Confira o relato de 5 goianas que desde 2020 atuam na linha de frente do combate à Covid-19

Após tantas vidas salvas, mulheres profissionais de saúde estão exaustas

Profissionais da Saúde. Foto: Portal Pedbmed/reprodução

Desde o início da pandemia da Covid-19 no Brasil, em meados de fevereiro de 2020, a rotina dos profissionais de saúde – apesar de a surpresa sobre como lidar com um novo vírus atingir toda a população – foi colocada de pernas para o ar. Em especial as mulheres, além de estarem na linha de frente, enfrentam a dupla jornada que, segundo pesquisa divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2019, faz com que elas realizem 92,2% dos afazeres domésticos.

Goiás, que já teve 115.752 casos da doença confirmados, é composto por um time de profissionais, que conta com médicas, enfermeiras, técnicas em radiologia, entre outras, que é exposto a diários desafios que precisam ser enfrentados com ações rápidas, precisas e antecipadas. E que, após longos plantões, acabam levando a exaustão.

Franscine Leão ao lado do ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta e do deputado federal Zacharias Calil (DEM) | Foto: Instagram da SIMEGO

“Nós que estamos na linha de frente, desde o início vivenciamos a grande incerteza de lidar com um inimigo desconhecido. A dificuldade da paramentação e a desparamentação dos EPIs, algo que não estávamos habituados a fazer e que causa um grande desgaste e até ulcerações na pele, algo que eu cheguei a ter”, conta a presidente do Sindicato dos Médicos de Goiás (SIMEGO), Franscine Leão. A presidente ainda acrescenta que, pela repercussão política que passou a envolver a doença, a negação de que o vírus existia dentro da comunidade médica foi algo que dificultou o trabalho.

Medo do contágio

Médica Lívia Macêdo. | Foto: Arquivo pessoal

A médica Lívia Macêdo, 32 anos, que atua junto ao Programa Mais Médicos e com o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), teve sua primeira atuação na área já em cenário de pandemia. Ao se contaminar com a doença enquanto trabalhava, se viu obrigada a deixar a casa dos pais para que não transmitisse a eles. “Tive medo por mim e por quem estava perto de mim. Apesar dos sintomas fortes e do acometimento pulmonar, não precisei ficar internada. Quando vi minha tomografia, fiquei chateada, mas me concentrei na recuperação, repouso e medicações”, relata.

Além do medo pelos seus, Lívia explica que presenciar situações de drama, despedida e incerteza, para quem trabalha na linha de frente do combate à Covid-19, já virou rotina. “Presenciamos o drama da família que não via o parente depois de um tempo. A transferência do paciente da enfermaria para outra UTI era o único momento, e talvez o último, que conseguiam ver a pessoa que estava doente” conta Lívia.

Já a técnica em Radiologia, Cleire Loures, que atua no Hospital de Neurologia Santa Mônica, em Aparecida de Goiânia, precisou evitar o contato com as filhas, que residem na mesma casa que a técnica, pelo medo de contaminá-las. “Eu não comia junto a elas, não sentava próximo… Cada vez que a gente tinha algum sinal de rinite ou gripe, o medo de estar contaminada pela Covid-19 aumentava”, diz. Somente após tomar a vacina – sendo a primeira dose no fim de janeiro de 2021 e a segunda, no fim de fevereiro – conseguiu se tranquilizar.

A enfermeira Tatiana Feitosa, que trabalhou por 11 anos no Hospital de Urgências de Goiânia (HUGO), foi uma das primeiras profissionais da unidade a serem contaminadas pelo novo coronavírus durante o exercício da profissão. Apesar de a doença ter provocado poucos sintomas, chegou a contaminar o noivo, e logo percebeu sinais de ansiedade e pânico tomarem conta. “Com a ansiedade, a falta de ar que eu sentia aumentava ainda mais. Como eu tinha meu próprio oxímetro, e eu conseguia ver que minha oxigenação do sangue estava boa, e isso me tranquilizava. Mas quem não tem acesso a essas informações, quando começa a ter falta de ar, já pensa: eu vou morrer”, explica.

Sentimento de impotência

A técnica em Enfermagem, Aline Neves, que no momento atua no Hospital de Urgências de Goiânia (HUGO) e no Hospital de Campanha para Enfrentamento do Coronavírus (HCamp) de Goiânia, diz sentir o peso da impotência, nos momentos em que se vê incapaz de fazer mais pelas vítimas e seus familiares. “Já teve paciente que implorou para não ser entubado. Meu celular não para de gente pedindo vaga, e eu não posso fazer nada”, lamenta.

Técnica em Enfermagem, Aline Neves. | Foto: Arquivo pessoal

Apesar de já se fazer um ano que o novo coronavírus tomou conta da rotina dos brasileiros, Aline explica que o baque durante o primeiro ano da doença foi menor do que o que presencia desde o início de 2021. “Em 2020, todo mundo estava com medo, mas ainda assim pensava que o contágio, o agravamento da doença e os óbitos seriam maiores em idosos, pessoas com doenças autoimunes e em que já tinham outras doenças, mas não. Tem muita gente nova com evolução em poucos dias”, explica técnica em enfermagem.

E quando quem chega no hospital são pessoas conhecidas destes profissionais, o desespero bate na porta. “Quando não é da família da gente é mais fácil de lidar. Ver meu avô ser intubado foi a pior cena que vi na vida. Demorei mais ou menos uma meia hora para me controlar e voltar a trabalhar”, desabafa Aline.

Técnica em Enfermagem, Tatiana Feitosa | Foto: Arquivo pessoal

Quem não trabalha com a área da saúde, pode até pensar que os profissionais estão acostumados com situações semelhantes. Entretanto, Tatiana, que hoje atua na Coordenação de Saúde Digital, Gerência de Tecnologia, Secretaria de Estado da Saúde (SES), se viu obrigada a sair da linha de frente do combate à doença em prol de preservar sua saúde mental. No início da pandemia, a profissional havia se oferecido para atuar diretamente na luta contra o coronavírus, em prol de seus colegas que não tinham condições de se oferecer, seja por terem contato pessoal com idosos, ou por serem gestantes.

Dificuldade com os EPIs

Basta olhar para o lado para identificar as dezenas de desafios que profissionais da saúde enfrentaram e enfrentam nessa batalha. A própria obrigatoriedade do uso dos Equipamentos de Proteção Individual (EPI) em todo o momento, algo que pode parecer relativamente simples, foi um fator de dificuldade. Tanto pela falta desses equipamentos, quanto pela necessidade de um tempo de adaptação por parte dos profissionais.

“Nós agimos fortemente junto ao Ministério Público do Trabalho, em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde, tentando organizar esse suporte aos profissionais que estariam na linha de frente”, explica a presidente do Sindicato dos Médicos.

A técnica em Radiologia Cleire Loures explica que, logo no começo de 2020 o corpo técnico do hospital recebeu instruções sobre como utilizar os equipamentos e a recomendação do uso da máscara. “Mesmo para fazer uma tomografia simples, precisávamos portar os equipamentos”, conta.

Já Tatiana, explica ter tido que trabalhar praticamente sem enxergar quando ainda não havia se acostumado com o equipamento. “Teve um paciente na enfermaria que estava com Covid-19 e que teve parada cardíaca. Quando fomos fazer a reanimação e colocá-lo no respirador, meus óculos de proteção estavam completamente embaçados, porque a correria dentro do hospital é muito grande e eu estava com calor. Então tive que fazer todo o procedimento praticamente sem enxergar nada”, conta a enfermeira.

Incerteza sobre o futuro

Mesmo com o início da vacinação contra a Covid-19 no Brasil no dia 17 de janeiro, a incerteza sobre o futuro ainda é grande. Aline, depois de tudo o que viveu e ainda viverá no combate à Covid-19, não sabe se continuará no exercício da profissão quando o cenário mudar. “É como se eu não estivesse vivendo minha vida mais. Estou segurando meu emocional na base do remédio mesmo, pedi ajuda psicológica. Muitos colegas meus dizem que também irão sair, outros vão ficar só em um emprego. Estão todos exaustos”, desabafa a enfermeira.

“Muitos colegas pediram demissão por falta de segurança, porque a violência estava absurda. A gente estava expondo a nossa vida, a dos nossos familiares, e só sofrendo agressões de todos os lados: da gestão, dos pacientes, e dos familiares”, conclui a presidente do SIMEGO.

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