DesConstrução ou Como pedir dinheiro citando Chico Buarque
17 março 2026 às 11h35

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Sou professor-pesquisador doutor efetivo, em concurso público realizado nos primeiros dias de maio de 2011, aprovado em 1º lugar para a vaga de sociologia na Universidade Federal do Tocantins (UFT), antes dos 30 anos – podia ser uma “carteirada”, mas é apenas para situar o contexto do meu lamento.
A situação é a seguinte: o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, em 2025, por 6 a 5 que quem se aposenta por incapacidade laboral, a chamada invalidez, terá vencimentos de 60% do que recebia. Portanto, isso não é só sobre mim.
Recentemente, o médico da perícia – uma recorrência/dificuldade sem lastro para uma doença incurável (ataxia espinocerebelar, tipo 03, conhecida como doença de Machado-Joseph); tecnologia de reconhecimento facial pra quê!? – se dirigiu ao meu pai e disse: “Eu sei como é pai, então o senhor fique tranquilo; estamos pedindo a aposentadoria compulsória do seu filho, pois a lei diz que depois de dois anos seguidos já é tempo, e ele vai receber o salário integral.” Ledo engano. A reforma da previdência de 2019, efetivada pelo Jair Messias “Papudinha”, preparada pelo banqueiro ex-banco central do Lula 1 e 2, e ministro da ponte que era uma pinguela temerosa, só não comete “justiça” a quem precisa. Não deu nem tempo de se planejar.
Estou há semanas deixando o tema decantar nas minhas ideias para não cair na armadilha de estar tratando de ‘white people problems’ (problemas de gente branca), mas é de uma injustiça tão absurda que não faz nenhum sentido. O Estado me deixou na chapada quando eu mais preciso – terapias diversas (fisioterapia motora, fisioterapia neurofuncional, hidroterapia, pilates, fisioterapia respiratória, fonoaudiologia…) e tratamentos (aplicações de cetamina, acupuntura….) e medicamentos (caros…) – para adiar o fim, quando eu não posso trabalhar naquilo para a qual me dediquei anos para fazer bem – ser professor-pesquisador; ironicamente eu que defendo o Estado, embora se estivesse na iniciativa privada seria pior.
Só me vem à mente a música “Construção” do Chico Buarque, do disco de 1971, de mesmo nome: “Morreu na contramão atrapalhando o tráfego”. E mais: “Morreu na contramão atrapalhando o público”. A última morte: “Morreu na contramão atrapalhando o sábado”. Inclusive, nessa época a escala não era 6×1, e o sábado era pra diversão, tanto que a personagem atrapalha isso.
Quando falei disso na psicoterapia, a partir de um sonho, e de que não me agradava o papel de vítima, ele disse: “Mas você viu o tanto de coisa que a personagem fez antes de morrer? E você depois de descoberto a doença fez tanta coisa, namorou, etc e tal…”. É verdade. O que fica da reflexão é que estou dando trabalho, pois espera-se que o doente morra logo.
Esse disco é maravilhoso. Escutei muito. Em 2017, com a carreira em franco voo, fui convidado para a banca de mestrado do Renato Araújo, pelo meu mestre e orientador Francisco Chagas Râbelo – presidente da banca, com o querido professor Manuel Filho, sobre justamente esse disco, e depois ministrei a aula inaugural na última turma de Pensamento social no Brasil do professor Manuel na pós-graduação em sociologia, o tema foi: “O pensamento social e Machado de Assis”, baseado no livro “Esaú e Jacó”. Tudo isso na Universidade Federal de Goiás (UFG). O mais interessante disso é que o Renato tem síndrome de Asperger, a defesa foi pauta de um texto nesse jornal por Elder Dias; não me avisaram e eu não sabia, portanto preparei uma bruta arguição – coisa de neófito e visitante. E foi bem legal.
A gravidade da injustiça remuneratória é que, além do decréscimo de 40%, é no momento da vida – Alou, ainda estou vivo! – que o sujeito mais precisa, não tendo condições de ganhar algum dinheiro trabalhando e 1) nem roubando, 2) sendo herdeiro ou 3) explorando os outros, que são as três maneiras mais factíveis e menos ilusórias de ficar rico.
“Seus olhos embotados de cimento e lágrima”, da mesma música do Chico, foi o mapa de uma reforma que empreendi – cheio de empréstimos – para adaptar a casa para mim, a minha irmã – com o mesmo diagnóstico e meu pai, idoso, mas com pique de jovem, ainda bem, porém véio.
É certamente condição de sensibilidade, solidariedade e aprendizado cuidar dos seus doentes, não os esconder, tampouco ignorá-los ou ser parte de um processo empático que a sociedade mostra suas escolhas. É bom ter alguma boa relação com doente, porque uma hora vai ser você ou alguém muito próximo; não é o que desejo, mas é o que é, mesmo que seja uma perna quebrada. Aquele mote do Chico Mendes que: ecologia sem luta de classe é jardinagem é um guia para a gente, pois: sensibilidade sem solidariedade é cinismo. Sensibilidade é bom, mas sozinha não resolve.
Enfim, preciso levantar uma grana. Já tinha, antes desses prolegômenos, a ideia de desapegar de alguns livros/discos que não usaria, não leria/escutaria ou não tenho mais uma relação afetiva. Agora vou desapegar, mas não mais por meio de doação, vou vender alguns. Farei uma lista deles. E você poderá demonstrar seu interesse. Assim…
Eu podia estar roubando, matando ou simplesmente mentindo, mas estou só pedindo! Depois que soube de um pai que desviou a arrecadação de uma vaquinha online para jogos de internet (BETS) que seria para as próteses de um filho, quase desisti, mas vai que você quer ajudar. Aí só estou pedindo. Se for dinheiro você pode me enviar um PIX,até com um recado, na quantia que desejar e que puder para meu e-mail, que é a chave: [email protected] Se quiser só mandar um e-mail comentando/criticando alguma crônica ou simplesmente dizendo do seu interesse pela lista de livros/discos à venda, fique à vontade. Darei notícias. Os amigos próximos estão entre arrefecer a exposição, que é muita, e outros, em fazer uma campanha de arrecadação. O caminho do “justo meio” é o melhor, segundo Aristóteles.
“Deus lhe pague”; a primeira música desse disco do Chico.
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