Despachante diz que foi “ameaçada” a cobrar propina

Em depoimento, Carla Naciff disse que José Lourenço foi armado ao seu escritório. Comissão da Câmara de Goiânia investiga emissão irregular de alvarás de construção

Despachante Carla Naciff confere vídeo em que foi flagrada | Foto: Thais Barbosa/Divulgação

Despachante Carla Naciff confere vídeo em que foi flagrada | Foto: Thais Barbosa/Divulgação

A despachante Carla Jaqueline do Nascimento Naciff disse que intermediou o pagamento de R$ 6 mil em propina a um fiscal de obra e edificações da Prefeitura de Goiânia por estar sob ameaça de morte, em depoimento à CEI das Pastinhas, na Câmara de Vereadores de Goiânia, nesta sexta-feira (9).

Ela acusa o comerciante de gás José Lourenço de Souza de ter ido à sede de sua empresa, a Meta Assessoria e Projetos LTDA, em Aparecida de Goiânia, com uma arma de fogo. Porém, negou estar no local. De acordo com o relato, quem teria visto o homem armado foi a arquiteta e urbanista Ariane Kelly de Carvalho Rego, sua funcionária.

“Chegou armado na primeira vez, mas não mostrou o revólver. Eu não estava lá. Mas o Lourenço fazia questão de que a Ariany percebesse. Isso intimidava, pois nosso escritório tem apenas mulheres. Ele viu ali uma situação potencial para nos ameaçar”, relatou. Na época, foi feito boletim de ocorrência.

O comerciante tentava regularizar processo aberto para liberação de reforma de sua residência na extinta Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano e Sustentável de Goiânia (Semdus). Devido à burocracia e à suposta intermediação da propina, Lourenço resolveu gravar o vídeo. “Quando falamos que iríamos arrumar o processo, ele se acalmou. Na filmagem ele está um anjinho”, afirmou a interrogada.

A suposta cobrança de propina foi investigada pelo Ministério Público de Goiás (MPGO) e não foi encontrada irregularidade, de acordo com a depoente. No entanto, o Jornal Opção apurou que não há nenhum processo sobre o caso. O Cartório do Patrimônio Público da capital, órgão ligado ao MPGO e responsável por apurar crimes improbidade na capital também não confirmou nenhuma ação. “Embora a gente tenha sido pega em situação constrangedora tenho que mostrar meu lado da verdade. Estávamos sob muita pressão, não tinha nada a ver com a situação. A Ariany estava sendo ameaçada”, ressaltou Naciff.

Em entrevista à imprensa, Naciff disse que cobrou a propina para “ganhar tempo” e resolver o processo legalmente. “Na verdade nem seria eu e sim a Ariany, que ficou de pés e mãos atadas”, detalhou.

A despachante ainda negou que tenha feito ligações para o comerciante. “Ele ligava muito para gente. Quando chegava ao escritório eu retornava. Se for julgada só pelo que está gravado… não tenho muita defesa. Realmente são muito fortes”, lamentou.

Presidente da CEI, o vereador Elias Vaz (PSB) diz que é difícil de acreditar na situação. “É meio sem pé e nem cabeça.”

“Não adianta, no Brasil é assim”

A arquiteta Ariane Kelly de Carvalho Rego aparece no vídeo intermediando a propina entre José Lourenço e um fiscal da Prefeitura de Goiânia, em 2013. Nas imagens, a arquiteta explica que haverá um custo para regularizar as obras de reforma de sua casa, no Setor Conjunto Guadalajara, em Goiânia, por ter excedido a porcentagem do limite de uso de solo.

“O fiscal vai lá na obra e vai ter um custo. Tudo tem custo. Porque vai ser resolvido por meio de propina, de corrupção. Tem muita construção ilegal em Goiânia, e o senhor sabe que todas estão regulares porque pagaram. Não adianta, no Brasil é assim. Quem vai falar o custo são os fiscais”, diz ela, referindo-se aos servidores da extinta Semdus. Caso contrário, teria de derrubar tudo o que já foi levantado. “E não compensa”, completa a arquiteta, durante a negociação.

 

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