A advogada e influenciadora digital Deolane Bezerra foi transferida nesta sexta-feira, 22, para a Penitenciária Feminina de Tupi Paulista, no interior de São Paulo. A unidade tem capacidade para 714 detentas, mas atualmente abriga 873 presas.

A transferência foi confirmada pelo secretário da Segurança Pública, Nico Gonçalves. Deolane deixou a Penitenciária Feminina de Santana, na Zona Norte da capital, por volta das 5h. Ela havia passado a noite na unidade após ser presa em sua casa, em Alphaville, Barueri, durante operação do Ministério Público e da Polícia Civil que investiga um esquema de lavagem de dinheiro ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC).

Segundo a investigação, Deolane teria participação na estrutura financeira da facção criminosa. O inquérito aponta que contas ligadas à influenciadora eram utilizadas para movimentar recursos do PCC e dificultar o rastreamento do dinheiro. Ao deixar a sede da Polícia Civil, no Centro de São Paulo, ela afirmou que “a Justiça vai ser feita”.

A audiência de custódia ocorreu na quinta-feira, 21, e a Justiça manteve a prisão preventiva da advogada. Em nota, a defesa declarou que Deolane é inocente e que os fatos serão esclarecidos ao longo do processo.

Antes da transferência, Deolane ficou detida na Penitenciária Feminina de Santana, unidade localizada na região do Carandiru, a menos de 500 metros do antigo complexo penitenciário onde ocorreu o massacre de 111 presos em 1992.

A penitenciária tem capacidade para 2.686 mulheres, mas atualmente abriga 2.825 detentas, segundo dados da Secretaria da Administração Penitenciária (SAP). Inaugurada em 2005, é considerada a maior penitenciária feminina do estado em número de vagas.

A investigação aponta a existência de um esquema bilionário de lavagem de dinheiro. Segundo a polícia, Deolane utilizaria sua estrutura financeira e projeção pública para dar aparência legal a recursos ilícitos. Os investigadores afirmam que o dinheiro era misturado a recursos de outras atividades antes de retornar ao PCC.

De acordo com o inquérito, parte do lucro era incorporada à economia formal por meio da compra de bens de alto valor registrados em nome de empresas ligadas à influenciadora. Entre os itens citados estão uma Ferrari SF90 Stradale avaliada em R$ 4,7 milhões e um Porsche 911 Carrera.

As investigações tiveram origem em bilhetes e manuscritos apreendidos em 2019 em um presídio de Presidente Venceslau. Nos documentos, investigadores encontraram referências a uma “mulher da transportadora”, apontada como responsável por levantar informações de agentes públicos para auxiliar ataques planejados pela facção.

Em 2021, a Operação Lado a Lado apreendeu o celular de Ciro Cesar Lemos, apontado pela polícia como operador central do esquema. Segundo os investigadores, o aparelho revelou detalhes sobre a lavagem de dinheiro realizada por meio de uma transportadora e conexões financeiras com Deolane Bezerra.

A polícia afirma que imagens encontradas no celular mostram depósitos destinados a contas da influenciadora e de Everton de Souza, apontado como intermediador das operações financeiras.

“O vínculo dela com a transportadora foi o pontapé inicial da investigação, mas o afastamento dos sigilos bancário e fiscal revelou relação com outras vertentes do crime organizado”, afirmou o delegado Edmar Caparroz em entrevista coletiva.

Segundo a investigação, entre 2018 e 2021 Deolane recebeu mais de R$ 1 milhão em depósitos fracionados abaixo de R$ 10 mil — prática conhecida como “smurfing”, utilizada para dificultar o monitoramento financeiro.

Os investigadores também identificaram quase 50 depósitos, somando R$ 716 mil, feitos a empresas ligadas à influenciadora por uma empresa de crédito sediada na Bahia. A polícia afirma que não encontrou comprovação de serviços ou operações que justificassem os repasses.

A análise das movimentações financeiras, segundo o inquérito, aponta indícios de ocultação e dissimulação de recursos ligados ao PCC.

Deolane Bezerra estava nas últimas semanas em Roma, na Itália. O nome dela chegou a ser incluído na lista de Difusão Vermelha da Interpol, mas ela retornou ao Brasil na quarta-feira (20).