Comunidade escolar aprova projeto de combate à exclusão de estudantes repetentes

Em Goiás, 18,4% dos estudantes das redes municipal e estadual encontram-se em distorção idade/ano escolar

Foto: Divulgação

O projeto “Aprender para Avançar” lançado pela Secretaria Estadual da Educação (Seduc), nesta segunda-feira, 3, agradou a comunidade escolar. No entanto, os profissionais alertam para a necessidade de outras medidas que garantam o aprendizado dos alunos e diminua a evasão escolar. A iniciativa da Superintendência de Ensino Fundamental (SEF) visa corrigir distorções escolares (correções de fluxo), principalmente nos anos finais do Ensino Fundamental (6º ao 9º ano).

Para a presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Estado de Goiás (Sintego), Bia de Lima, o projeto é uma iniciativa importante, mas a profissional chama atenção para outros fatores essenciais para garantir o aprendizado e correção de distorções escolares, entre eles, a valorização dos professores e diminuição do déficit de profissionais.

“A iniciativa é muito boa já que a defasagem tem sido grande. Quando fazemos a progressão sem o aprendizado resulta nessa situação em que o aluno fica em descompasso com o conhecimento. Por isso, além desse cuidado em adequar a idade à série, é preciso ter o cuidado com o aprendizado”, observou.

Para a presidente do Sintego, também é necessário olhar para os profissionais para a educação, garantindo professores em todas as áreas. “É preciso resolver o déficit de profissionais primeiro. Além disso, a maioria dos profissionais é contratada de forma temporária, mas a função do professor não é temporária, quando ele começa a ter experiência o contrato acaba”, afirma Bia, que frisou a necessidade de concurso público para assegurar a continuidade e qualidade do ensino.

O Programa

O objetivo do programa é combater a exclusão de estudantes multirrepetentes ou que abandonaram os estudos por algum tempo. Há casos também que oportuniza aos alunos cursarem dois anos letivos em um ano, com possibilidade de avanço de acordo com o desempenho, assegurando assim a correção dessa distorção idade/ano escolar.

“O trabalho do professor é que vai fazer a diferença, porque esses alunos normalmente vêm de históricos de reprovação, evasão, mudança de endereço ou outros fatores que não permitiram que eles continuassem os estudos. É preciso, então, que seja feito um trabalho diferenciado para incentivar, fortalecer a autoestima, mostrar que esse aluno é capaz e que a sala de aula é um espaço colaborativo. Tudo isso para que ele fique na escola, não abandone mais os estudos e consiga acompanhar os seus pares”, ressalta a superintendente de Ensino Fundamental da SEDUC, Gisele Pereira Faria Campos.

O projeto começará a ser desenvolvido em 20 das 40 Coordenadorias Regionais de Educação (CRE) do Estado e atenderá inicialmente mais de 1.200 alunos. Cada turma deve ter, no mínimo, 15 e, no máximo, 25 alunos, para que as metodologias ativas de ensino sejam aplicadas de maneira eficiente.

Distorção escolar

A diretora do Colégio Estadual Roberto Civita, Neimar Moreira da Silva, destacou que a comunidade educacional recebeu o projeto como um presente. “É um crescimento, pois aumenta o incentivo, a expectativa de estudo. Para a escola está sendo algo inovador e de grande crescimento pessoal para nossos alunos”. Na escola existem cerca de 40 alunos de 7° e 8° anos que serão atendidos pelo projeto.

O projeto “Avançar para Aprender” traz metodologias atualizadas e se baseou em dados que mostram a necessidade de implantação do programa diante da defasagem escolar. Segundo o Censo Escolar de 2017, entre as problemáticas relacionadas com o baixo desempenho e evasão escolar, a distorção idade/ano é um dos principais desafios. Os dados também apontam que cerca de 14% dos estudantes do Ensino Fundamental nos anos iniciais e 29% nos anos finais encontram-se em distorção escolar no Brasil. Em Goiás, 18,4% dos estudantes das redes municipal e estadual, totalizando 164.836 alunos, encontram-se em distorção idade/ano, conforme aponta dados do Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais (INEP).

De acordo com dados da Seduc de 2017, do total de estudantes matriculados no Ensino Fundamental, 7,4% nos anos iniciais e 24,2% nos anos finais, encontram-se em distorção idade/ano escolar. Este percentual significa 53.520 estudantes nos anos finais do Ensino Fundamental, que se encontram por motivos diversos fora da idade em seu percurso escolar. Frente a esse cenário, o projeto “Aprender para Avançar” busca reverter esta situação.

“É preciso trabalhar para não chegar a essa situação”

O professor Thiago Martins trabalha no Colégio Nova Era, em Aparecida de Goiânia, e defende a necessidade de uma estrutura melhor para acompanhar os alunos durante o ano letivo, com o intuito de impedir que o aluno abandone a escola ou reprove. “Para isso precisamos de mais profissionais, principalmente psicólogos, já que temos muitos casos de alunos com distúrbios psicológicos”, pontuou.

“O melhor para o conhecimento seria o tradicional, mas de fato temos muitos casos de alunos nas periferias com diversos problemas que os levam a repetir o ano e como estamos em um sistema que a Educação é para formar mão de obra para o trabalho eles ficam ‘atrasados’. Nesse sentido é uma boa iniciativa”.

Para o professor, o projeto da Seduc é um caminho possível, porém é preciso trabalhar para que a situação não chegue nesse patamar. “Não é possível com os profissionais que temos e o número de alunos por sala, acompanharmos todos os problemas que levam esses alunos a esse quadro de defasagem escolar. É preciso trabalhar para não chegar a essa situação”, concluiu.

 

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