Conheça Elenízia da Mata, a primeira mulher negra eleita vereadora na cidade de Goiás

Mãe, cantora e professora recebeu 476 votos e fez história na Câmara Municipal

Vereadora Elenízia da Mata. | Foto: Arquivo pessoal

Nas eleições municipais de 2020, apesar o percentual de mulheres eleitas permanecer baixo – com 15,80% em cenário nacional -, foi possível comemorar algumas vitórias quanto ao avanço da participação da mulher nas decisões políticas do país. Uma delas, foi a eleição e posse de Elenízia da Mata (PT), a primeira vereadora negra da cidade de Goiás, antiga capital do estado. Ao receber 476 votos, passou a compor a Câmara Municipal de Goiás junto a outras duas mulheres e cinco homens.  

Apesar de ter nascido em Goiânia, se considera afro-indígena, e sua família é originária do quilombo São Félix, no município de Matrinchã, em Goiás. Para lá se mudou aos 9 anos de idade, mas sempre incentivada por sua família a estudar, instalou-se na cidade de Goiás para cursar o ensino médio. Estudou no Lyceu de Goiás, e conciliou a jornada de estudos com o trabalho. “Vendi produtos de revista, dei aulas particulares, fiz apresentações culturais, animações de festas infantis, cantei em casamentos e formaturas, fui âncora de um programa de rádio da Rádio Cidade e me virei nos trinta!”, explica Elenízia.

Aos 18 anos, a cantora ingressou no curso de Letras da Universidade Estadual de Goiás (UEG), o que fez dela a primeira jovem de sua família entrar em um curso superior. Além de lecionar, durante o período de estágio Elenízia criou o Maria Grampinho Criações, negócio voltado à luta pela cultura e pela visibilidade negra em trabalhos artesanais.

“Aqui começou minha experiência com afroempreendedorismo e produção feita por mulheres, quase tudo produzido por mulheres parceiras aqui de Goiás. Recebemos reconhecimento nacional do Sebrae via reportagem no Pequenas Empresas Grandes Negócios pela importância da produção associada ao turismo e a valorização da negritude em nosso município”, conta a vereadora, em uma publicação realizada em seu perfil da rede social Instagram.

Antes de se candidatar em 2020, Elenízia fez MBA em Terceiro Setor e se especializou em Direitos Sociais do Campo. Além disso, a professora já era filiada ao Partido dos Trabalhadores desde 2003 e a partir de 2013 começou a atuar como gestora do Centro Especializado de Atendimento à Mulher Brasilete R. Caiado.

Processo de candidatura

Sua história como um todo, e a luta por justiça social, foi o que a motivou a se candidatar. Os desafios, entretanto, se fizeram presentes. “Foi difícil entender como se dá uma candidatura em meio a uma pandemia, sem fontes significativas de recursos materiais e humano. Não é só se jogar na campanha. É preciso ser estratégica, ter parceria, não andar sozinha”, conta.

O apoio do Goianas na Urna (GnU), organização suprapartidária criada em prol de auxiliar mulheres sem mandato eletivo a se candidatarem, foi crucial. O projeto foi criado pela economista Emília Marinho, e tem como objetivo realizar fornecer formação política a essas mulheres, criar rede de apoio e combater as candidaturas laranja. Elenízia foi uma das 5 mulheres que obtiveram formação pelo GnU e foram eleitas em 2020.

Segundo a vereadora, esta foi a primeira formação específica sobre política para mulheres que recebeu. “Muito da escuta que tive foi nesse espaço. A partir das informações que recebi lá, aprendi a ser mais assertiva e livrei-me de situações que seriam perigosas para mim”, conta.

Desafios antes e depois de eleita

Durante a corrida eleitoral, episódios de machismo e racismo foram constantes. Mesmo persistente, Elenízia sempre ouvia que sua luta por mais mulheres na política era frescura. Já quando as pessoas pareciam a apoiar, o que era dito é que por mais que fosse uma boa candidata, não ter histórico familiar dentro da política a atrapalharia. “As pessoas diziam: você é uma “neguinha” inteligente, então sabe que os próprios negros são racistas e não votam em outras pessoas negras”, acrescenta. Além disso, por ter uma filha de 7 anos, ser taxada de péssima mãe era rotina.

Quando eleita, entretanto, os desafios não terminaram. “Boas ideias apresentadas ou sugeridas por mulheres ainda encontram barreiras para serem implementadas. A voz ainda não é escutada com o mesmo peso que a dos homens”, diz.  A vereadora do município de Goiás ainda ressalta a importância de se incentivar a entrada de mulheres em espaço de poder para que este cenário de opressão seja revertido.   

“Ambientes públicos, como ruas, praças e a própria zona rural ainda são perigosos para as mulheres. Eu mesma ouvi: Como você tem coragem de andar sozinha com sua amiga pedindo voto na rua? E se um homem atacar vocês? A estrutura de poder é pensada por homens, mantida por homens e eles tudo a favor deles para continuarem sendo potentes”, conclui.

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