Crise na Saúde de Goiânia também afeta pacientes com transtornos mentais

Famílias relatam que não estão conseguindo vagas para internação nas unidades psiquiátricas conveniadas ao SUS. Além disso, faltam insumos e a estrutura é precária

O Wassily Chuc funciona como uma porta de entrada para o atendimento de pacientes psiquiátricos | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

A sala de espera do Pronto Socorro Psiquiátrico Wassily Chuc, em Goiânia, fica apinhada de gente todos os dias, geralmente, entre o horário de almoço e o meio da tarde, segundo os funcionários encarregados pela limpeza do hospital. Na última terça-feira (19), a salinha verde, quase monocrática não fossem suas paredes descascadas, estava exatamente assim: cheia. Várias famílias de pacientes, amigos e até guardas de uma escolta prisional ocupavam o cômodo, a maioria esperando uma resposta quanto aos procedimentos após a realização do atendimento. Grande parte, no entanto, acompanhantes de pessoas em que os casos exigiam internação prolongada, voltavam desalentados para casa por conta da falta de vagas imediatas.

“Não tem condições de eu voltar com ela desse jeito. Eles dão um remédio, mas e a hora que passar o efeito, o que eu vou fazer?”, questiona Maria [nome fictício], 60 anos, mãe de uma paciente que estava sendo atendida no pronto socorro. Ela conta que a filha, diagnosticada com esquizofrenia, já estava há dois dias passando por um surto psicótico e necessita de atenção especializada. Com a idade avançada, Maria diz que é difícil cuidar sozinha da filha nesse estado. “Eu não tô dormindo nada, eu só consegui trazer ela porque a irmã me ajudou”, relata. Segundo ela, o médico requisitou a internação, mas como não havia vaga naquele momento, a orientação foi para que voltassem para casa e aguardassem o surgimento de um leito.

O Wassily Chuc funciona apenas como uma porta de entrada para o atendimento. O hospital pode acolher o paciente por até 72 horas, em casos urgentes. De lá, dependendo da avaliação, ele é encaminhado para um Centro de Atenção Psicossocial (Caps) ou, para os mais graves, uma unidade psiquiátrica conveniada ao Sistema Único de Saúde (SUS) na cidade. A situação da filha de Maria, que configuraria caráter de urgência, é complicada. De acordo com a mãe, os médicos alegaram que o pronto socorro não tinha estrutura adequada para mantê-la, já que a condição da paciente era “mais complexa”.

Em circunstâncias parecidas, Francinete, 37 anos, aguardava resposta ao lado de sua mãe, que tinha acabado de ser atendida e estava sentada no banco entorpecida pela medicação. Ela reclama da escassez de informações e descaso com pessoas que sofrem de transtornos mentais. “Eu nem sabia que tinha esse hospital. Primeiro fui em um Cais procurar ajuda e aí eles me encaminharam para cá”, afirma. Em tom de desabafo, enquanto espera, ela lamenta que o hospital não tinha ao menos um analgésico para sua mãe, que reclamava de dor de cabeça.

Ao ir embora, Francinete revela que o psiquiatra solicitou trinta dias de internação. Porém, a história se repete. Mesmo com a necessidade do tratamento, a única possibilidade para o momento era o cadastro no sistema de regulação e ficar na fila de espera por uma vaga. “É um absurdo. A gente paga tanta coisa, é imposto de tanta coisa, e quando a gente mais precisa, simplesmente não tem retorno nenhum”, afirma.

Naquele dia, apenas uma paciente havia conseguido ser internada. A cunhada dela, que não entrou em muitos detalhes, contou que a família quase toda se deslocou do interior para Goiânia em busca de atendimento. Ela disse que os familiares já estavam há mais de onze horas no Wassily Chuc aguardando a desocupação de um leito.

Emergência

O Wassily Chuc, gerido pela Prefeitura de Goiânia, funciona como um pronto socorro especializado no atendimento emergencial de pessoas com transtornos mentais. De acordo com o diretor da unidade, Fabrício Meneses, o hospital conta com 35 leitos, destinados para pacientes que apresentam um quadro grave e que precisam de internação imediata. Apesar de existir, teoricamente, um tempo padrão para que esse paciente seja acolhido, na prática a história é diferente.

“Nós somos um pronto socorro, então aqui deveria funcionar como um Cais. Na política de funcionamento, o paciente permaneceria em observação por até 72 horas, para efeito de diagnóstico ou algumas particularidades de cada caso. Ele deveria permanecer por esse tempo e a partir daí, necessitando de um tratamento prolongado, ou seja, uma internação, nós lançamos ele no sistema de regulação de leitos e a regulação irá buscar um leito para a internação em algumas das clínicas da rede conveniada”, esclarece Fabrício.

Hospital sofre com estrutura precária | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

Ainda assim, com essa política, alguns pacientes acabam permanecendo por mais tempo no hospital em decorrência da falta de vagas nas clínicas. “Temos um paciente aqui, por exemplo, que tem um caso grave. Veio para nós  pela emergência e acabou permanecendo por 40 dias, porque clínica nenhuma estava conseguindo aceitá-lo”, conta. Segundo o diretor, essas circunstâncias se aplicam quando o quadro do enfermo é considerado muito grave.

Questionado sobre os pacientes que estavam sendo mandados embora para casa, Fabrício explicou que todos passam por uma avaliação e os casos que não configuram alto risco são liberados. “O paciente sai daqui encaminhado, medicado e fica aguardando. Há casos em que ele consegue aguardar sob os cuidados da família, mas há casos que não. Este paciente, então, acaba ocupando nossos leitos”, diz.

Estrutura

As condições do prédio da unidade são visivelmente precárias. Na recepção, não há nada que indique que funcione um pronto socorro ali, a não ser pelo nome estampado no muro. Quem não conhece o hospital, deve seguir as pistas invisíveis trazidas pelo corredor esquerdo até encontrar a sala de espera. Às vezes, encontra-se um segurança na porta. Às vezes, não. Os pacientes, alguns mais agitados e outros dormentes pela medicação, esperam a finalização do atendimento nessa sala, enquanto familiares ou choram ou estão apenas resignados, acostumados demais com aquele cenário.

O diretor da unidade afirma que os problemas são mesmo estruturais. Enquanto a reportagem do Jornal Opção estava no hospital, na semana anterior à entrevista, um enfermeiro passou pelo corredor relatando que trazia uma maçaneta da própria casa, já que o prédio carecia até desse item. O Wassily Chuc passa pela instabilidade e dificuldades de ser instalado em um local alugado. Segundo Fabrício, ações para melhorar a estrutura acontecem de forma lenta.

No que diz respeito a equipe de profissionais, o diretor diz que um processo seletivo realizado recentemente reforçou a equipe, trazendo técnicos de enfermagem, enfermeiros, arteterapeutas e musicoterapeutas. Ainda conforme Fabrício, quanto aos medicamentos, ocasionalmente falta determinado produto que é substituível por outro.

Caps

Centro de Atenção Psicossocial Girassol, que atende crianças | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

Os cuidados prestados aos pacientes psiquiátricos, com a implementação da Política Nacional de Saúde Mental no país, deve primar pela integração comunitária e não isolamento. Por isso, a internação, segundo especialistas, só acontece em último caso. Tendo isso em vista, os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) são locais voltados especificamente para o acompanhamento desses pacientes e dependentes químicos. De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde (SMS), Goiânia conta com 9 unidades: Caps II Esperança, Caps III Novo Mundo, Caps II Água Viva, Caps II Vida, Caps II Beija-Flor, Cap II Girassol, Caps II Casa, Caps III Noroeste e Caps II Negrão de Lima.

Uma servidora que não quis se identificar conta que os centros sofrem com a falta de itens básicos, como alimentos, sabonetes e medicação. “A equipe é competente, o que falta é mais investimento nas unidades. O dinheiro que vem do Ministério da Saúde não chega nos centros e as unidades realmente precisam de mais apoio”, reitera.

De acordo com ela, é recorrente que os pacientes tenham que comprar os próprios remédios, que costumam ser caros. Além disso, o trabalho dos servidores é dificultado pela carência de recursos. “Os materiais para trabalhar não chegam e isso acaba atrapalhando nosso serviço. A realização de bazares, por exemplo, que é uma coisa não permitida, acaba sendo a única opção”, revela. Segundo a servidora, o sucateamento das redes acarreta no que eles mais temem: “Às vezes, por falta de estrutura, temos que negar atendimento”.

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