Dexametasona reduz risco de morte em pacientes entubados, mas pode piorar quadro em casos inicias, alerta especialista

“É importante frisar que o estudo foi realizado em pacientes hospitalizados e não devem ser utilizados como profilaxia nem tratamento ambulatorial”, afirma

O diretor secretário do Conselho Regional de Farmácia do Estado de Goiás (CRF-GO), Daniel Jesus, falou ao Jornal Opção sobre os resultados preliminares do estudo clínico randomizado denominado Recovery, feito pela Universidade de Oxford, sobre o uso da dexametasona em pacientes hospitalizados com Covid-19.

O mestre em farmacologia e professor aponta que os resultados são promissores e já eram esperados, uma vez que não apenas a dexametasona, um anti-inflamatório utilizado por pacientes de asma e rinite, mas outros corticoides já vêm sendo utilizados de forma ampla no tratamento da Covid-19 em vários lugares do mundo, inclusive no Brasil.

Segundo o estudo, a medicação pode parar o colapso da imunidade dos pacientes graves ao reduzir o tamanho da resposta dos anticorpos ao novo vírus, uma das causas de morte identificadas. No entanto, em casos iniciais, o anti-inflamatório super potente pode ampliar a replicação viral, piorando não só a condição do paciente, como contribuindo para ampliar a pandemia.

No Recovery, avaliou-se a eficácia da dexametasona em relação à mortalidade. No estudo, 2.104 pacientes receberam dexametasona em doses baixas (6 mg uma vez ao dia via oral ou intravenosa) em comparação com 4.321 pacientes que receberam cuidados usuais (controle).

“Observou-se que o tratamento com esse medicamento reduziu em até um terço o risco de morte dos pacientes entubados usando respiradores mecânicos; e em um quinto para pessoas que estavam recebendo oxigênio suplementar por causa do coronavírus. Não houve diferença nos pacientes que não necessitavam de oxigênio”, explica Daniel.

De acordo com o representante do CRF-GO, esses achados sugerem o benefício do uso de dexametasona em doses baixas em pacientes que necessitem de ventilação mecânica bem como aquelas que necessitam de oxigênio sem ventilação mecânica. Ele ressalta que, dada a importância desses resultados para a saúde pública, os autores agora estão trabalhando para publicar todos os detalhes o mais rápido possível.

“Vale ressaltar que a dexametasona é um medicamento de baixo custo e foi a primeiro medicamento a mostrar impacto em reduzir a mortalidade, o que considero o mais importante. Mas é importante frisar que o estudo foi realizado em pacientes hospitalizados e não devem ser utilizados como profilaxia nem tratamento ambulatorial”, assegura.

Ele esclarece que na primeira fase mais infecciosa existe uma grande quantidade de vírus e o corpo tenta combater esse vírus. Depois, existe uma fase de super atividade imunológica e menos vírus. Aí que entra a dexametasona para diminuir essa resposta exagerada. “Faltam estudos sobre o uso prévio, mas por se tratar de uma droga com muitos efeitos colaterais, pode ser perigoso para pacientes com riscos”, esclarece.

Daniel Jesus pontua ainda que o uso da dexametasona não é novidade para quem acompanha de perto o tratamento da Covid-19, pois o medicamento e outros corticoides já azem parte do protocolo da maioria dos hospitais brasileiros. “A grande novidade é um trabalho comprovando que esse medicamento diminui a mortalidade, o uso já é recorrente”, afirma.

Já a diminuição no tempo de necessidade de entubação não foi avaliado neste estudo, mas foi verificado e avaliado em outro estudo. “Um trabalho que é tão bom quanto o atual traz essa prospecção. No estudo de Oxford o parâmetro adotado é a diminuição da mortalidade”, assinala ao alertar de que o uso do medicamento disponível em farmácia, fora do ambiente hospitalar, na fase inicial não seria indicado.

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