Como a Covid-19 impacta a campanha emedebista e a mente do eleitorado

Não é a primeira vez que um político é impedido de fazer campanha por motivo de doença. Neste caso, não resta outra saída a não ser depositar o dia a dia da campanha nas mãos de seus auxiliares

Candidato a prefeito Maguito Vilela e seu vice, Rogério Cruz (à esq) / Foto: Reprodução

Não é a primeira vez que um político é impedido de conduzir sua campanha política por “força maior”. Em 2018, por exemplo, o presidente Jair Bolsonaro foi alvo de um atentado e precisou ser hospitalizado. Isso o impediu de participar de debates e ações de rua.

Apesar do ataque ter acontecido há pouco mais de dois anos, os fatos, segundo o cientista político Guilherme Carvalho, ainda estão vivos no “imaginário eleitoral” da população. Em Goiânia, apesar das distinções que envolvem seu afastamento, o emedebista e candidato à prefeitura de Goiânia, Maguito Vilela, também encontra-se impedido de atuar como gostaria.

Neste caso, não resta outra saída a não ser depositar o dia a dia da campanha nas mãos de seus auxiliares. Pessoas capazes de assumir essa missão com certeza não lhe faltam, mas a grande dúvida é se, ainda assim, o eleitor se sentira confortável o suficiente para depositar sua confiança em uma candidatura ora instável.

“A pergunta que o eleitor se faz num primeiro momento é: ele vai ter condições de assumir se ganhar? Isso entra no imaginário e levanta uma série de questões em relação a segurança de sua escolha. Já existe uma tradição de se votar sem olhar para o vice e os mais afetados são aqueles que ainda não decidiram seu voto e não vão decidir por motivos clientelistas. Neste caso, o eleitor seguirá balizando se corre ou não o risco de votar em uma pessoa e ‘levar’ outra”, explicou o cientista político à reportagem.

Cientista político Guilherme Carvalho, | Foto: Reprodução

Segundo Carvalho, a influência do fator doença na campanha existe, no entanto a equipe tem papel fundamental no processo durante os dias de afastamento do candidato. “Tratando-se do que temos como exemplo aqui em Goiânia, vejo que a equipe do Maguito tem adotado boas estratégias para contornar a situação. Se estivessem fazendo diferente do que estão fazendo agora poderia ser pior. Mas estão utilizando pessoas com capital eleitoral para reverter esse cenário de impossibilidade de comunicação com o eleitor”. Isso, para ele, tem se mostrado como uma atitude extremamente assertiva.

O vice aos olhos do eleitor

Segundo o cientista político e antropologo Wilson Ferreira da Cunha, ainda que afastamentos por “força maior” possam influenciar o quadro político, o que se percebe historicamente é que o vice não possui tanto protagonismo nesse processo de manutenção ou reconstrução de uma candidatura.

“Tradicionalmente, o vice não possui densidade eleitoral suficiente para se tornar um protagonista na disputa, ainda que em casos de afastamento por doença. O que implica ou não o voto do eleitor é algo mais profundo, específico daquele que está à frente, daquele que ocupará de fato o posto a que se concorre”, avaliou.

Cientista político Wilson Ferreira da Cunha / Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Neste processo, segundo ele, é mais provável que seja considerada e avaliada a “fragilidade” dos demais candidatos do que o “peso” ou força da figura política trazida pelo vice. Na interpretação do estudioso, é mais fácil que o afastamento por si só favoreça uma candidatura específica do que o trabalho desempenhado pelo vice durante o mesmo período.

“Isso se dá especialmente por uma característica brasileira tida como particularidade doméstica. Ou seja, a representatividade por trás do principal candidato, daquele que se põe como alguém da sua família, que leva suas caraterísticas pessoais para o universo impessoal. Sabemos que o brasileiro tem a tendência de levar o coração, os sentimentos e não apenas o olhar sobre o indivíduo em si para a disputa”

Na contramão, a especialista Rejaine Pessoa avalia que a figura do vice, neste momento, pode ser, na verdade, um fator determinante para a candidatura da chapa emedebista. “Não se vota o prefeito separado de seu vice. O que observamos é que o candidato a vice tem se tornado, desde o impeachment, em 2016, uma pessoa com cada vez mais destaque. As pessoas passaram a observá-lo como alguém que pode se tornar o mandatário”, disse.

Cientista política Rejaine Pessoa / Foto: Reprodução

Para ela, é possível observar a postura de destaque exercida por grandes nomes que ocuparam cargos de vice no passado e presente. “Temos muitos casos onde a figura do vice influenciou diretamente no resultado obtido pelo titular. Isso ocorreu, por exemplo, no governo Lula que tinha como vice Jose Alencar, um homem considerado muito capaz e um empresário de sucesso; da mesma forma no governo Dilma, que tinha como vice Michel Temer, um político articulador e grande constitucionalista. Podemos ver isso se refletir também na atualidade através da figura do vice-presidente da República Hamilton Mourão, um homem que está ocupando um papel de destaque e eu diria até de moderador”, destacou a cientista.

Quanto à Goiânia, especificamente, ela avalia que o vice de Maguito, Rogério Cruz, “não é uma pessoa desligada”. “Ele já ocupou o cargo de vereador por dois mandatos, o cargo de 2° vice presidente da Câmara, já ocupou cargo de secretário, então não estamos falando de um poste. O eleitor não votaria em um e levaria outro, é uma chapa, um conjunto, na falta de um haverá o outro, nesse quesito não vejo possibilidade de impactar negativamente a disputa”, pontuou.

“Linhas de comportamento”

Por sua vez, o cientista político Pedro Célio explicou ao Jornal Opção que uma doença por ser imprevisível “afeta o quadro político de maneira especial”. “Ela cria uma série de interrogações e indefinições sobre a disputa eleitoral. A primeira e mais importante delas é se o candidato volta a tempo de prosseguir com sua campanha. Em segundo lugar, voltando a tempo ou não, como ficará aquele eleitorado que já estava com ele e aquela corrente que ia a favor dele”, explicou.

Cientista político Pedro Célio Alves Borges | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Para ele, no quesito imprevisibilidade, o eleitor deixa duas linhas de comportamento a serem questionadas, ambas possíveis: “Uma delas é se vai acontecer uma onda de comoção, que normalmente é positiva para o candidato que é a vítima. Isso atrai uma fatia do eleitorado. O tamanho dessa fatia só as urnas poderão dizer. Em segundo lugar é possível que parte do eleitorado passe a ter dúvidas sobre a efetividade de sua candidatura. São duas tendências contrastantes, a questão é saber o tamanho de cada uma delas”, pontuou.

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