Curso de Letras ganha força e atrai nova geração de estudantes; pesquisador aponta motivos
28 janeiro 2026 às 17h50

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O curso de Letras, tradicionalmente associado à formação de professores e à atuação acadêmica, tem ganhado novos contornos e despertado maior interesse entre os candidatos ao ensino superior. Dados parciais do Sisu apontam para uma procura crescente, ainda que a concorrência não signifique necessariamente prestígio.

Uma publicação em suas redes sociais feita pelo professor e pesquisador, pós-doutor em Estudos de Linguagens e doutor em Letras e Linguística, Renato Dering, chamou atenção ao destacar o aumento da nota de corte para Letras/Linguística da Universidade Federal de Goiás (UFG).
No texto, ele lembrava que a nota mede concorrência, e não prestígio, mas sugeria que esse crescimento pode estar ligado a fatores específicos: o diálogo direto com a Inteligência Artificial, o fortalecimento dos estudos sobre dificuldades de aprendizagem, a aplicação das técnicas da linguagem em áreas como tecnologia e marketing, e a possibilidade de atuação como nômade digital. “Talvez tenham começado a perceber que estudar Letras não é apenas dar aula”, escreveu.

Em entrevista ao Jornal Opção, Dering explicou, nesta quarta-feira, 28, que utilizou dados das primeiras parciais do Sisu, que ainda não representam o resultado final. “Recebi até comentários de alunos questionando a fonte, mas depois atualizei. O que se vê é que há uma demanda que aparenta ser alta, mas isso não significa prestígio. É preciso entender que a concorrência depende também da quantidade de vagas ofertadas. Se um curso tem 10 vagas e 30 candidatos, ele será mais concorrido do que outro com 80 vagas e 80 candidatos, ainda que a demanda proporcional seja semelhante”, observa.
Um dos pontos centrais levantados por Dering é a crescente demanda por profissionais na área da educação especial e inclusiva. O domínio da linguagem e da linguística torna o egresso de Letras apto a lidar com dificuldades de aprendizagem como dislexia, autismo e deslalia, ampliando sua atuação para áreas como a psicopedagogia e consultórios especializados. “Há muitos profissionais de Letras migrando para campos ligados às dificuldades de aprendizagem, justamente por compreenderem os processos de aquisição e desenvolvimento da linguagem. Isso abre espaço para quem deseja atuar além da sala de aula tradicional”, afirma.
Outro fator que impulsiona a procura é a expansão do ensino à distância (EAD). A possibilidade de dar aulas de língua portuguesa ou estrangeira de qualquer lugar do mundo fortalece a atuação remota. Funções como mediador pedagógico, tutor e produtor de conteúdo se tornaram alternativas viáveis para quem busca flexibilidade e alcance global. “O conceito de sala de aula mudou. Hoje é possível ensinar de casa, conectado a estudantes em qualquer lugar. Isso amplia as possibilidades para quem se forma em Letras, mesmo dentro da licenciatura”, observa Dering.
O fator mais inovador, segundo o pesquisador, é a relação entre Letras e Inteligência Artificial. Com o crescimento de ferramentas como ChatGPT e tradutores automáticos, empresas têm buscado profissionais capazes de tornar a linguagem das máquinas mais natural e eficiente. “Um linguista consegue perceber nuances da linguagem que tornam a interação com a IA mais humana. Isso abre espaço para áreas como web writing, copywriting digital e até mesmo para o desenvolvimento de chatbots mais sofisticados”, explica.
Dering ressalta que essa é uma visão de futuro, ainda pouco mensurável no Brasil, mas que já vem sendo estudada em universidades como a UFMG. “Não digo que seja o melhor ou o pior caminho, mas é uma possibilidade para quem não deseja seguir exclusivamente para a sala de aula”, completa.
O pesquisador também aponta para a possibilidade de atuação como nômade digital, aproveitando oportunidades internacionais em universidades e fundações. Ele cita exemplos de cursos voltados para edição, como o do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (Cefet-MG), e experiências próprias em projetos de formação docente. “Recebo constantemente newsletters de universidades da Europa e dos Estados Unidos oferecendo vagas remotas para profissionais de Letras. Isso mostra que há uma demanda surgindo, ainda que não saibamos se ela vai se consolidar plenamente”, afirma.
Dering observa que muitos comentários em suas publicações revelam dificuldades de interpretação. “Alguns não compreenderam o que eu estava apontando. Mas o fato é que, ao longo dos anos, o curso de Letras não foi ganhando espaço nem vagas justamente porque não havia demanda. Agora, vemos uma procura maior, ainda que seja preciso esperar os dados finais do Sisu para confirmar”, explica.
Ele lembra que outros cursos de licenciatura também sofreram queda de procura nos últimos anos. “Todos os cursos de licenciatura tiveram uma diminuição muito grande. Mas é positivo ver que a nova geração começa a perceber que licenciatura e bacharelado oferecem outras saídas além da sala de aula”, afirma.
Dering destaca ainda que estamos em um momento de transição social e educacional. Para ele, a procura por Letras e outros cursos de humanas reflete uma reorganização da sociedade diante da evolução tecnológica e das mudanças trazidas pela pandemia. “Não sei até que ponto isso vai se consolidar como tal, mas já conseguimos perceber que a mudança começa.
O principal ponto é destacar que não só Letras, mas outras graduações começam a ter uma visibilidade diferente do que era o tradicional. Essa visibilidade vai depender desse movimento social que estamos vivendo”, analisa.
Ele lembra que a pandemia acelerou transformações e consolidou práticas que antes eram vistas como alternativas. “Muita coisa está funcionando de forma diferente. A própria comunicação, publicidade, jornalismo, relações públicas e marketing já estão bem diferentes do que eram alguns anos atrás. Essa movimentação que vocês utilizaram alguns anos atrás está começando a entrar nos cursos de humanas. Isso é muito importante”, reforça.
Dering reforça que o curso de Letras não deve ser visto apenas como caminho para a docência. A formação abre portas para áreas como revisão de textos, produção de conteúdo, tradução, marketing digital e até mesmo projetos interdisciplinares ligados à antropologia e sociologia.
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