“Dar um remédio para as pessoas e achar que elas podem sair de casa, é banalizar a doença”, diz infectologista sobre ‘kit Covid-19’

Para médico infectologista Marcelo Daher, uso indistinto de remédios que prometem prevenção contra coronavírus pode levar pacientes a efeitos adversos graves

 

Informe divulgado na última semana pela Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) esclarece sobre o uso de medicamentos contra a Covid-19. Cloroquina, Hidroxicloroquina, corticoides, antirretrovirais, antiparasitários, dentre outros tratamentos medicamentosos são citados pelo informe, embora estejam sendo experimentados em ensaios clínicos e não possuem qualquer comprovação científica avançada.

Conforme escreveu o informe, “a avaliação do uso de qualquer
medicamento fora de sua indicação aprovada (off-label) deve ser uma decisão individual do médico, analisando caso a caso e compartilhando os possíveis benefícios e riscos com o paciente”. A SBI ainda destacou que fica vedada a publicidade sobre tal conduta.

Em entrevista ao Jornal Opção, o médico infectologista Marcelo Daher explicou a razão pelo qual esses medicamentos são utilizados em alguns tratamentos, mesmo sem pesquisas avançadas que comprovam a eficiência no combate à doença.

“Estamos de frente com uma doença nova. Uma doença que é letal e que mudou nossa forma de vida. O que se busca são formas de sair dessa pandemia de maneira mais rápida e mais segura”, aponta o médico. “Temos a opção de isolamento social, que é muito ruim, e a outra alternativa seria conseguirmos medicamentos que fossem altamente eficazes. O melhor meio da achar esses medicamentos é utilizar aqueles que já estão prontos”, disse.

Médico infectologista, Marcelo Daher | Foto: reprodução

Segundo o infectologista, alguns medicamentos já apresentaram resultados no tratamento de outras doenças parecidas e a utilização desses remédios é uma busca pela solução. “O problema disso tudo é que o uso é em compaixão, ou seja, no paciente que está morrendo. Tentar usar qualquer coisa que está em nossa frente na tentativa de tratar ou curar o paciente é válido. Muitos medicamentos desses foram usados sob compaixão, como a própria hidroxicloroquina, soro de convalescente…”, explica.

Segundo o médico, ao dizer que a classe médica está contra usar a medicação porque não quer o bem da população é achar que o médico é o vilão da pandemia. “Achar que vai dar um remédio para as pessoas e, com isso, elas podem sair de casa é banalizar a doença que é grave”, analisa o médico.

Marcelo Daher salienta que o relatório da SBI busca esclarecer um debate que foi politizado. “Em vez de uma discussão técnica, virou uma discussão política em relação ao medicamento. Se pegarmos o protocolo da Itália, já colocava a hidroxicloroquina em algumas situações, ivermectiva em outras. Tentamos utilizar no Brasil também, mas sem a politização das coisas. Minha crítica maior é colocar uma avaliação leiga em uma consulta médica”, observou Daher.

O médico infectologista aponta também que o relatório da SBI é uma forma de expor o que se sabe tecnicamente sobre o uso de medicamentos que ganharam destaque na mídia e redes sociais. Ele lembra que muitos desses medicamentos podem ser utilizados em algum momento do tratamento ou, principalmente em trabalhos científicos.

“Quando se vive um momento crítico da doença, esses medicamentos todos são utilizados em protocolos de pesquisa. O paciente entra assinando o termo, sabendo que tem risco e sabendo que está em uma pesquisa médica. No final, essa pesquisa vai dizer se foi eficaz ou não. Agora usar indistintamente como temos visto por aí, aonde dá o medicamento ao paciente e não se preocupa com o efeito colateral, isso é um problema sério e pode trazer efeitos adversos muito graves”, ponderou Daher.

O médico expõe que por vezes o paciente faz o uso do medicamento sem saber o que tem exatamente nele. De acordo com ele, a crítica médica dos infectologistas, dos profissionais de pneumologia e da sociedade científica não é contra a utilização simplesmente, mas pela falta de dados concretos dos resultados que os medicamentos podem implicar.

“Os protocolos iniciais eram hidroxicloroquina com azitromicina. Existia a ivermectina em outra pesquisa, outros remédios em outras. O que eles fizeram agora? Juntou tudo. Colocaram em um pacote e deram para o paciente tomar. Ontem atendi uma paciente com Covid que usou isso tudo. Ela estava com diarreia incontrolável, que não é da Covid, é por conta das medicações. Usando indistintamente vamos ter muitos efeitos colaterais. Pode ser efeito colateral grave e mascarar a doença”, relata Daher.

“A discussão dos medicamentos não é de hoje. Por que elas vieram à tona de maneira mais importante aqui em Goiás? Porque a epidemia chegou aqui. A curva subiu e quer se solucionar às custas do remédio. Hoje, ter só a impressão pessoal ou do médico ‘ah eu usei e tive a impressão que funcionou’, eu posso acertar, mas eu posso errar muito. O trabalho científico vai me dizer claramente que houve resposta e o quanto houve resposta”, apontou.

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