podem visualizar quem está na lista de amigos do adolescente, quais novos amigos foram adicionados e com quem ele conversou recentemente, sem ter acesso ao conteúdo das mensagens. Também é possível solicitar o compartilhamento da localização e denunciar contas consideradas preocupantes.

Segundo o Snapchat, as configurações de contato são limitadas por padrão a amigos e contatos telefônicos, enquanto o compartilhamento de localização fica inicialmente desativado.

Simbolo do Snapchat | Foto: divulgação

5. Instagram

Uma das redes sociais mais utilizadas por adolescentes também possui mensagens privadas e outras formas de interação.

A Meta criou as chamadas Contas de Adolescentes, que colocam automaticamente jovens em configurações mais restritivas. Entre elas estão contas privadas e limitações sobre quem pode enviar mensagens. Adolescentes com menos de 16 anos precisam de autorização dos responsáveis para tornar determinadas configurações menos protetivas.

A empresa também afirma que utiliza mecanismos para identificar possíveis usuários adolescentes que tenham informado idade diferente da real e colocá-los nas proteções correspondentes. A tecnologia passou a ser ampliada para usuários no Brasil em 2026.

Ainda assim, pais devem conversar com os filhos sobre solicitações de amizade, seguidores desconhecidos e abordagens que eventualmente tentem levar a conversa para outros aplicativos.

Foto do Instagram | Foto: divulgação

6. TikTok

Embora seja conhecido principalmente pelos vídeos curtos, o TikTok também possui recursos de comunicação entre usuários.

As mensagens diretas não estão disponíveis para usuários de 13 a 15 anos. Para adolescentes de 16 e 17 anos, entretanto, existem possibilidades de receber mensagens ou solicitações de determinados usuários, dependendo das configurações da conta.

O TikTok também possui a Sincronização Familiar, que possibilita aos responsáveis gerenciar determinadas configurações da conta do adolescente.

Outro ponto importante é a idade informada no cadastro. A plataforma estabelece idade mínima de 13 anos para utilização do serviço e restringe determinados recursos conforme a faixa etária.

Símbolo do Tik Tok | Foto: Pixabay

7. Telegram

Diferentemente dos jogos, o Telegram é um aplicativo de mensagens. Entretanto, a plataforma também abriga grupos públicos e canais, além de permitir que usuários sejam encontrados por seus nomes de usuário.

Segundo informações da própria plataforma, grupos podem reunir até 200 mil participantes e podem ser configurados como públicos. Nesse caso, outras pessoas podem visualizar o histórico das conversas e entrar no grupo para publicar mensagens.

Canais públicos também podem ser encontrados por meio da busca do aplicativo.

Por isso, responsáveis devem observar não apenas as conversas individuais, mas também os grupos e comunidades dos quais crianças e adolescentes eventualmente participem.

Telegram | Foto: Freepik

Quais sinais podem indicar que algo está errado?

Mais importante do que simplesmente proibir determinado aplicativo é observar mudanças de comportamento e estabelecer diálogo sobre a vida digital. Entre situações que merecem atenção estão conversas frequentes com pessoas que a família não conhece; tentativa constante de esconder a tela; contas ou aplicativos desconhecidos pelos responsáveis; recebimento de presentes ou dinheiro sem explicação; pedido de desconhecidos para manter conversas em segredo; migração repentina de uma conversa de uma plataforma pública para um aplicativo privado; e intenção de encontrar pessoalmente alguém conhecido apenas pela internet.

Um desses comportamentos isoladamente não significa que exista crime ou aliciamento. O contexto deve ser considerado e o diálogo deve ocorrer sem fazer com que o adolescente tenha medo de procurar ajuda.

O UNICEF recomenda que pais conversem abertamente com os filhos sobre com quem eles se comunicam na internet, de que maneira ocorre esse contato e quem consegue visualizar aquilo que publicam. A entidade também orienta que configurações de privacidade sejam ativadas e que crianças saibam preservar informações pessoais.

Brasil tem novas regras para proteção de menores

Desde março de 2026, está em vigor no país o chamado ECA Digital, que estabeleceu novas obrigações para serviços digitais acessados por crianças e adolescentes.

A legislação determina, entre outros pontos, configurações de privacidade mais protetivas por padrão e ferramentas de supervisão parental. Para contas de crianças e adolescentes de até 16 anos em redes sociais, a legislação prevê vinculação à conta de um responsável legal.

A lei também estabelece deveres relacionados à prevenção de exploração e abuso sexual, violência, cyberbullying, assédio e exposição de menores a conteúdos inadequados. Plataformas devem ainda remover e comunicar às autoridades conteúdos relacionados a aparente exploração, abuso sexual, sequestro ou aliciamento de crianças e adolescentes.

No caso de Anápolis, a delegada Aline Lopes resumiu o alerta aos responsáveis ao defender que eles conheçam não somente o celular entregue aos filhos, mas principalmente os aplicativos instalados no aparelho.

“Os pais têm que ter a senha do celular dos filhos, eles têm que ter a senha dos aplicativos deles”, afirmou a delegada ao Jornal Opção. Segundo ela, antes de autorizar um download, responsáveis devem pesquisar como determinada plataforma funciona e quais recursos ela oferece.

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