Coronavírus: voltar ao normal talvez não seja uma opção

Em um mundo no qual as propagandas nos convencem que ter é poder, que viajar é uma necessidade e que sucesso é medida de felicidade, tirar o pé do acelerador pode soar como uma agressão

Foto: Reprodução

A pandemia do novo coronavírus trouxe uma série de limitações às pessoas em todo o mundo. Ricos e pobres mudaram suas rotinas e cada um, à sua maneira, sente os impactos e o medo inerente ao vírus que se espalha com uma velocidade que assusta autoridades e cientistas. Já sabemos que, enquanto a ciência busca formas de lidar com a Covid- 19, o isolamento é a maneira mais segura de conter o seu avanço. Assim, governos ganham tempo para preparar, ainda que de forma improvisada, seus sistemas de saúde para atender aos pacientes que necessitem de cuidados especializados.

No entanto, manter esse isolamento social não é tão simples assim. Muitas pessoas ainda precisam trabalhar seja na área de saúde, segurança ou indústrias. Também existem aqueles que vivem com o que ganham na lida diária. De fato, é uma situação difícil e que exige dos governantes e da sociedade uma união para a construção de uma rede de apoio para os mais vulneráveis. E não podemos nos esquecer daqueles que tem a oportunidade e o privilégio de se isolar e não o fazem, seja por falta de conhecimento ou de vontade.

Em um mundo no qual as propagandas nos convencem que ter é poder, que viajar é uma necessidade e que sucesso é medida de felicidade, tirar o pé do acelerador tende a soar como uma agressão. Neste sentindo, a ideia de proteção do outro e privação — ainda que momentânea — da liberdade é capaz de não ser bem entendida por algumas pessoas. E, neste momento, em que essas pessoas se fecham em suas casas e mundos particulares, pensar no próximo pode parecer utópico.

Mas é preciso pensar sobre o que podemos fazer, ou até mesmo o que podemos não fazer nestes dias de incerteza. Essa é uma reflexão urgente e uma das primeiras conclusões a que algumas pessoas que fizeram esse exercício chegaram foi a de que não é possível esperar que o mundo volte a ser o que foi. Apesar de assustador, o fato é que as coisas talvez simplesmente não voltarão ao normal. Normalidade essa que tem uma probabilidade muito grande de não ser o melhor para nós e, principalmente, para o mundo.

Cientistas têm batido nesta tecla de que é preciso repensar nossos modos de viver. O Papa Francisco em homília recente também fez um apelo nesta direção. “Na nossa avidez de lucro, deixamo-nos absorver pelas coisas e transtornar pela pressa. Não nos detivemos perante os teus apelos, não despertamos face a guerras e injustiças planetárias, não ouvimos o grito dos pobres e do nosso planeta gravemente enfermo. Avançamos, destemidos, pensando que continuaríamos sempre saudáveis num mundo doente”, resumiu. Outras vozes têm emitido alertas de que o mundo nos faz um apelo por uma vida menos atarefada, onde haja tempo para olhar ao redor e para entender que não é possível viver sozinho.

Esse parece ser um dos aprendizados que a humanidade consegue tirar desta pandemia. A certeza de que não adianta blindar sua família com estoques de álcool em gel, papel higiênico e uma dispensa cheia de enlatados, pois o problema dos outros também é nosso problema. A ação de cada um se refletirá em como o globo irá atravessar a crise, por isso é urgente que saibamos reconhecer nossa pequenez diante da vida, mas nossa força enquanto parte de algo maior. Com responsabilidade e serenidade, quem sabe, possamos dar passos seguros em direção a um mundo mais saudável para todos.

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