Dilma diz a jornais estrangeiros que impeachment não tem fundamentos legais

Em entrevista no Palácio do Planalto, presidente mostrou otimismo e afirmou mais uma vez que não vai renunciar

Entrevista da presidente Dilma Rousseff sobre nomeação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para a Casa Civil | Foto: Wilson Dias/Agência Brasil

Entrevista da presidente Dilma Rousseff sobre nomeação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para a Casa Civil | Foto: Wilson Dias/Agência Brasil

A presidente Dilma Rousseff procurou demonstrar confiança em entrevista a seis jornais estrangeiros, na última quinta-feira (24), em Brasília, diante da crise política que o país enfrenta. Dilma falou com jornalistas do The New York Times (Estados Unidos), El País (Espanha), The Guardian (Inglaterra), Pagina 12 (Argentina), Le Monde (França) e Die Zeit (Alemanha).

Jornais como britânico The Guardian e o americano New York Times destacam os comentários de Dilma sobre o processo de impeachment que tramita na Câmara dos Deputados, as críticas a seus opositores e o tom desafiador dela diante dos pedidos de renúncia. Aos jornalistas estrangeiros, ela disse que o pedido de afastamento em curso “não tem fundamentos legais”.

Esta, aliás, é a terceira vez nas duas últimas semanas que Dilma afirma que não renunciará. No dia 11, a dois dias das manifestações de grupos contrários ao governo realizadas em todo o país, em pronunciamento após reunião com reitores dos institutos federais de Educação, Ciência e Tecnologia no Palácio do Planalto, ela fez a afirmação que ninguém tem o direito de pedir a renúncia de um mandatário sem provar que ele feriu a Constituição.

E, nesta semana, na última terça-feira (22/3), em encontro com juristas, ela discursou defendendo o próprio mandato, assegurando que jamais renunciará e que qualquer tentativa de afastá-la configura golpe.

Eduardo Cunha

Segundo os jornais estrangeiros, Dilma criticou fortemente o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), responsável por aceitar o pedido de impeachment contra ela, e lembrou que ele está envolvido em várias denúncias de corrupção.

Questionada se aceitará a decisão do Congresso se for pela cassação do mandato, ela disse que “apelará com todos os métodos legais possíveis”.

A presidente também acusou a oposição de não aceitar o resultado eleitoral de 2014 e de apostar na estratégia do “quanto pior, melhor” para o país. O The Guardian cita a alegação de Dilma de que Cunha e os oposicionistas têm sabotado a agenda legislativa do governo e incitado o país.

“Nós nunca vimos tanta intolerância no Brasil. Nós não somos um povo intolerante”, disse a presidente sobre os protestos, afirmando que menos de 2% da população brasileira foram às ruas e que parte de seus oponentes usa “métodos fascistas” para atacá-la.

O espanhol El País destaca não só que a presidente disse ser o processo de impeachment “alto muito fraco”, mas também que ela acusa o presidente da Câmara dos Deputados de ter tentado barganhar o andamento do processo de afastamento com o apoio do governo contra o possível processo de cassação que ele pode enfrentar no Conselho de Ética, devido à constatação de que ele tem movimentações em contas na Suíça.

“Digo a vocês como esse processo surge: o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, para evitar que a Câmara o investigasse, quis negociar com o governo. Se nós não votássemos contra essa investigação, ele punha o processo em curso. Cunha foi denunciado pelo Ministério Público Federal porque encontraram cinco contas na Suíça. Não sou eu quem digo, quem diz é o Ministério Público Federal”.

“Não vou renunciar”

Tanto o The Guardian como o El País destacam o que Dilma Rousseff respondeu sobre os pedidos de renúncia que manifestantes contrários ao governo e a oposição, na Câmara, têm feito. “A oposição me pede que eu renuncie. Por que? Porque sou uma mulher frágil? Não, não sou uma mulher frágil. Minha vida não foi isso. Pedem que eu renuncie para evitar a pecha de ter colocado em curso, de forma ilegal, indevida e criminosa, o processo de afastamento a uma presidente eleita. Pensam que devo estar muito afetada, que devo estar completamente desestruturada, muito pressionada. Mas não estou assim, não sou assim. Tive uma vida muito complicada para não ser capaz agora de lutar pela democracia do meu país. Aos 19 anos fui à prisão, na ditadura, e não era uma prisão fácil. Era muito dura. Eu lutei em condições muito difíceis. Ou seja, não vou renunciar, claro que não”.

O americano New York Times explica que, além do impeachment na Câmara dos Deputados, a presidente e o vice-presidente, Michel Temer, sofrem processo no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que pode determinar a cassação dos mandatos de ambos caso se confirme receberam dinheiro ilegal do esquema de corrupção da Petrobras em suas campanhas de 2010 e 2014. Isso pode, lembra o jornal, abrir caminho para novas eleições no Brasil.

A relação de Dilma com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a nomeação dele para ministro-chefe da Casa Civil também foram assunto da entrevista, que durou cerca de uma hora e meia, segundo os jornais. O New York Times lembra que Lula e o estrategista de campanha de Dilma, João Santana, estão envolvidos nos escândalos que assolam o país, mas ressalta que a presidente defendeu o ex-presidente, a quem chamou de “parceiro”.

Segundo o jornal americano, a nomeação de Lula foi justificada pelo talento político dele e sua grande capacidade de articulação em um momento em que o governo está sob forte tensão. Ela negou que tenha havido uma tentativa de proteger o ex-presidente com a nomeação e argumentou que ele continuaria respondendo à Justiça se fosse ministro, porém, ao Supremo Tribunal Federal.

A presidente ainda disse, segundo o New York Times, que não é agradável o momento que está passando, mas que apesar disso não é uma “pessoa depressiva”. “Eu durmo bem a noite toda”, afirmou Dilma aos jornais estrangeiros.

Após a entrevista no Palácio do Planalto, a presidente passou pelo Alvorada e depois embarcou para Porto Alegre, onde passará o feriado de Páscoa.

 

 

Uma resposta para “Dilma diz a jornais estrangeiros que impeachment não tem fundamentos legais”

  1. Marco Tulio disse:

    Convenci me que a ignorância é uma força insuperável.
    A dureza dos tempos atuais -frente ao ambiente político artificial, e em contraponto ao universo cultural e educacional do Brasil, me faz exclamar;
    Que futuro nos espera!
    Em debates intelectuais é comum que os interlocutores conheçam minimamente o assunto abordado, deste modo é razoável que durante as discussões, informações que nos fogem ao domínio, por desconhecimento dos fatos ou influenciadas pelo patrulhamento ideológico reinante, sejam esclarecidas por meio de leituras unilateral entre os interlocutores, de forma a
    compreender os fatos, e dar um final nobre ao debate.
    Porém, a lógica que observo hoje, é bem outra.
    Nas discussões sobre o quadro político brasileiro atual, não existe espaço onde possamos manter um diálogo na busca de encontrarmos uma compreensão do assunto, a ponto de, ao sugerir fontes confiáveis para esclarecimento do tema, o gesto seja visto como sinal de pedantismo e arrogância, coisa de quem quer colocar banca, ou seja, para discutir basta querer discutir, dominar o tema, ao final das contas, seria apenas uma futilidade irrelevante.
    Há casos, onde o sujeito justifica seu desconhecimento do assunto, apoiando se em títulos(graduação, pós – lato ou stricto sensu), posição funcional, representação de classe e etc, que erroneamente permite o concluir, que seu título confere lhe autoridade sobre determinado tema, distinguindo o dos demais mortais, ou seja, falou e está falado, seja o que for.
    No momento atual de incertezas, que vive a República Brasileira, desprezar obras magníficas sobre determinados assuntos, tornou se sinônimo de HUMILDADE para o estabelechiment, o fato de um indivíduo afirmar asneiras, já é algo que merece credibilidade, simplesmente por que ele disse, sua fala deve ser digna de todo nosso respeito, mesmo que ele não saiba o que, e do que esteja falando, quando que o indivíduo que habilita se ao discurso, deveria estudar e conhecer os temas abordados, para melhor discernir, mas isso o faria deixar de ser humilde, prefere ser um oráculo auto – programado.
    Tounou se constante os discursos desses oráculos, e o engraçado se não trágico, é que se questionados por alguém que não faça parte do ESTABELECHIMENT, estes rebatem dizendo que seus questionadores são coxinhas, golpistas e todos outros adjetivos, induzindo acreditar, que não sabem do que estão falando.
    Utilizam se levianamente de dois pesos e duas medidas, se lhes convém exigem conhecimento da fonte, e quando não convém, afirmam que a exigência é uma erudição vazia, advindo de um pedantismo congênito.
    A falta de compromisso com a verdade é a pior marca dos governantes atuais, insuflam e influenciam determinados grupos e segmentos, que desprezam a realidade, criam contendas que lhes trarão louros desprovidos de ética, construído sob a fogueira das vaidades, incapaz de forjar um caráter.
    Seria possível reverter essa realidade, acredito que isso dependeria da boa vontade desses governantes, sendo que nesse tipo de gente, a boa vontade é tão ausente quanto a honestidade intelectual, daí concluí que a ignorância é uma força insuperável.

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