Sócio-fundador da Tendências Consultoria, Nathan Blanche insiste que o regime democrático liberal é o caminho mais seguro para sanar o momento de crise

Um dos mais experientes homens do mercado financeiro, Nathan Blanche é alguém que costuma ver sempre à frente o que vem por aí para afetar a economia – aliás, como devem ser as referências em seu ofício. De seu escritório em São Paulo, o sócio-fundador da Tendências Consultoria não vê com otimismo o cenário apontado a partir da combinação entre as recentes ameaças à democracia protagonizadas especialmente pelo titular do Ministério da Defesa, o general da reserva Walter Braga Netto, e um eventual crescimento dos protestos contra o Jair Bolsonaro (sem partido).

Segundo o economista Nathan Blanche, só a economia liberal salva o Brasil do caos econômico / Foto: Fernando Leite

Em dois recentes episódios, Braga Netto mostrou que – ao contrário de seu antecessor na pasta, o também general da reserva Fernando Azevedo e Silva – está à disposição para os confrontos que o presidente quiser levar adiante. Com o governo encurralado pela CPI da Pandemia, o ministro aproveitou-se de uma fala do senador Omar Aziz (PSD-AM), presidente da comissão – que lamentou a existência de uma “banda podre” nas Forças Armadas, descoberta nos escândalos de negociação paralela de vacinas. Aziz disse que os bons militares deveriam estar envergonhados desse grupo. No mesmo dia, 7 de julho, Braga Netto assinava uma nota oficial, subscrita pelos três comandantes das Forças, repudiando a fala e intimidando o Legislativo.

Na semana passada, veio a público a informação, revelada por reportagem do jornal O Estado de S. Paulo, de que o ministro da Defesa teria feito chegar por meio de um interlocutor, no dia 8 de julho, um recado ao presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL) de que ou o voto impresso era aprovado para as próximas eleições ou elas não ocorreriam. O comunicado teria sido feito na presença, novamente, dos três chefes das Forças. Soou como “quem manda neste País somos nós, as Forças Armadas”. Braga Netto desmentido.

Para Nathan Blanche, essa negação do que foi dito – o Estadão reafirmou o conteúdo da matéria publicada – indica que talvez tenhamos um risco menor de um cenário de insegurança política rumo a um golpe ou mesmo uma ditadura militar. Para o economista, foi fundamental a pronta reação das redes sociais, de parlamentares e dos partidos políticos ao que teria sido uma ameaça à democracia.

Mas ele coloca um senão importante: o encolhimento do apoio a Bolsonaro nas pesquisas de popularidade e de intenções de voto deixa o governo acuado. Junte-se a isso o avanço dos protestos da esquerda e passa a preocupar um cenário de caos. “É preciso alertar sobre o alto risco de a disputa eleitoral vindoura, entre Lula e Bolsonaro, começar a gerar desde agora uma crise maior no atual nível de ameaças de lado a lado, como esses da parte do ministro da Defesa e atos mais violentos durantes as passeatas da esquerda”, diz Nathan.

Em outra frente, o economista critica os rumos que estão tomando a política econômica e os acordões feitos por Bolsonaro para manter sua governabilidade. “A aprovação de quase R$ 6 bilhões para o fundo eleitoral é um escárnio e um sinal de que o Centrão agora pode tudo. Para um governo eleito para combater a corrupção, Bolsonaro está fazendo pior do que os antecessores”, sentencia.

Nathan Blanche não vê outro caminho que não o de o País voltar a trilhar o roteiro de um regime democrático liberal. “Em países com tantos pobres e de desigualdade social, como há na America Latina, só isso pode nos livrar de trilhar o exemplo das ditaduras como a da Venezuela e de governos sem rumo como o da Argentina.” O país, hoje governado à esquerda por Alberto Fernández, vê aumentar a desvalorização de sua moeda. “Há 20 anos, 1 peso equivalia a 1 real; hoje são 20 pesos para 1 real”, comenta.

A perspectiva para o Brasil não é boa e o caos econômico, no momento, só está sendo evitado por conta da balança comercial favorável. “A valorização muita alta das commodities, como o minério de ferro e a soja, está mantendo a economia do Brasil. A renda é diluída pela inflação cada vez maior, mas o governo ganha com ela, que está amenizando a situação das contas públicas e a relação dívida–PIB”, explica Nathan Blanche.