A Copa do Mundo e seus “bastidores” recheados de disputas geopolíticas

Enquanto a bola rola dentro dos campos, a maior competição de um esporte no planeta mostra valores diplomáticos em disputa fora deles

Frederico Vitor

A Copa do Mundo de futebol é o maior evento esportista do planeta, em que 32 seleções nacionais brigam por uma sonhada taça de campeão do mundo. Mas uma coisa que chama atenção nesta edição do Mundial são algumas coincidências de dentro de campo que remetem a questões fora das quatro linhas, que envolvem a geopolítica mundial.

Começando pelo anfitrião do evento, o Brasil. Nosso País bancou esta aventura de sediar uma Copa do Mundo numa clara tentativa de se autoafirmar como um gigante dentre os Brics — bloco formado juntamente com os países emergentes Rússia, Índia, China e África do Sul. Em tempos de crise econômica, ter poder de bancar um evento desta magnitude, que será seguido pelos Jogos Olímpicos (no Rio, em 2016), é dar sinal de que o gigante da América do Sul quer ser prestigiado globalmente.

Nesta terça-feira, 17., é dia de Brasil x México, o confronto das duas maiores economias latino-americanas. Os mexicanos lideram a Aliança do Pacífico, um bloco econômico rival do Mercosul, formado pelo Peru, Chile e Colômbia. Já o Brasil tenta se consolidar como uma liderança econômica, política e militar, na região austral das Américas.

Uma situação que chamou a atenção pelo forte simbolismo foi um dos confrontos pelo Grupo G, entre Alemanha e Portugal. Os alemães golearam os portugueses pelo placar de 4 a 0 nesta segunda-feira, 16. Mesmo com o melhor jogador da atualidade em campo, o atacante Cristiano Ronaldo, os lusitanos nada puderam fazer para deter a blitz germânica. Presente na Arena Fonte Nova, em Salvador, para assistir à goleada da Alemanha estava a chanceler Angela Merkel.

A chanceler Angela Merkel, fã de futebol, em "selfie" com o jogador alemão Lukas Podolski: reforçando a geopolítica da Copa

A chanceler Angela Merkel, fã de futebol, em “selfie” com o jogador alemão Lukas Podolski: reforçando a geopolítica da Copa

Pareceu ser um claro recado de que os alemães são os senhores de toda a Europa, a economia mais saudável do continente, que estaria socorrendo outras arruinadas, como as de Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha. Era como se a equipe do atacante Thomas Müller, autor de três gols na partida, dissesse em alto e bom som aos portugueses: “Além de economia, também podemos lhes ensinar futebol.”

Um fato que saltou aos olhos mais perspicazes e que remeteu à geopolítica foi a presença de uma faixa no Maracanã com a frase “Las Malvinas son argentinas”, na partida entre Argentina x Bósnia e Herzegovina, vencida pelos sul-americanos por 2 a 1. A disputa pelo controle das Ilhas Malvinas (ou Falklands, como os britânicos a nomeiam) é uma pendência nacional dos argentinos, que em 1982 recorreram às armas para tomar o arquipélago de população de pouco mais de 2 mil descendente de ingleses, galeses, escoceses e irlandeses. Numa rápida e sofisticada operação de guerra, as Forças Armadas do Reino Unido expulsaram os militares argentinos, vencendo o maior conflito armado deflagrado no Atlântico Sul no século 20. Quatro anos depois, na Copa do México, ingleses e argentinos se enfrentaram nos gramados, numa partida marcada pela atuação do camisa 10 argentino, Diego Maradona. Após driblar meia dúzia de marcadores britânicos, ele mandou a bola ao fundo das redes, lavando assim a alma de seu País derrotado nos campos de batalha. Antes disso, havia protagonizado o gol chamado então de “La Mano de Dios”, um toque sorrateiro com a mão que pareceu ser de cabeça, o que enganou o árbitro da partida.

Jogadores argentinos posam para foto com banner reiterando posse das Ilhas Malvinas pelo país

Jogadores argentinos posam para foto com banner reiterando posse das Ilhas Malvinas pelo país

Outra situação que poderá acontecer é o confronto nas oitavas-de-finais entre Estados Unidos e Rússia. Se os americanos forem 1º do grupo G e os russos classificarem em 2º do H — ou vice-versa —, os grandes rivais e antagonistas da geopolítica mundial podem se enfrentar dentro de campo no dia 30, em Porto Alegre. Depois que a Crimeia foi anexada à Federação Russa, os americanos esfriaram as relações com Moscou.

A seleção dos Estados Unidos, aliás, está concentrada a poucos quilômetros da seleção iraniana, em São Paulo. Depois de brasileiros e argentinos, os americanos foram os maiores compradores de ingressos desta Copa. Na terra onde a paixão nacional é pela bola oval do futebol americano, o “soccer” tem despertado grande interesse, sendo que a média de público na liga estadunidense, a Major Soccer League (MSL), é de 40 mil expectadores. Seria este um sinal da influência da população latina, mais especialmente a mexicana, que a cada ano ganha mais força na política, economia e cultura americana?

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