De médico a paciente: infectologista conta sua experiência ao ser infectado pelo novo coronavírus

Referência em Goiás, Boaventura Braz de Queiroz critica uso da hidroxicloroquina e de kits com medicamentos sem embasamento científico para o tratamento da Covid-19

Boaventura Braz de Queiroz | Foto: Fernando Leite/ Jornal Opção

O médico Boaventura Braz de Queiroz, referência em infectologia em Goiás, participou de uma live para compartilhar sua experiência ao ser infectado pelo novo coronavírus (Sars-Cov-2). Na transmissão, o médico lamentou o fato de a doença ter saído do campo da saúde para tornar-se alvo de um debate político. “A politização da pandemia é muito prejudicial, a meu ver, para o enfrentamento que deveria reunir a área da saúde em torno de um mesmo objetivo”, disse.

Boaventura tem uma trajetória de cuidados com seus pacientes há mais de três décadas. E, desde o registro dos primeiros casos de Covid-19 no Estado, está na linha de frente, prestando assistência a quem precisa. Mas, no final de junho, o médico viu-se na condição de paciente e passou sete dias em isolamento domiciliar e outros sete hospitalizados. “Em um sábado eu estava muito bem e no domingo comecei a sentir uma indisposição e dor no corpo intensa”, descreveu o médico que também apresentou febre.

Na segunda-feira, Boaventura fez o teste PCR, considerado padrão ouro para diagnóstico de Covid-19. O médico passou os sete dias seguintes em isolamento domiciliar. “Fiquei fechado em um quarto, saindo somente para ir ao banheiro”, relatou ao detalhar que durante esse tempo usou um oxímetro para monitorar o nível de saturação de hemoglobina por oxigênio. Neste processo, o médico tentou tomar o maior volume de líquido possível, como agua e isotônicos, para garantir sustentação, pois sentia falta de apetite.  

“No oitavo dia senti que precisava ser internado, peguei meu carro e fui para o hospital”, contou o infectologista ao revelar que sentiu muita angústia e insegurança. “Desde o primeiro momento tomei conhecimento do protocolo americano e que foi adequado à nossa região pela UFG, muito bem embasado”, afirmou Boaventura ao comentar o protocolo adotado em seu tratamento.

Essa situação que estamos vivendo hoje de distribuição de kits é uma tristeza

O médico alerta que ainda não existe uma droga eficiente contra Covid-19. “Não temos um antiviral capaz de eliminar o vírus caso ele seja tomado no início da doença. Essa situação que estamos vivendo hoje de distribuição de kits é uma tristeza. Estão usando uma verba que já é curta no país para a saúde em tratamentos sem nenhuma base científica até o momento. Algumas inclusive, como a hidroxicloroquina, apresentam evidências de que não tem qualquer benefício ao paciente. São estudos americanos, chineses e brasileiros”, explica Boaventura.

Boaventura fez uso de plasma convalescente em seu tratamento. “É uma opção terapêutica, isso não fazia parte do protocolo mas eu fiz a opção pelo uso junto com a minha médica. Infelizmente é um procedimento caro, que o convênio não paga. Ou não estava pagando até o momento em que precisei então foi uma decisão pessoal”, contou. Ao responder um questionamento sobre o uso da cloroquina por médicos, Boaventura lembrou do fator desespero. “Vai entrar na lata de lixo da história”, resumiu.

“Pessoalmente, por saber o pouco que podemos fazer contra esse vírus a angústia e insegurança são muito grandes”, comentou o médico ao revelar que muitas vezes repensou sua vida. Questionado sobre ao uso da azitromicina, o médico destacou que seu uso não é para todos. Já em relação ao corticoide, o médico disse que é parte do protocolo mas que existe o momento certo para seu uso, que deve ser orientado pelo médico que acompanha cada caso. Confira a live na íntegra aqui.

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