Conheça Tadeu Frederico, paciente da Prevent Senior que depôs na CPI da Covid

Homem se declara vítima da empresa e relata o que passou enquanto se manteve internado em tratamento da Covid-19; “sou uma testemunha viva da política criminosa dessa corporação”, reforça

Advogado Tadeu Frederico de Andrade, que depôs na CPI da Covid-19 contra a Prevent Senior | Foto: Reprodução

Após cerca de 15 médicos apresentarem dossiê e acusarem a Prevent Senior de pressionar profissionais da saúde a prescreverem remédios sem eficácia comprovada contra Covid-19, o advogado Tadeu Frederico de Andrade, que se internou em uma unidade da instituição, prestou depoimento na CPI da Covid. Ao afirmar ter sido uma das vítimas do hospital, conta que foi tratado com hidroxicloroquina, ivermectina e até flutamida, medicamento utilizado para tratar câncer de próstata.

Em entrevista à BBC Brasil, o advogado relatou que seus primeiros sintomas da Covid-19 foram iniciados em 24 de dezembro do ano passado. No dia seguinte, o homem fez uma teleconsulta pela Prevent Senior, uma vez que é cliente do plano há cerca de oito anos. Após a consulta de cerca de dez minutos, ele relata que a médica ouviu os sintomas e afirmou que mandaria um protocolo preventivo. Minutos depois, Tadeu recebeu o ‘kit covid’ por um motoboy.

“Me receitaram esses remédios mesmo sem diagnóstico preciso. Fiz o exame e tive resultado positivo para a Covid-19 quando eu já estava tomando esses remédios”, explica o advogado. Entre os medicamentos recebidos estavam a hidroxicloroquina e a ivermectina.

Ao não ver resultados positivos após cinco dias consumindo os remédios, ele foi a um hospital da rede Prevent Senior. Lá, ele foi diretamente internado em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI), com cerca de 50% do pulmão comprometido, e logo depois intubado.

“Alguns médicos me disseram depois que se eu tivesse sido internado desde o início, se na primeira teleconsulta tivessem me dito para procurar um pronto-socorro e verificassem a pneumonia, talvez eu pudesse até ser tratado com antibiótico em casa”, contou. Além da experiencia inicial, Tadeu alega ter sido alvo de tratamento experimental e sem autorização de sua família enquanto se encontrava na UTI, uma vez que médicos administraram flutamida e quiseram encaminhá-lo a cuidados paliativos destinados a pacientes em estado terminal, ainda que ele ainda tivesse condições de se recuperar.

Desde que o caso foi divulgado, a empresa vem negando todas as acusações. De acordo com a Prevent Senior, seus médicos possuem a prerrogativa de adotarem os procedimentos que julgarem necessários, seguindo as diretrizes do Conselho Federal de Medicina, para o tratamento de seus pacientes. Segundo Tadeu, ele se manteve internado no hospital por quatro meses, sendo dois na UTI e outros dois em uma clínica de recuperação das sequelas da doença. Além disso, ficou mais de 90 dias em tratamento em sua casa.

Ele conta que chegou à CPI após relatar o que vivenciou com a operadora ao senador Otto Alencar (PSD-BA). “No princípio, eu não sabia se poderia falar sobre o meu caso na CPI. Mas quando o senador Otto Alencar falou sobre cuidados paliativos em relação à Prevent Senior, tomei vontade e falei que era a hora. A minha filha escreveu sobre a minha história para ele, uma assessora dele me respondeu e começamos a conversar”, conta.

Na CPI, Tadeu chegou a revelar que, em uma reunião entre os médicos e sua família, esta não aceitou o tratamento proposto pelos profissionais e ameaçou ir à Justiça e à imprensa. “Em pouco dias eu estaria vindo a óbito. E hoje estou aqui”, disse Tadeu, começando a chorar. Desconfiada da Prevent Senior, a família do advogado contratou um médico particular que fiscalizasse os procedimentos internos.

Ao ser questionado pelo relator da CPI, o senador Renan Calheiros (MDB-AL), Tadeu afirma que a empresa não o ameaçou depois que expôs a situação. Além disso, revelou continuar utilizando o plano de saúde, uma vez que ele ainda realiza acompanhamentos médicos. No entanto, ele diz que só conseguiu acesso a seus prontuários após muita insistência com a Prevent Senior.

Outro lado da moeda

Ainda em depoimento na CPI, Walter Correa de Souza, que foi médico da Prevent Senior, reforça o relato contra o comportamento da empresa, que orientava os profissionais a receitarem remédios sem eficácia comprovada contra a Covid-19. Segundo ele, em um determinado momentos, alguns de seus colegas chegaram a fazer carimbos adicionais e os entregaram aos enfermeiros para que estes pudessem adiantar as receitas com os medicamentos em questão.

“Eles [Prevent Senior] tinham a contagem dos kits. Eu fui pego nessa. Um dia que deixei de prescrever, eles perceberam. Se saía da linha, essa pessoa era cobrada”, revela o médico. Apesar de ter que receitar os remédios em questão por orientação da empresa, ele afirma que orientava os pacientes a não toma-los, passando a ingerir apenas as vitaminas, dos medicamentos que compunham o ‘kit covid’.

Além disso, Walter conta que, no início da pandemia, houve uma orientação para que os médicos não usassem máscaras. No entanto, depois a orientação foi revertida e não faltaram equipamentos de proteção individual aos funcionários.

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